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sábado, 24 de janeiro de 2026
.: A banalidade do mal e a história da homossexualidade no Reino Unido
sábado, 10 de janeiro de 2026
.: A (i)legitimidade da linguagem neutra e os gêneros sexuais
Por Helder Bentes, escritor e professor.
1. As noções de gênero masculino e feminino em português não são sexuais. São meramente gramaticais. Surgiram em função da classificação sexual dicotômica tradicional? Não. Esse critério regula a aplicação geral dos marcadores (-a para o feminino / -o para o masculino), marcando também a distinção de gênero sexual, mas não exclusivamente, porque há inúmeras palavras no português que designam coisas que não têm sexo.
2. É preciso, pois, entender que masculino e feminino, como gêneros gramaticais, referem-se às mudanças possíveis na configuração formal das palavras e vocábulos da língua, reguláveis por critérios estritamente linguísticos. As variações na identidade de gênero sexual não são gramaticais, nem lhe correspondem.
3. As palavras são uniformes ou biformes quanto ao gênero e isso varia de uma língua para outra. Há palavras que, em português, são masculinas. Mas seu correspondente noutra língua é feminino e vice-versa. Tem também o fato de que, as mudanças de gênero gramatical alteram também o significado da palavra. “O rádio”, por exemplo, é o aparelho receptor do sinal “da rádio” que é a estação transmissora. A neutralização dos marcadores gramaticais de gênero não altera o significado dos diversos gêneros sexuais. Isso é uma forçação de barra arquetípica de modernice afetada.
4. Nem sempre a distinção gramatical de gênero é marcada por -a no feminino ou -o no masculino. Essa marcação pode ser feita por mudanças no radical da palavra (substantivos heterônimos), pelo contexto morfossintático (substantivos comuns de dois gêneros) ou por um morfema zero, que marca justamente a ausência de um dos marcadores, para designar o gênero da palavra, como ocorre, por exemplo, em órfão/órfã, cuja forma feminina se obtém pela supressão do -o que marca a forma masculina. Para entender melhor a distinção entre o gramatical e o sexual, basta pensar, por exemplo, que segundo as noções de transexualidade, uma mulher trans não se define por “zero pênis”. Ela pode morrer com o pênis, que tradicionalmente marca o gênero sexual masculino, mas não vai por isso deixar de ser do gênero sexual feminino, salvaguardadas as características da transexualidade, haja vista a ciência ter descoberto que o sexo humano é neural, não necessariamente morfológico.
5. Na língua portuguesa, por exemplo, além dos substantivos masculinos ou femininos (biformes), nós temos também os substantivos uniformes que designam seres vivos não humanos, como vegetais e frutas que nascem desses vegetais, além de alguns animais que, por serem animais, têm sexo. Mas a palavra que os designa não segue as variações sexuais. Onça, borboleta, foca, por exemplo, são palavras sempre femininas, não importando se estamos nos referindo, por exemplo, à onça macho ou à onça fêmea. Idem para jacaré e tigre, que são sempre masculinos. Se quisermos especificar o sexo do animal, precisamos apelar para os adjetivos sexuais tradicionais “macho” ou “fêmea”. Idem para os substantivos uniformes quanto ao gênero e que designam pessoas (sobrecomuns): criança, pessoa, criatura, por exemplo, são sempre femininos. Cônjuge é sempre masculino. Caso se queira especificar o gênero sexual, empregam-se locuções adjetivas: pessoa “do sexo masculino”, cônjuge “do sexo feminino”.
No âmbito dos estudos de gênero sexual humano, os relatores das pesquisas já fizeram isso, ao criarem os adjetivos “cisgênero”, “transgênero”, “binário” ou “não-binário”. Isso basta para atender às demandas da comunicação. Não precisa avacalhar todo um conjunto de regras gramaticais que existem antes para manter a eficiência da língua como sistema de comunicação, num mundo diverso, não exclusivamente para satisfazer as demandas subjetivas da comunidade LGBTQIAPN+.
