quinta-feira, 2 de maio de 2019

.: Entrevista com Michel Joelsas, um ator necessário para o mundo moderno


Por Helder Moraes Miranda, em abril de 2019.

Há três coisas sobre essa entrevista que gritam. A primeira delas é que a vida que vale a pena ser lembrada é aquela construída a partir de encontros felizes. 
A segunda, é que Michel Joelsas conta com a melhor garota-propaganda possível: a mãe dele. Explico: quando os editores do Resenhando estavam indo para uma apresentação do espetáculo "Amor Profano", com Vivianne Pasmanter e Marcello Airoldi no Teatro Raul Cortez, perto da Avenida Paulista, em São Paulo. 

O objetivo era elaborar a crítica que hoje pode ser lida neste link. Marisa, mãe do rapaz, percebendo que íamos para o mesmo lugar nos abordou e pediu para ir junto - afinal era noite e a violência nas metrópoles pode fazer qualquer um virar estatística na primeira oportunidade. Fomos conversando e descobrimos que ela encontraria o filho, ator, que a havia convidado para assistir a peça teatral, já em fim de temporada. Com palavras orgulhosas e cheias de afeto, ela falou do filho, sem imaginarmos quem era, porque ela ainda não havia dito o nome. Até aquele momento, era astro em carreira ascendente sendo apresentado pela ótica amorosa da mãe. 

Poderia ser qualquer outro ator, mas era ele... Michel Joelsas. O feliz encontro com a mãe dele reverberou em outro ainda mais especial e foi na plateia do Teatro Raul Cortez que  fomos apresentados nominalmente. Michel Joelsas, o menino do filme sobre ditadura, o adolescente que quase representou o Oscar, sem a proteção de nenhum personagem. Era ele mesmo, em carne, osso e coração, com a doçura que apresenta nos filmes.

Ao mesmo tempo em que é atencioso, é polido e suave. Claro que ele é mais que o galã que encantou milhares de telespectadores em "Malhação", pois é profundo e complexo como os personagens com que conquistou o mundo nos filmes "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" e "Que Horas Ela Volta?". 

Também é mais do que um personagem de si mesmo, como tantos astros que conhecem a fama cedo sucumbem e se tornam. Ele é, antes de ator, um ser humano fantástico e, com isso, pensante - o que é raro e lindo, sobretudo nos dias de hoje. Só isso o torna necessário para o mundo de agora e para os milhares que se espelham nele. Conheça um pouco mais desse ator que considerou esta... "uma das melhores entrevistas" que ele já respondeu. A terceira delas é que o universo conspira a favor dos talentosos e puros de coração. Sendo assim, guarde este nome: Michel Joelsas. Você verá ele brilhando em vôos cada vez mais altos!


RESENHANDO - Você ficou nacionalmente conhecido ao protagonizar o filme "O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias". Particularmente, de que maneira esse filme mudou a sua vida? 
MICHEL JOELSAS - É uma honra e uma benção ter começado a carreira com "O Ano...". Por ser um filme lindo, relevante, e muito bem feito, algumas portas se abrem. E sou grato por ter sido esse filme especialmente que me iniciou na carreira que amo. Em termos de infância, nada mudou... continuei jogando bola e sendo criança, uma decisão que meus pais deixaram eu tomar. Somente mais tarde comecei a enxergar atuação e arte como uma perspectiva profissional.


RESENHANDO - O filme é de 2006 mas, 13 anos depois, continua mais atual do que nunca. Que semelhanças e diferenças você aponta, em termos gerais, para o Brasil de 2006 e o de hoje?
M.J. - De um ponto de vista pessoal, acho que o Brasil cresceu muito em diversos pontos, diminuindo diferenças sociais e dando um pouco mais de oportunidade para os menos favorecidos. Por outro lado, hoje há um avanço de um pensamento conservador e retrógrado que me assusta. Parece que a inteligência sensível das pessoas foi ocultada pela inteligência puramente racional, e no racional monta-se qualquer argumento, inclusive os mais absurdos e desumanos, e ainda assim parecerá "lógico". Sem a sensibilidade é impossível perceber o absurdo desses pensamentos. Acho que a maior semelhança entre o Brasil dessas épocas é a existência da necessidade de percebermos, como sociedade e cidadãos brasileiros,  como temos origens e cultura em comum, um exemplo: apesar de os meus avós serem lituanos vindos para o Brasil em 1928, toda família cresceu em um país com séculos de escravidão, colonização, imigração, entre outros processos que formam a nossa história e cultura. Essa identificação, em minha opinião, tem que existir em todo brasileiro.


