Com Meryl Streep no centro de um drama escrito por David Hare, "Plenty - O Mundo de Uma Mulher" acompanha duas décadas da vida de Susan Traherne, ex-integrante da Resistência Francesa que descobre, depois da Segunda Guerra Mundial, que a paz pode ser muito menos excitante do que imaginava
Meryl Streep encara uma das personagens mais desconfortáveis da carreira em "Plenty - O Mundo de uma Mulher", drama dirigido por Fred Schepisi que chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte. O filme acompanha Susan Traherne desde mensageira da Resistência Francesa, durante a Segunda Guerra Mundial, até os anos seguintes ao conflito, quando a vida que deveria representar liberdade, estabilidade e prosperidade começa a parecer pequena demais para alguém que se acostumou ao risco.
O roteiro de David Hare, adaptado da própria peça teatral escrita por ele em 1978, percorre quase duas décadas da vida da protagonista. Susan retorna à Inglaterra depois da guerra esperando encontrar um país renovado e uma existência à altura dos ideais pelos quais lutou. O problema é que o cotidiano tem pouco interesse em corresponder às expectativas de quem acabou de sobreviver a uma guerra.
Na França ocupada, Susan viveu uma experiência marcada pelo perigo, pela urgência e por um romance breve com Lazar (Sam Neill), agente britânico que chega de paraquedas para auxiliar a Resistência. O encontro dura pouco, mas permanece na memória dela durante anos. De volta à Inglaterra, Susan passa por empregos, relacionamentos e situações que parecem incapazes de preencher o espaço deixado por aquela juventude vivida em condições extraordinárias.
É nesse período que entram Raymond Brock (Charles Dance), diplomata com quem ela se casa, Alice Park (Tracey Ullman), amiga e companheira de moradia, e Mick (Sting), homem que Susan procura numa tentativa pouco convencional de realizar o desejo de ser mãe. John Gielgud e Ian McKellen completam o elenco principal como figuras ligadas ao universo diplomático que cerca Raymond.
A atuação de Meryl Streep foi bastante observada pela crítica na época do lançamento. Roger Ebert, em crítica publicada no Chicago Sun-Times em setembro de 1985, chamou atenção para a sutileza com que a atriz constrói Susan, uma mulher autodestrutiva, difícil de compreender e ainda mais difícil de acompanhar emocionalmente. Para o crítico, a personagem poderia ter sido reduzida a um conjunto de sintomas, mas Streep consegue lhe dar personalidade e contradições.
O filme também dividiu opiniões. A crítica da revista "The New Yorker", assinada por Pauline Kael, destacou o mal-estar político e emocional presente no texto de David Hare e descreveu Susan como uma personagem marcada pela perda do idealismo juvenil. Já a "Los Angeles Times" enxergou na produção uma investigação sobre o preço cobrado pelo idealismo romântico, elogiando particularmente a interpretação de Streep.
A relação de "Plenty" com o teatro merece atenção. A montagem original da Broadway estreou em 6 de janeiro de 1983, no Plymouth Theatre, e permaneceu em cartaz por 92 apresentações. A peça recebeu indicações ao Tony, incluindo Melhor Peça, Melhor Atriz para Kate Nelligan e Melhor Ator para Edward Herrmann.
Nelligan, aliás, foi a primeira intérprete de Susan Traherne nos palcos de Londres e Nova York. Para o cinema, a personagem passou para Meryl Streep, que já havia construído uma carreira de enorme prestígio e vinha de "A Escolha de Sofia". A troca provocou discussões sobre o que se ganhava e o que se perdia quando uma personagem originalmente associada ao teatro britânico passava a ser interpretada por uma estrela de Hollywood.
A própria estrutura do filme ajuda a explicar algumas das reações tão diferentes. "Plenty" não conta a trajetória de Susan de maneira convencional: a narrativa avança e recua no tempo, acompanhando diferentes momentos de sua vida e colocando suas experiências pessoais ao lado de acontecimentos da história britânica do pós-guerra, incluindo a coroação de Elizabeth II e a Crise de Suez. A crítica da "Time Out" observou que a adaptação cinematográfica desloca o ponto de vista entre personagens, ampliando a dimensão social da peça original.
O título ganha um sentido particularmente irônico quando se considera a passagem da austeridade do pós-guerra para um período de maior prosperidade material. Susan, porém, parece cada vez menos capaz de aproveitar aquilo que deveria representar uma vida confortável. Quanto mais a sociedade avança em direção à estabilidade, maior fica a distância entre o que ela esperava do futuro e aquilo que efetivamente encontra.
O resultado é um filme centrado numa mulher difícil, contraditória e muitas vezes desagradável, mas justamente por isso interessante. Susan não se encaixa facilmente no papel de heroína, vítima ou vilã, e Meryl Streep aceita o desconforto de interpretar alguém cuja inquietação contamina o casamento, as amizades e a própria percepção que ela tem de si mesma.
Ficha técnica
"Plenty - O Mundo de Uma Mulher" | "Plenty" (título original) | "Plenty, Uma História de Mulher" (título em Portugal)
Gênero: drama. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de setembro de 1985. Idioma: inglês. Direção: Fred Schepisi. Roteiro: David Hare. Elenco: Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Ian McKellen, Sam Neill, Burt Kwouk e Pik-Sen Lim. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Gênero: drama. Duração: 124 minutos. Classificação indicativa: 14 anos. Ano de produção: 1985. Data de lançamento: 20 de setembro de 1985. Idioma: inglês. Direção: Fred Schepisi. Roteiro: David Hare. Elenco: Meryl Streep, Charles Dance, Tracey Ullman, John Gielgud, Sting, Ian McKellen, Sam Neill, Burt Kwouk e Pik-Sen Lim. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
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