É por essas e outras viagens que nosso movimento encontra resistência da hegemonia heteronormativa. Aprendam a lutar. Não vai ser obrigando os héteros a neutralizarem a linguagem que nós vamos promover nossa inclusão. Eu particularmente acho que quem pensa que sim, deve fazer psicoterapia, além de estudar português. Óbvio!
sábado, 3 de janeiro de 2026
.: Assistir a "Um Verdadeiro Cavalheiro" é repensar o neorromantismo
Por Helder Bentes, escritor e professor.
O que se entende por Neorromantismo, no âmbito da literatura, é uma obra que fora produzida e publicada depois do período oficial do Romantismo literário, ou seja, posterior à segunda metade do século XIX. Eu, porém, defendo a tese de que seja Neorromântica toda arte que, posterior à oposição entre os estilos romântico e realista, traga à reflexão o aspecto lúdico entre a fuga romântica da realidade e o compulsivo confronto realista com ela. Ontem assisti a "Um Verdadeiro Cavalheiro", e lembrei-me desse querido pensamento meu.
O filme é turco, foi lançado em 2024 e está no catálogo da Netflix desde setembro de 2025. O título não parece interessante, mas o verdadeiro cavalheiro a que ele se refere é o jovem Saygin (lê-se Saigon), interpretado pelo ator Çağatay Ulusoy, um verdadeiro gato, antes de ser um verdadeiro cavalheiro. Saygin é órfão. Sua mãe morrera queimada num incêndio em sua casa, quando ele era criança.
Abandonou a escola porque ficou traumatizado. Se não estivesse na escola à hora do incêndio, sua mãe talvez estivesse viva. Cresceu com esse pensamento tóxico na cabeça. Todo o conhecimento adquirido ao longo da vida era empírico. Ele passou a se prostituir para sobreviver e levou junto seu irmão mais velho (Haki Biçici) que não era tão bonito quanto ele, mas ele ensinava ao irmão as artimanhas da sedução adquiridas ao longo de sua experiência como acompanhante de luxo. Ele tem um caso secreto com uma mulher casada que o banca (Şenay Gürler). Essa mulher tem uma filha tímida e que se acha feia. Saygin tenta unir a filha de sua amante a seu irmão e acaba se apaixonando de verdade pela amiga dela, Nehir (Ebru Şahin).
A partir daí começam os complicadores desse drama romântico, mas também realista, porque derruba por terra a máscara dos casamentos aparentemente bem sucedidos, a abertura das relações “monogâmicas” para os relacionamentos extraconjugais, a mercantilização do ser humano, dos padrões de beleza, do sexo, o imperialismo do desejo, a compulsão das circunstâncias, a imposição da realidade e sua rota de colisão com os ideais pequeno-burgueses, a dor humana e os traumas de infância que se acumulam e vão desenhando nosso destino.
Eu não vou aqui contar como o filme acaba, mas o desfecho dessa história revela a psicoadaptação necessária à realidade e como os recomeços têm o potencial de renovar as oportunidades. Não é o melhor filme do mundo. Mas para quem gosta de romances com pitadas de realidade, uma boa fotografia e de ver atores de beleza industrializada em cena, valem a pena as quase duas horas de exibição. Eu gostei.
terça-feira, 9 de agosto de 2022
.: Crítica musical: o retrato em branco e preto de Alba Mariah
Por Helder Bentes, professor e crítico de literatura.
Chico Buarque é um dos maiores compositores em língua portuguesa. Sua obra é literária por excelência. Se na literatura Machado de Assis chancela nossa independência, Chico Buarque a sacramenta definitivamente, reaproximando poesia e música, como os trovadores medievais, explorando as propriedades rítmicas da linguagem e imprimindo ao nosso cancioneiro popular uma arte universal, baseada nos recursos funcionais e figurativos de nosso idioma.
