domingo, 30 de agosto de 2026

.: Chris Marker mostra como Kurosawa construiu “Ran” em documentário


Documentário de Chris Marker acompanha Akira Kurosawa durante a realização de “Ran” e revela o método obsessivo, a escala monumental e os bastidores de uma das produções mais ambiciosas da carreira do cineasta japonês; filme estreia no Belas Artes À La Carte

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

“Ran” significa “caos”, e o título de um filme nunca pareceu tão apropriado. Em 1985, enquanto Akira Kurosawa colocava em movimento uma das produções mais ambiciosas da carreira dele, Chris Marker estava por perto, observando. O resultado desse encontro é “A.K. Akira Kurosawa - Os Segredos de 'Ran'”, documentário francês que acompanha o cineasta japonês durante as filmagens de “Ran” e está no catálogo do streaming Belas Artes À La Carte, juntamente ao clássico dirigido por Kurosawa. A programação foi anunciada pelo Belas Artes como uma celebração especial da obra do diretor.

Marker, autor de filmes como “La Jetée” e “Sans Soleil”, não transforma o registro em um making of convencional, daqueles que explicam cada departamento da produção como se o espectador estivesse diante de um manual de instruções. O interesse está no homem que dirige, espera, observa, corrige e decide. O Festival de Cannes selecionou “A.K.” para a mostra Un Certain Regard em 1985, ano em que o documentário chegou ao festival.

O documentário acompanha Kurosawa no trabalho de construção de “Ran”, adaptação da tragédia "Rei Lear", de William Shakespeare,, transposta para o Japão feudal. O senhor feudal Hidetora decide dividir seus domínios entre os três filhos, Taro, Jiro e Saburo. Parece uma boa ideia até o momento em que os herdeiros percebem que dividir um reino é muito menos interessante do que tomar posse dele inteiro. É aí que a tragédia começa a ganhar espadas, cavalos, castelos, incêndios e uma quantidade considerável de problemas familiares. Kurosawa substitui as três filhas de Lear pelos três filhos de Hidetora e constrói uma narrativa em que poder, velhice, orgulho e violência se misturam em proporções pouco saudáveis.

“A.K.” observa esse processo de perto. Marker registra Kurosawa, a equipe do filme e os gigantescos preparativos de “Ran” sem transformar o diretor em uma espécie de celebridade entrevistada diante de uma câmera. A atenção recai sobre os gestos, as esperas, os ensaios, os deslocamentos dos figurantes e a maneira como o cineasta organiza uma produção de dimensões extraordinárias. O catálogo do Yamagata International Documentary Film Festival descreve o filme como um registro dos pequenos comportamentos de Kurosawa e da equipe dele, construído de maneira diferente de um making of convencional.

Kurosawa tinha 75 anos quando dirigiu “Ran” e já enfrentava sérios problemas de visão. Durante aproximadamente uma década, preparou o filme por meio de desenhos e storyboards, muitos deles pintados pelo próprio diretor. O material servia como referência para a equipe, que precisava compreender com precisão os enquadramentos, as cores, a posição dos personagens e os movimentos das cenas. A pesquisa reunida no arquivo confirma que os desenhos foram fundamentais para a preparação das filmagens. O documentário mostra essa obsessão em funcionamento. 

Kurosawa podia passar horas esperando a combinação certa de luz, vento ou nuvens. Uma produção que reunia centenas de figurantes e cavalos dependia de uma logística quase militar, enquanto o diretor continuava perseguindo a imagem que tinha imaginado anos antes. O próprio material de pesquisa destaca o modo como Marker registra essas esperas e até uma cena preparada durante um dia inteiro que acabou descartada pelo diretor na montagem.

A dimensão de “Ran” ajuda a entender o tamanho da empreitada. O filme utilizou cerca de 1.400 figurantes e 200 cavalos, e o castelo destruído em uma das sequências mais famosas foi construído especialmente para a produção. A cena do incêndio não nasceu de uma maquete: Kurosawa mandou construir a fortaleza e colocou fogo nela para registrar a destruição. O resultado está entre as imagens mais impressionantes da filmografia do diretor.

O cuidado visual também aparece nos figurinos. Centenas de peças foram confeccionadas manualmente durante cerca de dois anos, trabalho que rendeu a Emi Wada o Oscar de Melhor Figurino em 1986. “Ran” recebeu ainda indicações ao Oscar de Melhor Diretor, Direção de Arte e Fotografia. As cores dos exércitos funcionam quase como personagens dentro da composição de Kurosawa. Amarelo, vermelho e azul ajudam o espectador a identificar as facções e remetem à tradição visual do teatro Nô. O cuidado cromático transforma as batalhas em grandes pinturas em movimento, mas a beleza nunca consegue esconder o desastre humano que acontece dentro delas.

Marker também encontra espaço para observar a relação entre o diretor e aquilo que está ao seu redor. “A.K.” não pretende explicar Kurosawa de maneira definitiva. O espectador percebe um cineasta meticuloso, econômico nas palavras e capaz de coordenar uma máquina gigantesca sem perder de vista a imagem que carrega na cabeça. A produção de “Ran” ainda foi marcada por uma tragédia pessoal. Yōko Yaguchi, esposa de Kurosawa por 39 anos, morreu durante as filmagens. Segundo o material reunido sobre o documentário, o diretor interrompeu a produção por apenas 24 horas e voltou ao trabalho no dia seguinte.

A escolha de Marker para registrar esse momento não poderia ser mais adequada. O cineasta francês também tinha uma relação muito particular com o documentário, trabalhando frequentemente na fronteira entre observação, ensaio e reflexão sobre a própria natureza da imagem. Em “A.K.”, ele encontra um personagem perfeito para esse método: um diretor que pensa cinema até quando parece simplesmente esperar.

A chegada ao Belas Artes À La Carte cria uma oportunidade particularmente boa para assistir aos dois filmes em sequência. Primeiro, “A.K.” mostra a engrenagem. Depois, “Ran” entrega o resultado dessa obsessão em forma de tragédia. É quase como acompanhar a construção de um castelo sabendo, desde o começo, que alguém vai colocar fogo nele.


Ficha técnica
“A.K. Akira Kurosawa – Os Segredos de 'Ran'” | “A.K.” (título original) | “A.K. (Akira Kurosawa)” (título em Portugal)
Gênero: documentário, história, biografia. Duração: 75 minutos. Classificação indicativa: livre. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de maio de 1985, na França. Idioma: francês e japonês. Direção e roteiro: Chris Marker. Fotografia: Frans-Yves Marescot. Música: Tōru Takemitsu. Elenco: Akira Kurosawa, Tatsuya Nakadai, Ishirō Honda, entre outros. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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