Filme de Carlos Reichenbach chega à Reserva Imovision com mistura de erotismo, humor, política e espírito anárquico, além de uma história marcada pelo confronto com a censura durante a ditadura militar
Carlos Reichenbach gostava de misturar coisas que, em mãos menos inquietas, não cabiam no mesmo filme. Em "O Império do Desejo", que chega à plataforma de streaming Reserva Imovision em um momento de redescoberta da obra do diretor, cineasta que se tornou um dos nomes mais particulares da chamada Boca do Lixo paulistana. Ele junta erotismo, chanchada, política, humor, aventura, música e uma galeria de personagens excêntricos para acompanhar Sandra (Meiry Vieira), uma viúva que vai ao litoral recuperar a casa de praia deixada pelo marido, ocupada por grileiros.
No caminho, ela dá carona a um casal de hippies e, depois de retomar a propriedade com a ajuda do advogado Dr. Carvalho (Benjamin Cattan), convida os dois para cuidar do imóvel. A partir desse encontro, a casa vira ponto de encontro para personagens que se envolvem física e emocionalmente em uma trama que passa pelo desejo, pela liberdade e pela provocação política. Roberto Miranda interpreta Nicolau em um elenco que reúne Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França e outros nomes ligados ao cinema brasileiro daquele período.
Nascido em Porto Alegre e criado em São Paulo, Carlos Reichenbach estudou na Escola Superior de Cinema São Luiz, onde integrou a segunda turma da instituição e teve entre seus mestres nomes como Roberto Santos, Anatol Rosenfeld, Paulo Emílio Salles Gomes, Mário Chamie, Décio Pignatari e Luiz Sérgio Person. A carreira começou ainda no ambiente da Boca do Lixo, com trabalhos como "As Libertinas" e "Audácia! - A Fúria dos Desejos".
Depois, Reichenbach construiu uma filmografia que transitou por diferentes gêneros e combinou referências populares e eruditas. "A Ilha dos Prazeres Proibidos", lançado em 1978, já apresentava características que se tornariam recorrentes em seu cinema: alegorias políticas, personagens intelectuais e militantes, ironia, erotismo e uma aproximação entre elementos da cultura popular e referências eruditas. "O Império do Desejo" pertence a essa mesma fase de experimentação.
A estrutura do filme ajuda a entender o método de Reichenbach. A premissa aparentemente simples da viúva que deseja recuperar uma casa de praia abre espaço para uma sucessão de encontros, desejos, conflitos e situações absurdas. A casa deixa de ser apenas cenário e passa a concentrar uma espécie de microcosmo em que diferentes personagens e ideias convivem, enquanto o diretor brinca com convenções do cinema erótico e da comédia popular.
A mistura de gêneros não acontece por acaso. Reichenbach buscava em "O Império do Desejo", que foi realizado na esteira do sucesso comercial de "A Ilha dos Prazeres Proibidos", manipular clichês narrativos, subverter o repertório do cinema erótico e comercial, misturar gêneros e utilizar a música como elemento narrativo. O histórico com a censura acrescenta outra camada à trajetória da produção. A Cinemateca Brasileira registra certificados de censura emitidos em 1980 e 1981, incluindo um certificado do Conselho Superior de Censura. O filme chegou a ser interditado em todo o território nacional sob a acusação de ser subversivo e atentatório à moral e aos bons costumes, antes de ser liberado integralmente pelo recém-criado Conselho Superior de Censura com a classificação de "espetáculo pornográfico".
O próprio Reichenbach explicou, anos depois, a ligação que enxergava entre desejo e política. Em entrevista à Abraccine, o cineasta afirmou que não conseguia separar essas duas dimensões e definiu "O Império do Desejo" como um filme em que a questão do desejo era eminentemente política. Também contou que a produção foi convidada para festivais de cinema anarquista em Melbourne e Lyon.
Essa trajetória internacional não ficou restrita a esses eventos. O International Film Festival Rotterdam apresentou o longa-metragem em 2012, em uma nova cópia em 35 mm, depois de um período em que a obra permaneceu praticamente inacessível e pouco lembrada. O festival também registra a participação de Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Meiry Vieira, Orlando Parolini, José Luiz França e Nádia Destro no elenco principal.
"O Império do Desejo" permanece como uma peça curiosa da filmografia de Reichenbach por concentrar características que acompanham seu cinema: personagens marginais, provocação política, erotismo, humor, referências culturais diversas e uma vontade permanente de escapar das fórmulas convencionais. O filme pertence a um período específico do cinema brasileiro, mas conserva uma energia própria, especialmente pela maneira como Carlos Reichenbach transforma as limitações de produção em matéria para a invenção.
O diretor morreu em 2012, aos 67 anos. Ao longo da carreira, escreveu e dirigiu mais de 20 filmes, entre longas-metragens, curtas e episódios de antologias, além de trabalhar como diretor de fotografia, professor, músico, fotógrafo, crítico, ator e ensaísta. A partir de filmes como "Alma Corsária", "Filme Demência", "Garotas do ABC" e "Falsa Loura", sua obra ganhou novas leituras e voltou a despertar interesse entre espectadores e pesquisadores do cinema brasileiro. É cinema de uma época, com as marcas do tempo, mas também um retrato bastante claro da liberdade criativa que Reichenbach perseguia.
Ficha técnica
"O Império do Desejo" (título original)
Gênero: comédia dramática, erótico. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1980. Data de lançamento: 30 de março de 1981, em São Paulo. Idioma: português. Direção: Carlos Reichenbach. Roteiro: Carlos Reichenbach. Elenco: Meiry Vieira, Roberto Miranda, Benjamin Cattan, Márcia Fraga, Orlando Parolini, Aldine Müller, Nádia Destro, Marta Anderson, José Luiz França, Mii Saki, Dino Arino, Genésio de Carvalho, Felipe Donovan, Maristela Moreno e Cavagnole Neto. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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