Tanto que em 2019, ele foi contemplado com a maior comenda de produção literária em língua portuguesa, o prêmio Camões. Chico é então fonte de inspiração para o trabalho de outros grandes artistas. Mas dentre os que o tomam como matéria-prima de sua interpretação, aqui em Belém, ninguém consegue dar vida aos eus-líricos das canções de Chico Buarque como a cantora Alba Mariah, nossa Albinha, como é carinhosamente chamada pelos boêmios paraenses.
Após uma temporada no teatro Heleny Gauriba, em São Paulo, Alba volta a Belém com o show "Retrato em Branco e Preto", em homenagem aos 78 anos de Chico Buarque. Ao lado do pianista Paulo José Campos de Melo e com participação especial de artistas convidados, Alba apresenta-se no próximo dia 13 de agosto de 2022, a partir das 22h30, na Confraria Dom.
No repertório, só composições de Chico Buarque, na voz afinadíssima e plena de Alba Mariah, que dá vida aos eus-líricos de "Futuros Amantes", "Retrato em Branco e Preto", "Folhetim", "Meu Guri", "Trocando em Miúdos", "Olhos nos Olhos", "Atrás da Porta", "O Meu Amor", "Geni e o Zepelim" e outras belíssimas composições de Chico, com novas releituras e a interpretação genuína e encantadora.
Destaque para a interpretação da personagem "Terezinha", que narra seu histórico de vida amorosa com os homens, com o qual toda mulher se identifica, pois os homens de Terezinha agradam-na com presentes, tentam conquistá-la com vantagens; ou tentam relacionamentos abusivos; ou simplesmente acontecem e a conquistam.
Incorporando eus-líricos masculinos, Alba Mariah dá um show de dramaturgia, cantando "A Rita" e "Samba do Grande Amor". Em ambas fazendo um homem abandonado por seu amor e desiludido com o amor romântico, no reverso do que fizera Chico Buarque, ao seguir o trovador das cantigas de amigo medievais, onde os compositores cantavam eus-líricos femininos. O show traz outros números do cancioneiro de Chico, mas não vou entregar-lhes tudo aqui. Vão lá assistir ao show. Ninguém vai se arrepender.
sexta-feira, 25 de dezembro de 2020
.: Ser bom e ser besta no Natal em atitudes autoexplicativas
Hoje não vou propor nenhuma leitura literária. Quero apenas partilhar com meus leitores uma mensagem de Natal não literária, porém baseada num dos mais belos textos literários da Bíblia, o sermão da montanha.
O 25 de Dezembro é uma data especial não somente para os cristãos, mas também para todos aqueles que comungam do espírito de solidariedade que se renova nesta época do ano. É tempo de a gente refletir sobre os prós e os contras das nossas ações e entender que um ato não é uma atitude e que um erro na vida não é uma vida de erros.
Natal significa nascer e, cada vez que você acorda, você é convidado a participar de uma ceia, o grande banquete da existência, onde tudo o que você tiver – não somente bens materiais ou de consumo, mas também suas virtudes e defeitos – deve ser colocado em comum, não apenas para o seu crescimento, mas para o crescimento de todos os que convivem com você no seu dia-a-dia.
Não se trata de ser otário, mas de ser bom. Infelizmente vivemos num mundo em que somos o tempo todo induzidos a confundir o que é ser besta e o que é cultivar a difícil arte de ser bom.
Ser bom é cultivar um coração desprendido de riquezas materiais. Ser besta é aderir à imposição do sistema para lhe transformar numa máquina desejante.
Ser bom é ser sal da terra e luz do mundo. Ser besta é você achar que, para temperar o mundo, você precisa subtrair o sabor dos outros ou esconder suas lâmpadas embaixo de alqueires.
Ser bom é orientar suas decisões e iniciativas por uma interpretação dialética dos fatos. Ser besta é você decidir por impulso ou, pior, por influência dos outros.
Ser bom é preferir o silêncio a uma forma inadequada de dizer o que pensamos. Ser besta é desperdiçar nossos conteúdos relevantes em formas e momentos impertinentes.
Ser bom é cultivar pérolas. Ser besta é atirá-las aos porcos.
