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sábado, 10 de janeiro de 2026

.: A (i)legitimidade da linguagem neutra e os gêneros sexuais


Por Helder Bentes,  escritor e professor. 

A linguagem existe para atender às nossas demandas de comunicação. Com os avanços nos estudos de gênero, a “linguagem neutra” surge, como o próprio nome sugere, para “neutralizar” a marcação do gênero em português. A lógica é a seguinte: se hoje não temos mais exclusivamente a dicotomia macho/fêmea, para contemplar as noções de cisgênero, transgênero e não-binário, cria-se um novo paradigma flexional de nomes portugueses. Mas, antes de o falante da língua portuguesa aderir a essa tentativa de parecer moderninho, é preciso entender o seguinte:

1. As noções de gênero masculino e feminino em português não são sexuais. São meramente gramaticais. Surgiram em função da classificação sexual dicotômica tradicional? Não. Esse critério regula a aplicação geral dos marcadores (-a para o feminino / -o para o masculino), marcando também a distinção de gênero sexual, mas não exclusivamente, porque há inúmeras palavras no português que designam coisas que não têm sexo. 

2. É preciso, pois, entender que masculino e feminino, como gêneros gramaticais, referem-se às mudanças possíveis na configuração formal das palavras e vocábulos da língua, reguláveis por critérios estritamente linguísticos. As variações na identidade de gênero sexual não são gramaticais, nem lhe correspondem. 

3. As palavras são uniformes ou biformes quanto ao gênero e isso varia de uma língua para outra. Há palavras que, em português, são masculinas. Mas seu correspondente noutra língua é feminino e vice-versa. Tem também o fato de que, as mudanças de gênero gramatical alteram também o significado da palavra. “O rádio”, por exemplo, é o aparelho receptor do sinal “da rádio” que é a estação transmissora. A neutralização dos marcadores gramaticais de gênero não altera o significado dos diversos gêneros sexuais. Isso é uma forçação de barra arquetípica de modernice afetada. 

4. Nem sempre a distinção gramatical de gênero é marcada por -a no feminino ou -o no masculino. Essa marcação pode ser feita por mudanças no radical da palavra (substantivos heterônimos), pelo contexto morfossintático (substantivos comuns de dois gêneros) ou por um morfema zero, que marca justamente a ausência de um dos marcadores, para designar o gênero da palavra, como ocorre, por exemplo, em órfão/órfã, cuja forma feminina se obtém pela supressão do -o que marca a forma masculina. Para entender melhor a distinção entre o gramatical e o sexual, basta pensar, por exemplo, que segundo as noções de transexualidade, uma mulher trans não se define por “zero pênis”. Ela pode morrer com o pênis, que tradicionalmente marca o gênero sexual masculino, mas não vai por isso deixar de ser do gênero sexual feminino, salvaguardadas as características da transexualidade, haja vista a ciência ter descoberto que o sexo humano é neural, não necessariamente morfológico. 

5. Na língua portuguesa, por exemplo, além dos substantivos masculinos ou femininos (biformes), nós temos também os substantivos uniformes que designam seres vivos não humanos, como vegetais e frutas que nascem desses vegetais, além de alguns animais que, por serem animais, têm sexo. Mas a palavra que os designa não segue as variações sexuais. Onça, borboleta, foca, por exemplo, são palavras sempre femininas, não importando se estamos nos referindo, por exemplo, à onça macho ou à onça fêmea. Idem para jacaré e tigre, que são sempre masculinos. Se quisermos especificar o sexo do animal, precisamos apelar para os adjetivos sexuais tradicionais “macho” ou “fêmea”. Idem para os substantivos uniformes quanto ao gênero e que designam pessoas (sobrecomuns): criança, pessoa, criatura, por exemplo, são sempre femininos. Cônjuge é sempre masculino. Caso se queira especificar o gênero sexual, empregam-se locuções adjetivas: pessoa “do sexo masculino”, cônjuge “do sexo feminino”. 

No âmbito dos estudos de gênero sexual humano, os relatores das pesquisas já fizeram isso, ao criarem os adjetivos “cisgênero”, “transgênero”, “binário” ou “não-binário”. Isso basta para atender às demandas da comunicação. Não precisa avacalhar todo um conjunto de regras gramaticais que existem antes para manter a eficiência da língua como sistema de comunicação, num mundo diverso, não exclusivamente para satisfazer as demandas subjetivas da comunidade LGBTQIAPN+. 

É por essas e outras viagens que nosso movimento encontra resistência da hegemonia heteronormativa. Aprendam a lutar. Não vai ser obrigando os héteros a neutralizarem a linguagem que nós vamos promover nossa inclusão. Eu particularmente acho que quem pensa que sim, deve fazer psicoterapia, além de estudar português. Óbvio!

sábado, 3 de janeiro de 2026

.: Assistir a "Um Verdadeiro Cavalheiro" é repensar o neorromantismo


Por Helder Bentes,  escritor e professor. 