RESENHANDO - Enquanto hoje se fala muito na volta da censura e da ditadura, o que o protagonista do filme, que é considerado um dos cem melhores do cinema nacional, tem a dizer sobre isso? 
M.J. - Não sei reponder bem. Inclusive não vivi a ditadura na pele. Vivemos tempos obscuros. Acho que uma outra ditadura seria "travestida" de democracia. Isso é perigoso.





RESENHANDO - Como foi interpretar a infância de um diretor tão importante quanto Jayme Monjardim, na minissérie "Maysa - Quando Fala o Coração"?
M.J. - Na época era criança, não enxerguei como uma responsabilidade interpretar a infância de um "diretor importante". Era só outro papel, outra criança como eu, com sonhos, medos, necessidades e faltas. Essa visão trazia uma leveza genuína e liberdade para trabalhar. E também foi uma participação muito rápida.



RESENHANDO - Qual a lembrança mais marcante que tem de "Julie e os Fantasmas"?
M.J. - Lembro de ser um set muito divertido. Ia trabalhar feliz. Ainda mais para um menino de 16 anos... Era muito mais interessante ir pro set do que ir para a escola.



RESENHANDO - Em "Que Horas Ela Volta", a diferença entre ricos e pobres é mostrada como uma crítica social. Acredita que essa barreira entre as classes sociais irá acabar um dia?
M.J. - Difícil responder. Não sei. Mas tem que acabar, no mínimo diminuir muito. Precisa-se agir nesse tema. Por isso precisamos da política nesse assunto, educação. Acho difícil agir em algo em que não acredita-se que vai dar certo.


RESENHANDO - Você declarou que apesar da semelhança com a vida estudantil de seu personagem em "Que Horas Ela Volta", o vestibular mais atrapalhou do que ajudou na construção da personagem: "Sempre acreditei que excesso de informação limita a criatividade". Explique essa frase.
M.J. - O aluno do vestibular clássico é forçado a ser uma máquina de informação, de resolução de questões de vestibular. Essa automatização de pensamento atrapalha, o horizonte é fechado para aquele mundo de internalizar informações. A criatividade é livre e não pode ser reduzida à essa máquina, a esse modo de pensamento cristalizado. No fim do ano de vestibular já se está saturado.  Automatizado para acessar aquele turbilhão de informações decoradas na mente. Na minha opinião, isso atrapalha a criatividade.


RESENHANDO - Como foi trabalhar com Regina Casé?
M.J. - Foi muito bom. Ela é ótima atriz! Aprendi muito com ela.



RESENHANDO - Em "Eu Fico Loko", você interpretou um amigo de Christian Figueiredo, um dos YouTubers mais conhecidos do Brasil. Qual é a importância da internet na vida de um ator?
M.J. - É essencial! O ator precisa estudar... e a internet é um ótimo meio de pesquisa, de comunicação. Dá para ler peças, ver filmes, acessar pdf de livros, pesquisar assuntos necessários para qualquer personagem... E se comunicar com o mundo também!


RESENHANDO - Você trancou o curso de administração porque quis se arriscar e seguir o caminho de ator. Qual foi a motivação que lhe fez tomar essa coragem?
M.J. - Eu escolhi um curso errado para mim... depois de um ano iniciei a graduação em artes cênicas, e deixei de lado algumas influências sociais que me fizeram, ao 17 anos, escolher um curso que não tem nada a ver comigo. E decidi seguir uma vontade minha, uma intuição. Respeitar a algumas "dicas" que a vida nos da. Viver a experiência. Hoje sei que quero viver e fazer arte, na época não afirmava isso com certeza... Somente quando saí da arte, que percebi o quanto para mim é difícil estar longe. Enfim, segui meu coração. Intuição. Alma. Sei lá. Uma vontade, necessidade maior.


RESENHANDO - Além de ator, você pretende se aventurar em outras áreas, como direção?
M.J. - Quando tiver mais experiência e for mais velho, quero escrever e dirigir cinema também. Colocar algumas ideias e histórias no papel e fazer virar filme. Dialogar com o mundo de outra maneira.  Por enquanto, estou focado na atuação, e acho que ser um bom ator é um ótimo caminho para dirigir e escrever também.


RESENHANDO - Ter dois filmes indicados para representar o Brasil no Oscar aumenta a sua responsabilidade de escolher papéis, ou você é mais intuitivo?
M.J. - Tento escolher projetos legais dentro do leque de possibilidades que tenho. Algo que me identifique, acredite, que seja um desafio, que me mova, ou mova o mundo. Mas não por causa da minha participação em filmes que tiveram indicações em festivais importantes, ou tiveram um reconhecimento legal.