Ser bom é fazer do amor próprio o seu referencial de amor ao próximo. Ser besta é ser egoísta a ponto de só pensar em si e nunca nos outros.
Ser bom é entrar em acordo sem demora com quem divide a vida conosco. Ser besta é deixar que o orgulho se associe às ofensas do outro para danificar nossa vida.
Ser bom é cultivar uma consciência crítica. Ser besta é ser maria-vai-com-as-outras.
Ser bom é ter palavra capaz de fazer os outros descansarem. Ser besta é precisar jurar ou prometer para que os outros descansem no que a gente diz.
Ser bom é ser racionalmente misericordioso para perdoar as ofensas. Ser besta é se vingar.
Ser bom é proteger-se do inimigo, torcendo para que ele supere as limitações que o fazem inimigo. Ser besta é responder a essas limitações com as nossas próprias limitações.
Ser bom é fazer boas obras em segredo. Ser besta é ficar tocando a trombeta diante de si, propagando o que se fez e, às vezes, até o que não se fez.
Ser bom é mudar o foco de visão para contemplar o que não pode ser mudado. Ser besta é ficar reclamando, reclamando, reclamando...
Ser bom é ser Deus para o outro que precisa alimentar-se como as aves do Céu e vestir-se como os lírios do campo. Ser besta é crer que Deus não precisa da gente para prover quem foi vitimado pelo sistema excludente que nós construímos.
Ser bom é dar valor não para o julgamento alheio, mas para o que Deus sabe a seu respeito. Ser besta é sair por aí julgando os outros, como se Deus não soubesse a verdade sobre eles.
Ser bom é ser natal todos os dias. Ser besta é ser natal só no dia 25 de dezembro.
sábado, 28 de novembro de 2020
.: Para os cristãos: mais do que um texto para aqueles que creem em Jesus Cristo
sexta-feira, 27 de novembro de 2020
.: O que é improbidade administrativa? Helder Bentes responde
Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.
.: Por que o comunismo não existe? Helder Bentes responde
quinta-feira, 26 de novembro de 2020
.: Diferença entre ideologia política e modo de produção
Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.
.: O que são direita e esquerda na política? Helder Bentes explica
sexta-feira, 14 de junho de 2019
.: “Em Defesa da Cidadania”, professores paraenses se unem
Só este ano, em cinco meses, o Ministério da Educação já trocou de ministro duas vezes. E o Inep, autarquia que organiza o Enem, já trocou de presidente três vezes. Percebemos que isto gera uma grande insegurança da parte de professores e de estudantes do ensino médio acerca da realização do Enem 2019.
Há uma expectativa sobre o viés ideológico das provas. Mas não se deve trabalhar na perspectiva de ideologias político-partidárias, contaminando a Educação com um tipo de polarização que nada tem a ver com seu objetivo legal, que é a formação para a Cidadania. A Lei que rege a Educação Nacional coloca a formação para a Cidadania como sua maior finalidade, e situa a participação democrática dentro de seu campo de abrangência. Mas as decisões para a Educação têm se baseado no que os políticos consideram prioridade.
Por causa disso, em todo o país, tem havido protestos e polêmicas, pois tanto os governantes quanto seus opositores lançam mão de diversos recursos e estratégias argumentativas aparentemente “democráticas”, sem que haja uma expressão declarada da inculcação ideológica ou político-partidária que vem de todos os lados, tanto de quem está no poder, quanto da oposição. Tudo isso acontece em nome “da Cidadania” e “da Democracia”. Mas estes são dois conceitos em construção que não podem estar subordinados a estratégias políticas. E a única maneira de se evitar que isto aconteça é através da Educação.