O que se entende por Neorromantismo, no âmbito da literatura, é uma obra que fora produzida e publicada depois do período oficial do Romantismo literário, ou seja, posterior à segunda metade do século XIX. Eu, porém, defendo a tese de que seja Neorromântica toda arte que, posterior à oposição entre os estilos romântico e realista, traga à reflexão o aspecto lúdico entre a fuga romântica da realidade e o compulsivo confronto realista com ela. Ontem assisti a "Um Verdadeiro Cavalheiro", e lembrei-me desse querido pensamento meu.

O filme é turco, foi lançado em 2024 e está no catálogo da Netflix desde setembro de 2025. O título não parece interessante, mas o verdadeiro cavalheiro a que ele se refere é o jovem Saygin (lê-se Saigon), interpretado pelo ator Çağatay Ulusoy, um verdadeiro gato, antes de ser um verdadeiro cavalheiro. Saygin é órfão. Sua mãe morrera queimada num incêndio em sua casa, quando ele era criança. 

Abandonou a escola porque ficou traumatizado. Se não estivesse na escola à hora do incêndio, sua mãe talvez estivesse viva. Cresceu com esse pensamento tóxico na cabeça. Todo o conhecimento adquirido ao longo da vida era empírico. Ele passou a se prostituir para sobreviver e levou junto seu irmão mais velho (Haki Biçici) que não era tão bonito quanto ele, mas ele ensinava ao irmão as artimanhas da sedução adquiridas ao longo de sua experiência como acompanhante de luxo. Ele tem um caso secreto com uma mulher casada que o banca (Şenay Gürler). Essa mulher tem uma filha tímida e que se acha feia. Saygin tenta unir a filha de sua amante a seu irmão e acaba se apaixonando de verdade pela amiga dela, Nehir (Ebru Şahin).

A partir daí começam os complicadores desse drama romântico, mas também realista, porque derruba por terra a máscara dos casamentos aparentemente bem sucedidos, a abertura das relações “monogâmicas” para os relacionamentos extraconjugais, a mercantilização do ser humano, dos padrões de beleza, do sexo, o imperialismo do desejo, a compulsão das circunstâncias, a imposição da realidade e sua rota de colisão com os ideais pequeno-burgueses, a dor humana e os traumas de infância que se acumulam e vão desenhando nosso destino.

Eu não vou aqui contar como o filme acaba, mas o desfecho dessa história revela a psicoadaptação necessária à realidade e como os recomeços têm o potencial de renovar as oportunidades. Não é o melhor filme do mundo. Mas para quem gosta de romances com pitadas de realidade, uma boa fotografia e de ver atores de beleza industrializada em cena, valem a pena as quase duas horas de exibição. Eu gostei.

terça-feira, 9 de agosto de 2022

.: Crítica musical: o retrato em branco e preto de Alba Mariah


Por Helder Bentes, professor e crítico de literatura.

Chico Buarque é um dos maiores compositores em língua portuguesa. Sua obra é literária por excelência. Se na literatura Machado de Assis chancela nossa independência, Chico Buarque a sacramenta definitivamente, reaproximando poesia e música, como os trovadores medievais, explorando as propriedades rítmicas da linguagem e imprimindo ao nosso cancioneiro popular uma arte universal, baseada nos recursos funcionais e figurativos de nosso idioma.

Tanto que em 2019, ele foi contemplado com a maior comenda de produção literária em língua portuguesa, o prêmio Camões. Chico é então fonte de inspiração para o trabalho de outros grandes artistas. Mas dentre os que o tomam como matéria-prima de sua interpretação, aqui em Belém, ninguém consegue dar vida aos eus-líricos das canções de Chico Buarque como a cantora Alba Mariah, nossa Albinha, como é carinhosamente chamada pelos boêmios paraenses.

Após uma temporada no teatro Heleny Gauriba, em São Paulo, Alba volta a Belém com o show "Retrato em Branco e Preto", em homenagem aos 78 anos de Chico Buarque. Ao lado do pianista Paulo José Campos de Melo e com participação especial de artistas convidados, Alba apresenta-se no próximo dia 13 de agosto de 2022, a partir das 22h30, na Confraria Dom.

No repertório, só composições de Chico Buarque, na voz afinadíssima e plena de Alba Mariah, que dá vida aos eus-líricos de "Futuros Amantes", "Retrato em Branco e Preto", "Folhetim", "Meu Guri", "Trocando em Miúdos", "Olhos nos Olhos", "Atrás da Porta", "O Meu Amor", "Geni e o Zepelim" e outras belíssimas composições de Chico, com novas releituras e a interpretação genuína e encantadora.

Destaque para a interpretação da personagem "Terezinha", que narra seu histórico de vida amorosa com os homens, com o qual toda mulher se identifica, pois os homens de Terezinha agradam-na com presentes, tentam conquistá-la com vantagens; ou tentam relacionamentos abusivos; ou simplesmente acontecem e a conquistam.

