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domingo, 4 de setembro de 2022

.: Capítulo 4: "Aurora" em "Totalmente acordada"



Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em setembro de 2022


Diante de Maria Helena, sentada na cadeira de rodinhas, numa pose um tanto que confortável e relaxada, aquela mulher de longas madeixas pretas azuladas abriu um sorriso enquanto respondeu a pergunta que não saía da mente da escritora.

- Sou Aurora. A sua criação!, levantou-se com certo deboche no canto da boca enquanto dizia e, por fim, posicionou-se cara a cara com a dona da casa mantendo as sobrancelhas no alto, passou a língua nos dentes com os braços cruzados, pendeu o quadril para o lado esquerdo, batendo a ponta da sola do pé direito.

Maria Helena desviou o olhar. Colocou a caneca com chá de amora quentinha que estava entre as mãos, em cima do móvel ao lado. Coisa que nunca fez até hoje. Era zelosa e sabia que aquele repouso iria manchar parte da estante do computador que seu pai lhe dera aos 15 anos, feito pelo marceneiro da família, que veio equipada com um computador de " processador 166", microfone, impressora e scanner de mesa. 

Era aquilo ou derrubaria todo o líquido no chão e ainda quebraria sua caneca favorita. Engoliu em seco com a afronta. Uma completa confusão mental invadiu os pensamentos duvidosos dela, somente foi capaz de questionar com a voz falha:

- Isso aqui é uma pegadinha ou...?!

Não conseguiu completar a pergunta, uma vez que foi invadida por uma tontura que lhe tirou o chão, embora tenha sido rápida para se segurar na lateral do móvel do computador antes de cair de joelhos, definitivamente no chão. 

Respirou fundo, fechou os olhos. Tornou a respirar fundo, abriu os olhos. Levantou a cabeça e lá estava a tal Aurora sorrindo até que disse:

- Ora! Ora! Não se espante! Eu sou um pouco de você, de todos os que conhece e daqueles a quem você conheceu por tantos encontros da vida, por livros e vídeos. Eu sou o resultado deles, mas também muito de você! Não há o que temer, pois você me conhece, mais do que eu mesma.

Maria Helena sentou-se no chão acarpetado sem tirar os olhos de Aurora que tornou a se sentar na cadeira de rodinhas. E perguntou:

- Quem mandou você aqui para fazer essa brincadeira descabida comigo?

Aurora tirou o sorriso do rosto e respondeu: 

- Calma, Maria Helena! Eu só uma criação sua. É que eu não estava gostando da minha história e vim aqui propor um acordo.

Foi quando a campainha tocou. Era o marido de Maria Helena. Tinha chegado do trabalho.

- Você fique aqui. Que eu irei explicar tudo para o Eder. Se é que isso tem como dar alguma explicação que seja.

Aurora sentou-se na cadeira de modo despojado, enquanto sorriu para Maria Helena e disse:

- Ok. Até mais!


*Editora do portal cultural www.resenhando.com. É jornalista, professora e roteirista. Twitter: @maryellenfsm

Wide Awake, Katy Perry




quinta-feira, 4 de agosto de 2022

.: Capítulo 3: "Aurora" em "Sorria", por Mary Ellen Farias dos Santos

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em agosto de 2022


- Chega! Chega!, falou baixo e num tom raivoso, enquanto afastava a cadeira de rodinhas da mesa do computador. Esticou os braços para cima e, colocando o pescoço para trás, com a cabeça acompanhou o movimento fazendo com que os olhos encarassem o lustre do escritório, item que foi passado da vó para a mãe e agora, tal honraria, era dela e ficava exatamente acima de sua cabeça quando usava o computador.

Estava bloqueada. Não conseguia desenvolver mais a personagem que batizou com o nome de sua avó.

- E agora, Aurora?, resmungou Maria Helena enquanto seguia pelo corredor do apartamento vagarosamente, passando os dedos hora ou outra pela parede. Estava decidida a fazer um café com leite e canela. Bem quentinho. A jornalista e professora, precisava avançar naquele romance que estava sem eira e nem beira e, o pior, a reunião com a editora-chefe estava marcada para os próximos dias. Tinha que ter mais do que aquelas poucas linhas. No mínimo um capítulo que fosse.  