Por entender que essa redução da Democracia ameaça a Cidadania brasileira, cinco professores paraenses se uniram para um protesto diferente. Sem desmerecer os protestos de rua, eles querem reunir professores e estudantes de diversas escolas de ensino médio e universitários, para uma manhã de estudos sobre Cidadania. A iniciativa reúne cinco pesquisadores em História, Sociologia, Filosofia, Literatura e Linguística. A programação consta de cinco palestras introdutórias de um debate sobre atualidades em política, com o objetivo de entender coletivamente o contexto sócio-histórico do cenário político atual, o ideal e o real em matéria de Cidadania, Educação, Pesquisa e Democracia.
Segundo o Professor Júlio Charchar, Pesquisador em História e idealizador do evento, serão discutidos conceitos operacionais básicos da Cidadania em construção e o lugar do cidadão brasileiro na dinâmica da política nacional. Haverá emissão de certificados para universitários que precisem de carga horária para integralização curricular.
A produção do evento, assinada pelo Professor Helder Bentes, está pedindo que os participantes doem livros para compor o acervo de bibliotecas públicas. Só não vale doar livros didáticos. Mas romances, contos, novelas, crônicas, infanto-juvenis, poesia, teatro, técnico-científicos de diversas áreas do conhecimento, histórias em quadrinhos e paradidáticos serão muito bem vindos. Com esta iniciativa, o evento ganha o apoio da sociedade civil em geral e de entidades de defesa dos Direitos Humanos, de escolas e universidades paraenses. “A Educação é supra-partidária”, explica o Professor Helder Bentes, que denuncia a ação de segmentos políticos que reduzem à mera “doutrinação” fatos, opiniões e argumentos que não atendam a interesses político-partidários, gerando conflitos em sala de aula e promovendo, também no ambiente escolar, embates em vez de debates. “Doutrinação é uma palavra que faz parte do campo de significados religiosos, não da Educação. As escolas não são igrejas, e sua razão social está toda descrita na LDB. A nova Base Nacional Comum não fechou as portas das habilidades de leitura necessárias à Democracia e ao exercício pleno da Cidadania. Nossos alunos precisam entender isto”, enfatiza o professor.
Professores Participantes:
Júlio Charchar – Historiador, Professor de ensino médio na rede particular de ensino de Belém, autor do livro Memórias da Escravidão Negra no Brasil.
Aldenir Vasconcelos – Historiador, Cientista Social e Especialista em Ensino de Sociologia, Professor de ensino médio na rede particular de ensino de Belém, Pesquisador da Interventória de Magalhães Barata no Pará, Educação ambiental em livros didáticos de Sociologia, e Estrutura Curricular de Cursos de Sociologia.
Sérgio André Oliveira – Filósofo formado pela UFPA, Especialista em História Contemporânea, Pesquisador em Estudos Culturais da Amazônia e Professor nas redes pública e particular de ensino.
Helder Bentes – Pesquisador em Ciências da Linguagem, estudou Letras, Jornalismo, Especialização em Abordagem Textual da Língua Portuguesa, Mestrado em Estudos Literários, foi professor da UFPA e de outras faculdades paraenses, e hoje é também Professor efetivo da Secretaria de Estado de Educação do Pará.
Joana Vieira – Mestranda em Análise do Discurso, é Professora da rede particular de ensino em Belém há 18 anos, tem quatro livros publicados, é palestrante profissional desde 2012 e foi eleita professora inspiradora pelo Quizlet, a segunda maior plataforma educacional do mundo.
Serviço:
Ciclo de palestras “Em Defesa da Cidadania”
Data: domingo, 16 de junho
Hora; 7h30 às 12h
Local: Auditório Ismael Nery, do Centur
Página do evento no Facebook neste link
Página "Em Defesa da Cidadania" neste link
Outras informações: Helder Bentes – (91) 993470981
domingo, 13 de maio de 2018
.: Professores falam sobre escravidão, resistência e raízes africanas
sexta-feira, 5 de maio de 2017
.: Resenha crítica do filme "A cabana", com Octavia Spencer
Eu não gostei de "A Cabana". Assisti-lhe por indicação de dois ex-alunos que eu respeito muito, também porque a sinopse me parecia interessante desde a época em que eu era associado ao Círculo do Livro. O livro de William P. Young me era oferecido em catálogo, mas eu nunca o comprei para ler. Acabei conhecendo o drama do protagonista Mackenzie Allen Phillips já adaptado para o cinema.