Incorporando eus-líricos masculinos, Alba Mariah dá um show de dramaturgia, cantando "A Rita" e "Samba do Grande Amor". Em ambas fazendo um homem abandonado por seu amor e desiludido com o amor romântico, no reverso do que fizera Chico Buarque, ao seguir o trovador das cantigas de amigo medievais, onde os compositores cantavam eus-líricos femininos. O show traz outros números do cancioneiro de Chico, mas não vou entregar-lhes tudo aqui. Vão lá assistir ao show. Ninguém vai se arrepender.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

.: Ser bom e ser besta no Natal em atitudes autoexplicativas

Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.

Hoje não vou propor nenhuma leitura literária. Quero apenas partilhar com meus leitores uma mensagem de Natal não literária, porém baseada num dos mais belos textos literários da Bíblia, o sermão da montanha. 

O 25 de Dezembro é uma data especial não somente para os cristãos, mas também para todos aqueles que comungam do espírito de solidariedade que se renova nesta época do ano. É tempo de a gente refletir sobre os prós e os contras das nossas ações e entender que um ato não é uma atitude e que um erro na vida não é uma vida de erros. 

Natal significa nascer e, cada vez que você acorda, você é convidado a participar de uma ceia, o grande banquete da existência, onde tudo o que você tiver – não somente bens materiais ou de consumo, mas também suas virtudes e defeitos – deve ser colocado em comum, não apenas para o seu crescimento, mas para o crescimento de todos os que convivem com você no seu dia-a-dia.

Não se trata de ser otário, mas de ser bom. Infelizmente vivemos num mundo em que somos o tempo todo induzidos a confundir o que é ser besta e o que é cultivar a difícil arte de ser bom.

Ser bom é cultivar um coração desprendido de riquezas materiais. Ser besta é aderir à imposição do sistema para lhe transformar numa máquina desejante. 

Ser bom é ser sal da terra e luz do mundo. Ser besta é você achar que, para temperar o mundo, você precisa subtrair o sabor dos outros ou esconder suas lâmpadas embaixo de alqueires.

Ser bom é orientar suas decisões e iniciativas por uma interpretação dialética dos fatos. Ser besta é você decidir por impulso ou, pior, por influência dos outros.

Ser bom é preferir o silêncio a uma forma inadequada de dizer o que pensamos. Ser besta é desperdiçar nossos conteúdos relevantes em formas e momentos impertinentes. 

Ser bom é cultivar pérolas. Ser besta é atirá-las aos porcos.

Ser bom é fazer do amor próprio o seu referencial de amor ao próximo. Ser besta é ser egoísta a ponto de só pensar em si e nunca nos outros. 

Ser bom é entrar em acordo sem demora com quem divide a vida conosco. Ser besta é deixar que o orgulho se associe às ofensas do outro para danificar nossa vida.

Ser bom é cultivar uma consciência crítica. Ser besta é ser maria-vai-com-as-outras.

Ser bom é ter palavra capaz de fazer os outros descansarem. Ser besta é precisar jurar ou prometer para que os outros descansem no que a gente diz.

Ser bom é ser racionalmente misericordioso para perdoar as ofensas. Ser besta é se vingar.

Ser bom é proteger-se do inimigo, torcendo para que ele supere as limitações que o fazem inimigo. Ser besta é responder a essas limitações com as nossas próprias limitações.

Ser bom é fazer boas obras em segredo. Ser besta é ficar tocando a trombeta diante de si, propagando o que se fez e, às vezes, até o que não se fez. 

Ser bom é mudar o foco de visão para contemplar o que não pode ser mudado. Ser besta é ficar reclamando, reclamando, reclamando...

Ser bom é ser Deus para o outro que precisa alimentar-se como as aves do Céu e vestir-se como os lírios do campo. Ser besta é crer que Deus não precisa da gente para prover quem foi vitimado pelo sistema excludente que nós construímos.

Ser bom é dar valor não para o julgamento alheio, mas para o que Deus sabe a seu respeito. Ser besta é sair por aí julgando os outros, como se Deus não soubesse a verdade sobre eles. 

Ser bom é ser natal todos os dias. Ser besta é ser natal só no dia 25 de dezembro.

sábado, 28 de novembro de 2020

.: Para os cristãos: mais do que um texto para aqueles que creem em Jesus Cristo


"Cristo Abençoador", pintura de Jean-Auguste Dominique Ingres, feito em 1834. Foto:João Musa

Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.

Este texto é para VOCÊ QUE CRÊ EM JESUS CRISTO. Muitos cristãos estão acreditando que votar em candidatos “da esquerda” seja um perigo para a evangelização. Isto porque o marketing político da classe dominante, do Capitalismo cruel contra os pobres de Jesus Cristo, inventa que “a esquerda” seja a favor do aborto, do casamento gay, do divórcio, da liberação das drogas e de uma série de outras falsas notícias que vão na contramão da doutrina das igrejas cristãs. Mas como nós, cristãos, não somos burros e tapados, vamos pensar juntos aqui.

1. O evangelho está acima das religiões.

2. Jesus Cristo fez uma opção preferencial pelos pobres. Por ele, essa divisão entre ricos e pobres não existiria, porque Deus criou tudo para todos. 

3. Os modos de produção econômica, as ideologias e as posições políticas que daí derivam (vide meus artigos sobre direita e esquerda, modo de produção e ideologia política) não têm nada a ver com o Evangelho. Se tivessem, Jesus seria Comunista, e Marx e Lênin teriam sido seus discípulos.