Maria Helena estava presa com Aurora naquele carro. Não que estivesse perdido a consciência. Do lado de cá da tela, eram tantas as incertezas que ela havia perdido a inspiração para seguir a contar aquela trama, mas sabia que a resposta para a história ganhar o fôlego necessário estaria naquele café especial. 

- Bom, tenho certeza de que com essa mistura dos deuses eu vou abrir a minha mente, falou para si, enquanto aquecia a água para a bebida, num tom baixo, mas que dava para ser ouvido, caso estivesse ali com alguém.

Da cozinha, um barulho estranho veio do escritório, mas logo culpou seu filhote de jabuti. O que será que o Bebê está aprontando agora? Depois gostam de pintar esses bichinhos como lentos. Só quem tem sabe o quanto aprontam, pensou enquanto colocava, numa canequinha com a estampa do Guizmo, um pouco de café instantâneo mesclado a leite em pó e um toque de canela em pó com açúcar. 

- Hum! Que cheirinho delicioso!, disse alegremente.

Por um momento pensou em voltar para o escritório com a canequinha na mão para tomar o café aos poucos, mas concluiu que de nada adiantaria. Precisava sair por um tempo do cenário de puro vazio em que havia mergulhado naquela manhã de setembro.

Enquanto cantarolava, ouviu o som de aviso do celular. Era uma mensagem carinhosa do marido, Éden. Foi o suficiente para se distrair e deixar a água ferver e borbulhar a ponto de espirrar para fora da pequena panela que habitualmente usava.

- Meu Deus! Molhei até o fogão!, brigou consigo enquanto rapidamente pegou o paninho da pia e um garfo ajudar a secar os respingos de água entre a grade, após fechar a passaem do gás que era encanado.

Tomou o café assistindo daqueles vídeos engraçados e sentiu uma maior disposição. Era o momento de voltar para o quarto e escrever, mas depois de lavar e guardar tudo o que usou, decidiu fazer um chá de laranja, do que havia comprado uma caixinha cheia de saquinhos. Colocou dois com umas folhinhas de amora que colheu no jardim da casa da avó. Tudo junto no compartimento correto da cafeteira elétrica. Maria Helena fazia chá na cafeteira que ganhou de casamento e até hoje, após 15 anos, não faz ideia de quem lhe deu o presente que tanto usava, até nos dias quentes.

Com a caneca favorita das princesas, cheia e adoçada, seguiu pelo corredor até o escritório até que, diante dela, uma mulher sentada na cadeira do computador, de costas e longos cabelos, virou-se com um lindo sorriso para Maria Helena e disse: 

- Você voltou. Ótimo! Bem, precisamos conversar urgentemente.

Maria Helena não conseguiu esboçar qualquer reação, nem um grito ou correr para longe. Tudo o que manteve foi as duas mãos nas partes laterais da caneca. Entretanto, a tremedeira foi a conta certa para que o líquido começasse a vazar  e chegasse ao chão.

- Pling! Pling!

- Quem é você?!, perguntou com a voz trêmula enquanto manteve os olhos arregalados.


*Editora do portal cultural www.resenhando.com. É jornalista, professora e roteirista. Twitter: @maryellenfsm


.: Capítulo 4: "Aurora" em "Totalmente acordada"


Smile, Katy Perry




segunda-feira, 4 de julho de 2022

.: Capítulo 2: "Aurora" em "Nunca realmente acabou"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em julho de 2022


O som da chuva era intenso. Não conseguia abrir os olhos, mas o pensamento fervia. Sentiu muita dor nos ombros e pescoço, até que um calafrio, involuntariamente, trouxe uma recordação ingrata. O pesadelo da madrugada que a fez acordar sem fôlego e com lágrimas nos olhos. Parecia tão real a ponto de sentir dor nas batatas das pernas. Estava com a bicicleta de alumínio, do primo, emprestada. Pedalou por jardins cheios de margaridinhas num verde vibrante, igual a lindos filmes animados. Contudo, por um breve descuido, após abraçar um amigo que não via desde quando cursaram a segunda graduação, a magrela que tinha sido deixada encostada na parede de uma casinha amarela e branca, com janelas de madeira abertas para fora, sumira. 