Entendi a proposta do diretor, mas continuei não gostando. Fora os recuos no tempo da narrativa, todo o restante, pra mim, não teve nada de extraordinário. Nenhuma subversão inovadora da gramática cinematográfica, enredo linear e comprometido até o pescoço com a ideologia judaico-cristã, apesar de apresentar evidentes influências espíritas nos elementos de composição narrativa, cujo conflito desfecha-se a partir de uma experiência de quase morte.
Achei que a presença do "maravilhoso" não sustentou a verossimilhança da mensagem, e o que havia de relevante no filme, sua proposta reflexiva, ficou no nível da fantasia, comprometendo o efeito purgativo e humanizante da obra, a transmissão de um conhecimento verdadeiramente universal e o meu prazer. Ficou igual a uma pregação do Silas Malafaia, que só agrada a quem já acredita, porque se universaliza pela negação das particularidades da fé alheia.
Há uma contradição tremenda, que anula aqueles recursos pretensos de que a Divindade não teria sexo e não se subordinaria aos modelos religiosos de representação do Sagrado no imaginário social: O Deus do filme é o Deus judaico-cristão, e a fé NESSE DEUS é defendida como "conditio sine qua non" (condição sem a qual) não se superam mágoas e culpas, não se consegue perdoar, nem alcançar a paz interior. Então a tentativa de desmitificar a noção ordinária da Divindade foi frustrada pelo comprometimento ideológico.
O público do filme fica restrito àqueles cristãos que têm uma fé piegas que beira a autoajuda. Sabe? Tipo fé pentecostal ou da renovação carismática? Pois é. Pessoas que têm fé noutras entidades que não sejam o Deus de Abraão ou de Jesus, ateus e agnósticos continuam excluídos ATÉ da recepção do filme. Na minha opinião, esse tipo restritivo de arte compositora de um signo univalente é um desserviço à vida social. Sobretudo em tempos de combate à intolerância religiosa.
Lembrei-me de Pedro Lyra, que em "Literatura e Ideologia" (editora Vozes), afirma que uma das finalidades da obra de arte é infundir a ideologia de seu autor. Eu não sei se William P. Young (escritor do livro A Cabana, que inspirou o filme homônimo) ou se o diretor Stuart Hazeldine (que adaptou o livro para o cinema) são cristãos. Fato é que se ratifica, na apreciação crítica de A Cabana, a análise de Lyra, segundo a qual a infusão da carga ideológica independe da intenção do artista.
Filme: A Cabana (The Shack, EUA)
Gênero: Fantasia, drama
Duração: 2h 13 minutos
Data de lançamento: 7 de abril de 2017 (Brasil)
Direção: Stuart Hazeldine
Música composta por: Aaron Zigman
Roteiro: John Fusco
Adaptação de: A Cabana
Classificação: 14 anos
Elenco: Sam Worthington, Radha Mitchell, Octavia Spencer, Ryan Robbin
domingo, 2 de abril de 2017
.: O fingerstyle apaixonante de Tiago Iorc (a crítica do show)
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| Foto: Diana Arnold |
Próximo show de Tiago Iorc em Cuiabá:
*Helder Bentes é crítico de artes e pesquisador em ciências da arte e da linguagem.
quarta-feira, 14 de dezembro de 2016
.: O paraense que honrou o nome de Belém no show de Marisa Monte
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| Foto: Edinaldo Silva |
Em dezembro de 2016
A cantora e compositora Marisa Monte encerra 2016 em grande estilo. Não apenas porque vai cantar com Roberto Carlos, em seu especial de fim de ano para a Rede Globo. Mas principalmente por seus duetos com os fãs, numa interação sui generis no meio artístico, sobretudo entre estrelas que, como ela, já estruturaram uma respeitosa carreira internacional. Marisa acaba de fazer um ciclo de shows em cidades brasileiras que não a tinham visto ao vivo em suas turnês mais recentes.