4. Quando inquirido sobre pagar ou não os impostos ao Imperador de Roma, que governava a Palestina, Jesus disse: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”. Deixando claro que ele (Jesus) não desobedeceria ao Estado, porque não era, ao contrário do que muitos pensavam, um anarquista. Mas também não tomaria PARTIDO de questões POLÍTICAS, porque seu Reino não é deste mundo. Depois ele diria isto na cara de Pôncio Pilatos. Foi a declaração que chancelou sua condenação à morte. 

5. Será que nós, cristãos, teríamos coragem de fazer o mesmo? Dizer, na cara do padre ou do pastor que atribui pautas anti-doutrinárias “à esquerda”, e assim induz cristãos a votarem “na direita”, que nosso Reino não é deste mundo?  Estamos no mundo, mas não somos do mundo.  Ser cristão não tem nada a ver com a posição política que ocupamos, na estratificação social gerada por um sistema econômico injusto, que não foi criado por Deus e que irritou Jesus, a ponto de ele expulsar os vendilhões do templo. Com quem é nosso compromisso? É com Jesus Cristo ou com o pastor ou padre que está mancomunado com lideranças políticas, sejam de esquerda ou de direita? 

6. Jesus Cristo é contra o aborto sim. Ele não fala diretamente disso no Evangelho, mas defende a vida acima de tudo, sob quaisquer circunstâncias: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”.  Deste ponto de vista, nem esquerda, nem direita.  Porque se existem projetos de legalização do aborto protocolados por parlamentares da esquerda, também existe, por parte da direita, não um projeto, mas uma lei de armar a população, incentivando o assassinato, sob critérios nada cristãos, de legítima “defesa” ou de “defesa da família e da propriedade”.  A própria omissão do governo federal em relação às demandas da pandemia é um atentado contra os ideais de vida em abundância. Então ser contra ou a favor do aborto não é critério para a escolha de seu candidato. Aliás, nenhuma questão de cunho moral ou religioso deve ser tomada como critério, pois ninguém tem o poder de regular a moralidade ou a fidelidade religiosa de ninguém. Só Deus conhece o coração do homem.

7. Quais devem ser, então, os critérios de um cristão? A VERDADE. Óbvio! O problema está em nossa capacidade de discernirmos entre o que seja verdade ou mentira, neste aglomerado indigesto de fake news

8. Prefeitos não legalizam nada, nem aborto, nem armamento com fuzis para defesa de propriedades. Também não têm poderes para condecorar ninguém como heróis ou assassinos. As funções de um prefeito não são legislativas. São executivas, e na democracia, prefeitos, governadores e presidentes estão subordinados ao parlamento, que congrega vereadores, deputados e senadores de diversos segmentos ideológicos, político-partidários, inclusive religiosos. Então você pode votar em quem você quiser, sem susto, que nem o aborto será legalizado, nem vão sair chacinando o MST. 

9. Se você é pobre, mesmo que viva resignado com seu padrão de vida, você é de esquerda. Não importa qual seja sua crença religiosa. Socialismo e religião, numa democracia, não são excludentes entre si. Socialismo é ideologia política. Partidos socialistas são criados a partir dessa matriz ideológica, mas obrigatoriamente subordinados à democracia. Cristianismo é religião. Jesus foi assassinado por não misturar religião e política. E você aí todo confuso ainda? 

10. Se você é rico, você é de direita. Tem mais é que votar no candidato que vai beneficiar a sua categoria social. Não tem nada de errado nisso. 

11. Agora se você é cristão e acha que sua fé deve ser tomada como critério, aí não te resta outra opção. Você tem que votar no candidato da esquerda mesmo, pois se a disputa se reduziu a esses dois polos, você tem que votar em projetos de defesa dos pobres. Porque Jesus nasceu pobre, morreu pobre, ressuscitou pobre, passou a vida inteira defendendo os pobres; era contra o consumismo, o comércio no templo religioso; era contra doenças, contra a morte, contra assassinatos em qualquer fase da vida; era contra a má distribuição das riquezas; não se coligava a partidos e lideranças políticas, mas também não era anarquista; defendia crianças, mulheres, viúvas, órfãos, anciãos, trabalhadores, escravos; não tinha preconceito contra ninguém, e tudo isso são pautas da esquerda.  Os partidos de direita governam para os ricos, e sua política só aumenta a miséria e a pobreza. 

12. Nem pense em anular seu voto. Se quiser votar como pobre de direita, vote. Mas anular voto é pecar por omissão. Você estará sendo leviano, se pegar um comprovante de uma coisa que vc não fez, abstendo-se do único poder que te resta, à custa do sangue de muitos irmãos que deram a vida por eleições diretas, e com isso, vc pode estar se responsabilizando indiretamente por problemas sociais gravíssimos na educação, na saúde, no saneamento, no meio ambiente, no transporte, na moradia, igualzinho a esses cristãos que seguiram padres e pastores, em vez de seguirem Jesus, e agora carregam nas costas as mortes por Covid ocorridas por causa da omissão dos governos em relação à pandemia. Ser cristão sim. Ser burro nunca. 