Teria sido um aviso? A mente nos surpreende com recados difíceis de decifrar. 

Ali, com o corpo tombado em cima do volante, lutou para não desmaiar. Dentro do carro com os vidros completamente embaçados, recebendo mais pingos grossos e barulhentos por fora, Aurora lembrou que precisava voltar logo para casa. Tinha deixado seus filhotes de jabutis no jardim de casa. 

- Tenho que recolher meus bichinhos. É perigoso! Sorte que estou perto de casa...

Subitamente foi invadida por recordações múltiplas. Se viu pequenininha, na verdade, olhou para as próprias pernas cheinhas e dobradas. Nos pés, lindas sandálias marrons. Estava sentada numa escada pequena de madeira. Muito orgulhosa daquele novo calçado. Na verdade, essa era a lembrança mais antiga de Aurora. 

Contudo, parecia ser uma observadora de coisas vividas. Estava em uma de tantas vezes em que esteve nos braços do pai, ainda pequena ao som de um vinil de Julio Iglesias. Com o tempo a dança passou a ser com os pés dela no peito do pé do pai. Eram dois pés de valsa naquela sala pequena com um grande tapete e dois sofás de três lugares, uma estante embutida, uma televisão de botões prata e lateral em madeira. Muitos livros ali. Alguns nunca lidos.

Ah! Os livros... Grandes paixões de Aurora. Quando leu por conta própria o clássica da literatura brasileira, "Senhora", de José de Alencar e se apaixonou pela história de Aurélia e seu triunfo. Ao cursar a primeira graduação, recebeu uma boa quantia em dinheiro do pai para comprar livros. Entre as novidades estava "O Mundo de Sofia", de Jostein Gaarder. Até que conheceu o escritor Roberto Drummond, o autor de "Hilda Furacão" e caiu de amores pelo jornalismo literário.

Pode se observar, estava com alguém um pouco distante daquela banca, que observava a vitrine de uma loja. Era lua-de-mel e comprava o último DVD da série "Hilda Furacão" adaptada para TV por Gloria Perez. Os dois maratonaram o seriado numa época em que pouco se usava esse verbo.

Estava de noiva, com um vestido de princesa. Não igual ao que imaginava de criança, com mangas bufantes, mas a saia era do tipo bolo e o véu bem longo. Seu rosto jovem, ainda longe de ser uma quarentona. Era o dia de seu casamento. Até a lembrancinha entregue aos convidados estava nítida na lembrança. Chegou a dizer para a prima:

- Esse é seu. Coloque no móvel para pegar pó!, riram e se abraçaram. Anos depois foi a vez de a outra se casar.

Até a professora da segunda e terceira série, de cabelos pretos, chanel e óculos de lentes grossas, estilo Velma de "Scooby-Doo: Cadê Você?", chamada de professora Sônia Emília, passou por ela e lhe entregou um caderninho de capa dura em que escreviam mensagem positivas para ela. Nunca se esqueceu da vez em que foi tirar uma dúvida, coisa que nunca fazia, por ter vergonha de falar com a professora, e levou uma bronca para sentar já. Aquele grito ecoou para sempre.

Dentro do vestido de noiva, Aurora se pergunta "com quem se casou". Não que tivesse tantos namoradinhos antes, mas o rosto de quem a levou ao altar estava inacessível, somente borrões. Parecia como que um clarão abrindo ao redor dele para desfocar o rosto. Enquanto buscava na mente, foi despertada por alguém batendo no janela do carro.

Plop! poc! pok!


*Editora do portal cultural www.resenhando.com. É jornalista, professora e roteirista. Twitter: @maryellenfsm


.: Capítulo 3: "Aurora" em "Sorria"

Never Really Over, Katy Perry


sábado, 4 de junho de 2022

.: Capítulo 1: "Aurora" em "Quando eu fui embora"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos

Em junho de 2022


Era hábito, sempre respondia "igual aos outros" quando alguém lhe perguntava sobre como havia sido o dia. Ok. A verdade é que nas reuniões de grupos, por menores que fossem, ela era a que ficava mais calada. Assim, adotou como fuga um parceiro que só precisava estar carregado e com franquia suficiente de dados: o celular. 