RESENHANDO - Ser um dos protagonistas de "Malhação" marcou, de alguma maneira, a transição da imagem de criança para papéis adultos?
M.J. - Talvez sim. A Globo traz visibilidade. E o filme "O Ano..." ficou marcado. E como fazia uma criança no filme, e adulto na novela, talvez essa transição tenha sido evidenciada. Lembro que na época a Globo fez, em algum portal, uma reportagem falando dessa transição entre o menino de dez anos de "O Ano..." e do personagem da "Malhação".


RESENHANDO - O que muda para um ator - em relação ao reconhecimento do público - a escalação para uma das maiores vitrines da Rede Globo? 
M.J. - A Globo tem um alcance grande, então é natural que o ator se torne mais conhecido. O que me chamou a atenção foi que, às vezes, as pessoas associam o sucesso de um ator com trabalhar na Globo, enquanto que existem diversos atores bem sucedidos em teatro, cinema, bem como na televisão. Além de que o conceito de sucesso é algo bem amplo. Mas essa é uma concepção que muitas pessoas do público fazem.



RESENHANDO - Como foi esse período para você?
M.J. - Foi um período de muito aprendizado, tanto pessoal como profissional. Estava acostumado a fazer cinco cenas por dia em cinema, já na televisão grava-se mais de 30 cenas em um dia... isso exige muito do ator. 


RESENHANDO - Em que as tradições judaicas contribuem ou interferem no ofício de atuar?
M.J. - Pessoalmente, atuo melhor quando estou me sentindo conectado. A sabedoria e a mística judaica ajudam muito a me conectar e também propiciam um entendimento mais profundo do ser humano, necessário ao ator. Além disso, essa busca interna e esse entendimento ajudam a descobrir como e porque um personagem age e pensa de tal maneira. E é a forma de agir e pensar no conjunto das circunstâncias dadas no roteiro ou na dramaturgia que constitui a personagem.


RESENHANDO - "Manual para se Defender de Aliens, Ninjas e Zumbis"... Em uma entrevista, você disse que dá para fazer várias metáforas. Qual é a maior delas?
M.J. - Na série, os Aliens querem dominar o planeta Terra para extrair as riquezas necessárias - por exemplo, o CO2 - e levar para o planeta deles. Por isso, eles aparentam como humanos e ocupam posições de liderança na sociedade, como empresários, políticos e etc... e agem do jeito que agem no mundo. Acho isso uma grande metáfora da nossa sociedade.


RESENHANDO - Ainda em relação à série, como foi fazer esse trabalho? 
M.J. - Amo fazer séries. É parecido com cinema. Lembro de voltar muito feliz para a casa depois dos dias de filmagem, e exausto também. Cansado e energizado. Feliz. Fazer um protagonista sempre exige muito. E também a equipe era muito legal. Isso muda muito o trabalho. Fora isso, a série foi filmada quando eu estava prestes a passar por uma forte evolução como ator... É bom se assistir e perceber um crescimento.




RESENHANDO - "Rotas do Ódio"... Por que uma série sobre crimes de ódio é necessária, em pleno século XXI?
M.J. - É uma série extremamente necessária atualmente. Intolerância e preconceito tem  ganhado muito espaço na Brasil. E dentre outras ações desse tipo, esses crimes têm ocorrido muito. A série se passa em São Paulo, e é inspirada em fatos reais. Uma forma de conscientização e denúncia por meio de uma arte e entretenimento muito bem feito. A arte tem esse poder de penetração no ser humano, seja por catarse ou por reflexão. Algo que uma discussão racional usualmente não consegue fazer com a mesma potência.


RESENHANDO - Qual é o seu livro favorito?
M.J. - Não tenho um livro favorito. Atualmente estou lendo "O Estrangeiro" do Camus. E terminei recentemente o "Dois Irmãos" do Hatoum, que me atravessou completamente. Gosto também de poesia, filosofia, e livros de estudo da sabedoria e mística judaica.




*Helder Moraes Miranda é bacharel em jornalismo e licenciado em Letras pela UniSantos - Universidade Católica de Santos, pós-graduado em Mídia, Informação e Cultura, pela USP - Universidade de São Paulo, e graduando em Pedagogia, pela Univesp - Universidade Virtual do Estado de São Paulo. Participou de várias antologias nacionais e internacionais, escreve contos, poemas e romances ainda não publicados. É editor do portal de cultura e entretenimento Resenhando.



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