13. O Socialismo defende o Estado laico, mas respeita a liberdade de crença e tolera a diversidade religiosa. No Comunismo não existe religião. Toda religião é abolida por ser um instrumento de dominação política que prejudicaria o controle do Estado sobre o cidadão. Então, se no Brasil você pode doar seu dízimo à Igreja, que está desobrigada pelo Estado de declarar imposto sobre essa arrecadação, você não pode dizer que aqui existe Comunismo. Se pode escolher entre ser católico, evangélico, espírita, umbandista, agnóstico ou ateu, isso é porque NÃO EXISTE COMUNISMO no Brasil. Na China, na Coreia do Norte, em Cuba, também existe religião, inclusive cristãos, convivendo DEMOCRATICAMENTE com budistas, que predominam sobretudo na Coreia. ISSO NÃO É COMUNISMO. Então pare de acreditar na suposta ameaça do Comunismo, que quem quer que você acredite nisso é Satanás, pra aumentar a desigualdade social no mundo e te condenar ao Inferno desde já.

Sobre o autor
Helder Bentes* é professor de Língua Portuguesa e Literatura, na educação básica e superior, em Belém do Pará. Está escrevendo textos sobre política para educar leitores ao voto com consciência de classe.



sexta-feira, 27 de novembro de 2020

.: O que é improbidade administrativa? Helder Bentes responde


Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.

Ser probo significa ser íntegro. É uma virtude moral. Não política. O ideal seria não haver distinções entre virtudes morais e políticas. Mas essas distinções existem, e nosso voto não muda isso. A corrupção na política sustenta-se nesses ideais de moralidade do eleitorado. A virtude MORAL não deve ser tomada como critério para a escolha de um POLÍTICO. Porque moralidade alheia não se controla por leis. 

Acreditar que na “POLÍCIA FEDERAL NÃO TEM CORRUPÇÃO” é ingenuidade. A PF é um órgão investigativo. Quanto mais o indivíduo tem poder de investigação, mais ele pode cooperar com esquemas de corrupção. Então ser policial não é atestado de idoneidade moral, muito menos política. Portanto, no quesito idoneidade moral, todo eleitor deve desconfiar do marketing político. Improbidade administrativa não é crime. O processo é tratado na vara cível e visa apenas a investigar se “pular” licitação ou deslocar recursos têm justificativas que distingam improbidade e proatividade em gestão pública. Isso acontece  à exaustão na gestão direta e indireta, tanto faz se quem esteja no poder seja o partido A, B ou C. 

Óbvio que essa prática - que já estava virando hábito na gestão pública, motivo pelo qual criou-se a lei da improbidade na década de 90 - abre brechas para a corrupção. Por isso, em 2016, o Ministério Público Federal (MPF) propôs 10 medidas para o combate à corrupção. Porém, quando essa proposta chegou à Câmara Federal, os próprios deputados modificaram-na, suprimindo o quesito improbidade administrativa. Então não vai ser seu voto que vai mudar isso. 

Quando se quer pegar um candidato político para bode expiatório, sobretudo se este for um forte concorrente, inventam-se processos ajuizados, para legitimar a falsa acusação, fazê-la virar notícia, na boca do povo, na internet, tudo para confundir a cabeça do eleitor.  Desconfie, portanto, quando disserem que o candidato X, Y ou Z seja “réu” em processos. Qualquer um pode acusar, e acusado não é culpado. Tanto que, uma vez encerrado o processo, se ficar comprovada a inocência do acusado, ele pode ingressar com ação judicial por denunciação caluniosa contra quem o acusou. 

Gestores públicos condenados por improbidade administrativa, quando o caso já está resolvido e não cabe mais recurso de defesa, não recebem certidão de aprovação de sua gestão; ficam inelegíveis por oito anos, se tiverem rejeitadas suas contas por ato DOLOSO de improbidade administrativa. Se a própria lei entende que a improbidade pode ser “culposa” (sem intenção de desonestidade), é porque reconhece que, em gestão pública, existem demandas de proatividade e de deslocamento de recursos. Prestação de contas, conselho fiscal e ações judiciais servem para isso.

A acusação por improbidade administrativa também está excluída do foro privilegiado. Isso quer dizer que essas ações são julgadas pela justiça comum, o que descarta a hipótese de o acusado estar sendo beneficiado por eventuais conchavos políticos entre autoridades públicas e tribunais superiores. Por outro lado, isso praticamente confirma a hipótese de uma leviandade política contra candidatos em campanha, haja vista que entidades investigativas de primeira instância, como os tribunais estaduais, regionais e a Polícia Federal, formam autarquia com o poder executivo. 

Um exemplo disso é que o Presidente da República, em abril deste ano, mandou trocar o diretor geral e alguns superintendentes regionais da Polícia Federal, o que culminou na saída do juiz Sérgio Moro de seu governo.

Sobre o autor
Helder Bentes* é professor de Língua Portuguesa e Literatura, na educação básica e superior, em Belém do Pará. Está escrevendo textos sobre política para educar leitores ao voto com consciência de classe.