A verdade é que aquele dia não era mais um para ela rotular como mais um "igual aos outros". Aurora estava saindo de um grupo de idade e mudando para outro. Estava completando 40 anos. A princípio, tudo acontecia dentro dos padrões a que ela estava habituada. 

Enquanto dirigia até o centro da cidade, lembrou-se de ter deixado em cima da mesa da cozinha o último CD da Katy Perry. Pois é! Então fez o que o título do álbum indicava: Sorriu. Era da velha guarda, ainda curtia comprar os discos prateados das suas cantoras favoritas, e a norte-americana, a mãe da Daisy, estava na lista das cinco mais amadas, ao lado de Mariah Carey, Shakira, P!nk e Whitney Houston.

O expediente do banco, ainda acontecia, quando passou numa agência para conferir o saldo no caixa. Na tela constava R$ 13,31. Sabia que teria de cobrar o RH do jornal por tal equívoco. Mais uma vez. Chato e desgastante. O pior seria esperar mais alguns dias até o valor finalmente cair em sua conta, com atraso, claro.

- Parece que não existe pix, mas se fosse eu que atrasasse algo... - resmungou a aniversariante.

Enquanto se afastava da máquina e guardava  o cartão no compartimento correto da bolsa, sorriu. Lembrou-se de que tinha dormido com a parte de cima do "babydoll" do avesso. Quando notou que estava prestes a deixar escapar uma risadinha a ponto de alguém ali ouvir, segurou-se.

Ao cruzar a porta de vidro para a calçada ouviu um barulho forte vindo da esquina. Parou e rapidamente localizou o ponto daquele caos. Um homem abriu a porta do carro sem olhar e derrubou um motoqueiro. Ao longe observou a cena. A demora do causador do problema em sair do veículo estacionado e oferecer ajuda fez ecoar, na mente dela, novamente o som da portada e da moto em queda raspando no chão.

Instintivamente, Aurora sentiu um dos joelhos. Certa vez, andando ao lado do marido, por uma das adjacências da Rua 25 de março, levou uma portada de uma infeliz que não olhou antes de sair do veículo também estacionado. 

- Outra toupeira por aqui e fez um estrago feio. Era um entregador em baixa velocidade, mas o empurrão foi suficiente para levá-lo ao chão, com a motocicleta. - pensou Aurora enquanto olhava a presepada. 

O causador, bateu a porta de volta, enquanto que pedestres correram para levantar o rapaz que era bastante miudinho. Quando a situação estava sendo remediada, o "derrubador de motoqueiro" veio até o acidentado.

Como era dia de aniversário, ela precisava chegar na casa dos pais que a esperavam para o lanche da tarde. Recebeu abraços, beijos e mais uma vez a mãe relatou como estava o dia em que Aurora nasceu e como ela era vermelha no rosto, por ter nascido antes do tempo.

Antes de escurecer e chegar a tempo de o marido voltar do trabalho, ela pegou o carro para voltar para casa. 

O dia estava bastante nublado e passou a chover quando aquela "aguarada" foi aumentando torrencialmente. Com o limpador de para-brisa na velocidade máxima, na via toda aquela água parecia uma lâmina jorrando ao passar com os pneus. Com a atenção toda voltada ao espaço de visão que estava menor, os vidros do carro começaram a embaçar, notou que o caminho estava interditado. 

Pensou que antes de a selfie receber esse nome, quem empunhava uma máquina fotográfica, mesmo as com filme fotográfico, já tirava selfie, embora não tivesse tal nome. Quem nunca ousou tirar uma foto de si naquela época, mesmo que de modo atrapalhado, sem ter ideia de como seria a foto quando revelada?! Muitos caíram na tentação, sim!

Com o pensamento embaralhando, após passar a flanelinha para ampliar a visão pelo vidro dianteiro do carro, sentiu um solavanco seguido de um som seco e alto. Viu a pista em rodopio e um som final.

Smash!!


*Editora do portal cultural www.resenhando.com. É jornalista, professora e roteirista. Twitter: @maryellenfsm


.: Capítulo 2: "Aurora" em "Nunca realmente acabou"

When I´m Gone, Katy Perry


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