Dentre essas cidades está Belém do Pará, onde Marisa havia se apresentado pela última vez em fevereiro de 2001, fazendo dois shows de lançamento do álbum “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000). Os fãs de Belém não viram a turnê dos discos “Universo ao Meu Redor” e “Infinito Particular” (2006), “O Que Você Quer Saber de Verdade” (2011) e “Verdade Uma Ilusão” (2014). Este “jejum”, no entanto, foi quebrado em grande estilo, com a participação especialíssima do professor e crítico de literatura Helder Bentes, que é paraense de Belém e estava em posição privilegiada na plateia do show que Marisa fez em sua cidade.
No formato dessa “miniturnê”, como a própria cantora chama, ela interage mais com a plateia. Um dos pontos altos do show é quando ela canta o sucesso “Amor, I Love You”, parceria com Carlinhos Brown e participação de Arnaldo Antunes recitando trecho do romance “O Primo Basílio”, de Eça de Queiroz.
A música foi o carro-chefe do álbum "Memórias, Crônicas e Declarações de Amor", lançada em um clipe no "Fantástico" há 16 anos, mesmo tempo em que Marisa não visitava a capital paraense, e era também a canção de abertura daquela turnê. Para Helder, fã da cantora desde 1991, a canção tem um significado especial:
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| Foto: Brends Nunes |
O momento único foi o show realizado no último dia 9 de dezembro, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, em Belém. Após cantar a referida canção, Marisa diz:
Marisa Monte: “Que lindo! Gente, vocês cantam muito lindo. Eu amo quando vocês cantam comigo. Agora o que me derrete é quando vocês fazem o backing vocal. É lindo! Aquele ‘Amor, I Love You... Uh...’ É lindo! Eu acho bonito que é uma coisa assim que as meninas, naturalmente elas fazem, mas os rapazes são solidários. Quer ver? Mais uma, pra mim, vai...” (e canta o refrão da música de novo).
Marisa Monte: “Que lindo! Agora, de vez em quando, aparece até alguém aqui que sabe fazer a parte do Arnaldo. Eu não sei se hoje tem... (procurando na plateia, acha Helder) Tem. Você sabe? Dá o microfone pra ele aí, parceiro! Vamos ver. Peraí. Como é o seu nome? Fala aí no microfone. Como é o seu nome?”.
Helder Bentes: "Helder".
Marisa Monte: "Helder, você é daqui de Belém?".
Helder Bentes: "Sou de Belém".
Marisa Monte: "Helder de Belém, gente! Calma, Helder, calma! Olha pra mim, você vai saber a hora certa. Tá?".
Helder Bentes: “Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades. E seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido. Sentia um acréscimo de estima por si mesma. E parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações...”.
A cantora canta o refrão da música de novo, substituindo a frase “Amor, I Love You” por “Belém, I Love You” no final, e a plateia vibra de emoção.
Marisa Monte: "Palmas pro Helder! Arrasou, Helder! Honrou... Honrou o nome de Belém! Helder, no papel de Arnaldo Antunes, recitando o Primo Basílio, de Eça de Queiroz".
Para entender melhor o significado deste momento para Helder Bentes e para a cidade de Belém do Pará, leia os artigos “Literatura e Orgasmo” e “O Primo Basílio: ler o filme ou ver o livro?”, publicados orginalmente na coluna de Literatura que o crítico manteve de 2007 a 2013 no Portal ORM.
Para ler o texto "Literatura e Orgasmo", em que Helder analisa a canção "Amor, I Love You" basta acessar o endereço abaixo: http://belaspessoas.blogspot.com.br/2007/08/literatura-e-orgasmo-helder-bentes-se.html
Para ler o texto “O Primo Basílio: ler o filme ou ver o livro?”: http://www.orm.com.br/helderbentes/capa/?mes=8&ano=2007






