.: Por que o comunismo não existe? Helder Bentes responde


Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.

Após a segunda guerra mundial, o mundo se dividiu em dois blocos econômicos, e o principal símbolo geopolítico da guerra foi o muro que separava a cidade de Berlim, na Alemanha. Tinha a Berlim Oriental (socialista) e a Ocidental (capitalista). URSS e EUA eram as duas maiores potências mundiais. A União Soviética entrou num processo socialista de adoção do Comunismo. E os EUA seguiram no Capitalismo, que acabou globalizando-se e derrubando o muro de Berlim. 

Mas se o Capitalismo surgiu como modo de produção e não como ideologia política e se, após a guerra fria, ele se tornou um sistema hegemônico no mundo, por que esse pessoal “da direita” (os ricos e a burguesia que pensa poder ficar rica com neoliberais no poder) ainda tem medinho do Comunismo Burrice! 

Não sabem nada de geografia econômica. Desconhecem o poder de influência da economia sobre os aspectos sociais e políticos de uma nação em contexto mundial. Estão orientados pelo ódio teleguiado. Não leem, não se informam, não fazem uma apreciação crítica das informações e, quando tentam, fazem-no sem o distanciamento crítico necessário, já movidos pela força do ódio e absolutamente enredados em sugestão coletiva essencialmente capitalista que os abstrai de sua posição à esquerda. Por isso os chamamos de “pobres de direita”. 

Esse povo precisa entender que hoje existe uma Nova Ordem Mundial, e que o espaço geopolítico e a globalização estão todos interligados, não havendo lugar para a concretização do Comunismo marxista, nem do Socialismo leninista. 

O máximo que essas ideologias conseguem fazer é congregar seus adeptos sob uma legenda político partidária muito eficaz no poder legislativo, para conter as contradições capitalistas e dar um pouco de dignidade à maioria da população, que sobrevive à margem do sistema hegemônico.  Portanto, só o mau-caratismo justifica o voto em candidatos de direita. Por quê? Porque tem gente rica que reconhece que, tanto faz direita ou esquerda no poder, vai continuar rica. Por isso vota a favor do equilíbrio e da coesão social orgânica (Durkheim). 

A burguesia (classe média) é a categoria social mais iludida, porque vive acreditando romanticamente que vai chegar ao topo da pirâmide social, mesmo que nunca chegue. Sonega imposto, pedala, faz gato de energia elétrica, faz gato na declaração de imposto de renda, coloca bens e empresas em nomes de laranjas, casa por interesse, aplica golpes, puxa-saco de políticos, para conseguir cargos e vantagens, faz o escambau para conseguir ficar rica, mas não fica. O máximo que consegue é ferrar a vida dos outros. 

Aprendam isto: só fica rico quem já nasce rico, herdeiro de uma grande fortuna, quem rouba ou quem tiver a sorte de ganhar na Mega-sena. Ninguém fica rico trabalhando honestamente. No Capitalismo, não. Estou falando de regra. Não de exceções. Exceções não mudam a ordem mundial. E por falar em ordem mundial, ainda tem o Coronavírus, que chegou chegando, impondo não só uma crise na saúde pública, mas uma crise econômica que expõe ainda mais as contradições do Capitalismo neoliberal, assim como a  incompetência de governantes como Bolsonaro. 

Se a China emplacar a vacina contra o Coronavírus, poderemos ter um novo mapa geopolítico, considerando-se que, após a guerra fria, o que determina o conceito de superpotência não é mai exclusivamente o aparato militar, mas também seu potencial econômico. Entenderam agora por que Bolsonaro inventa presepada para suspender testes da vacina chinesa no Brasil? 

Esse é o verdadeiro desespero para desqualificar candidatos da esquerda na disputa por cargos executivos. Eles fazem oposição ferrenha ao governo Bolsonaro, são afiliados a partidos cuja matriz ideológica é socialista democrata. São destemidos, corajosos, informados, políticos experientes, tanto no legislativo, donde são egressos, como no executivo por onde hajam passado, sem dúvida alguma, são do lado do povo. 

Mas o marketing canalha da direita já está apelando para a rivalidade marketeira. Querem pintá-los como ladrões, para fazer a oposição “bandido X polícia”. Colocam até delegados e policiais para serem candidatos. Aqui em Belém, colocaram um delegado da Polícia Federal, a mesma que faz vista grossa para as acusações contra a família Bolsonaro e para denúncias de irregularidades nas investigações do assassinato de Marielle Franco, que por sinal também era do PSOL. 

Mas, voltando ao tema do post, depois da guerra fria, nações como Coreia do Norte, Cuba, China, Laos e Vietnã resolveram seguir com o propósito de implementar o Comunismo. Mas nem nesses países existe o Comunismo tal qual o conceberam seus ideólogos. Por quê? Porque O MUNDO É CAPITALISTA. Os ideais socialistas surgem lá no comecinho do século XVI, com um cara chamado Thomas More, que escreveu um livro sobre como seria uma sociedade onde a propriedade fosse comum, mas olha o nome do livro: “Utopia”. 

De acordo com os ideais socialistas, os meios de produção devem pertencer ao Estado e ser controlados pelos trabalhadores. Em tese, isto seria o Comunismo.  Mas um dos muitos exemplos de que isso não existe entre nós foi a privatização das estatais que controlavam serviços essenciais, como os de telecomunicações e de concessão de energia elétrica. 

NO BRASIL NUNCA EXISTIU NEM SOCIALISMO, MUITO MENOS COMUNISMO. Aqui, como em todos os países que têm empresas privadas, existem ricos e pobres. Num país verdadeiramente socialista que esteja preparando a implementação do Comunismo, se toda propriedade é pública, ninguém é rico e ninguém é pobre. No Comunismo, então, a palavra “propriedade” nem existe. Tudo é bem comum, e a produção é dividida igualmente entre todo mundo, inclusive entre quem não trabalhou. Não tem esse papo de “quem não trabalha, não come”. A noção de justiça comunista passa longe desses ideais meritocráticos. 

Então aqui, os ideais socialistas - inclusive nos governos de Lula e Dilma, assim como nos dois mandatos de Edmílson Rodrigues na prefeitura de Belém - conviveram e convivem pacificamente com a distribuição meritocrática da produção, como jamais aconteceria num governo comunista.  No Comunismo o critério de distribuição é a NECESSIDADE. Não importa quem trabalhou. Não existe a distinção entre patrão e empregado. Todo mundo trabalha para todos. Em que lugar do mundo isso existe?

Sobre o autor
Helder Bentes* é professor de Língua Portuguesa e Literatura, na educação básica e superior, em Belém do Pará. Está escrevendo textos sobre política para educar leitores ao voto com consciência de classe.




quinta-feira, 26 de novembro de 2020

.: Diferença entre ideologia política e modo de produção


Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.

Já expliquei que direita e esquerda são POSIÇÕES políticas não escolhidas diretamente, mas que ocupamos na estratificação social gerada pelo Capitalismo.  Dito isto, vamos entender que Capitalismo não é simplesmente uma ideologia política, como o Socialismo e o Comunismo. Porque o Capitalismo não surgiu como reação. Ele surge já como modo de produção, em substituição gradativa ao Feudalismo, e marca a transição da Idade Média para a Idade Moderna. 

Teve mentores intelectuais? Teve. Claro! Mas não surgiu a partir de suas teorias. Todos os filósofos que defenderam a formação das monarquias nacionais, fomentaram a ideologia social necessária à expansão capitalista. O sistema está, portanto, na origem da noção de Estado.  Quem usou o termo “Capitalismo” pela primeira vez foi Karl Marx, em “O Capital”, o mesmo que teorizou o Socialismo como reação mais justa contra a exploração do trabalhador nas indústrias, isso já no século XIX, em defesa da classe operária. 

O Comunismo é um IDEAL socialista que, porque ameaçava o Capitalismo, fora mitificado como um fantasma a assustar a ordem econômica baseada na obtenção do lucro e na exploração da mão-de-obra, esta última a principal contradição do Capitalismo, geradora das revoluções proletárias e das duas grandes guerras mundiais.

As contradições do sistema nem sempre são evidentes. Por isso existem “pobres de direita”, classe média acreditando que vai ficar rica, gente teimando que há Comunismo no Brasil, porque existem siglas político-partidárias com C de Comunismo no meio, teimando que o Comunismo existe e que os países “comunistas” sejam, cada um, uma ilha alijada de relações internacionais. Essas pessoas só reproduzem o discurso midiático, não sabem nem quem seja Bolsonaro de fato, muito menos quem tenha sido Adam Smith ou Karl Marx.

Resumindo, Capitalismo e neoliberalismo econômico defendido pela direita, isto é, pelos ricos que detêm os meios de produção, que mantêm negócios cujo lucro depende do trabalho de empregados, é um modo de produção já globalizado, que domina o mundo inteiro, inclusive China, Coreia do Norte, Cuba, Laos e Vietnã, e até o Bolivarianismo de Hugo Chávez na Venezuela, porquanto o país só conseguiu se manter por causa da receita gerada pelo Petróleo. Todos esses países ditos “comunistas” tiveram que se adaptar aos imperativos do Capital. Isso NÃO É COMUNISMO. 

No entanto, a restrição da liberdade individual nessas tentativas ou experimentações comunistas, assim como oposições socialistas que se fazem em alguns países capitalistas da Europa e das Américas, inclusive aqui no parlamento brasileiro, assustam o povo, sobretudo porque quem está na direita, pega a maior corda com o terrorismo que se faz contra o Socialismo e o Comunismo. 

Reforma agrária, desapropriação, cobrança de mais impostos, restrição de liberdades individuais, legalização do aborto e da maconha, feminismo, teoria queer que apelidaram de “ideologia de gênero”, Estado laico, combate ao racismo, à violência contra a mulher, à injúria racial e ao racismo, e até reforma curricular da educação básica, a partir da socialização de avanços da pesquisa científica potencialmente modificadores do status quo capitalista, são xingados de “comunistas”. Sobrou até para o Coronavírus! Esse vírus “comunista”!

Mas agora que você já sabe a diferença entre ideologia política e meio de produção, você já deve ter entendido que representações socialistas no parlamento são forças de equilíbrio, e que um prefeito socialista, da social-democracia, num município cuja base econômica é o neoliberalismo, faz toda a diferença para o trabalhador, seja ele informal, autônomo, empregado, servidor público, ou micro-empreendedor.

Sobre o autor
Helder Bentes* é professor de Língua Portuguesa e Literatura, na educação básica e superior, em Belém do Pará. Está escrevendo textos sobre política para educar leitores ao voto com consciência de classe.




.: O que são direita e esquerda na política? Helder Bentes explica


Por Helder Bentes*, professor de Língua Portuguesa e Literatura.

No filme "Adeus, Lenin", de Wolfgang Becker (2002), uma idosa doente, comunista, não sabe que derrubaram o muro de Berlim. Seus filhos poupam-na de saber disso, porque acham que ela pode morrer, se souber do fim da Berlim Oriental, a parte comunista da Alemanha dividida pelo muro, e o consequente avanço do Capitalismo. Essa personagem é emblemática de um fanatismo político-ideológico extremamente pernicioso para os regimes democráticos. 

Esse extremismo não é privilégio de um lado. Ele acontece tanto do lado do capitalista que detém os meios de produção e se acha "o rei da cocada preta", porque gera emprego e renda e, mesmo sonegando impostos, é contra a corrupção; quanto do lado do comunista que defende a força do Estado, e quer porque quer que o Capitalismo e seus ideais de livre mercado, livre concorrência e de ascensão social meritocrática, sejam banidos do planeta. 

Pude perceber isso ontem, nos fóruns abertos no Facebook, sobre o resultado das eleições em Belém. É um raciocínio dicotômico extremamente temerário que ameaça nossa democracia, porque transfere, para a política, a lógica do futebol. E os marketeiros políticos sabem disso como o povo não sabe. Daí inventam rivalidades, e vale tudo para provar a suposta superioridade de um dos lados, desde fake news, até evocação de projetos indefensáveis de lei, porquanto se choquem com os interesses de uma frente parlamentar cristã que nem deveria existir, porque o Estado, mesmo o não comunista, é laico. 

Esses polos são denominados, ao modelo da estratificação político-partidária francesa de 1759, direita e esquerda. Mas a maioria sequer sabe o que eles representam, e os tratam como se fossem remoçada e terror bicolor, sem a menor consciência de classe, sem conhecimento sócio-político e econômico, escrevendo merda em português errado, e pagando mico nas redes sociais.

A mitificação do Comunismo é usada para a implementação de um sistema de opressão às avessas. Não à toa Bolsonaro foi canonizado como “mito”. O raciocínio mítico nega a ciência, os fatos, e a demonstração da verdade. Em seu lugar, cria-se uma retórica falaciosa que faz uma mentira repetida ganhar foro de verdade. Eis tudo! 

Ao inculcar o medo de um regime político autoritário, ditatorial, que proíbe quaisquer tipos de oposição ao Estado - seja este Estado neoliberal (o que Bolsonaro diz ser o dele, mas que na verdade não é) ou socialista (o defendido por partidos “de esquerda”, como PSOL, PCdoB, PSTU, UP, PCO, PCB, etc..), numa democracia sem educação - eu privo o povo da verdade que liberta, vendando-o com o mito do Comunismo (ou do Capitalismo), e gerando reações antitotalitárias que se refletem nas urnas. 

Mas Totalitarismo não tem nada a ver com Socialismo, Comunismo ou Capitalismo, que são IDEOLOGIAS de ECONOMIA POLÍTICA diferentes uma da outra. Não REGIMES políticos, nem POSIÇÕES políticas, tampouco PARTIDOS políticos. 

Ontem, quando eu disse que não existe esquerda no Brasil, um desses extremistas que votaram no Egum, retrucou dizendo que “rapidinho eu sumi com os partidos de esquerda”. E não adiantou tentar lhe explicar que esquerda e direita são posicionamentos políticos, não partidos, com elevado grau de variabilidade na dinâmica política de uma república democrática. Dei como exemplo a aliança firmada entre PT e PMDB em nome “da democracia”, para a conquista do poder executivo pelo PT, o que não significou necessariamente uma conquista da esquerda. Mencionei as consequências desastrosas disso para a esquerda, mas não adiantou. Na cabeça do cara, PT é de esquerda e PSOL é o PT disfarçado! kkkkkkk... Dá até pena! Por isso resolvi escrever este artigo. 

O Socialismo, IDEOLOGIA política de quem SE POSICIONA à esquerda, IDEALIZA a socialização dos recursos de produção econômica e a extinção da divisão da sociedade nas classes antagônicas de exploradores e explorados. 

Se eu sou explorado e entendo quem ou o que me explora, é meu instinto de sobrevivência que me posiciona ao lado dos explorados, no caso, à esquerda. Por isso, Lenin teorizou o Socialismo como norteador de um processo transitório do modo de produção capitalista, para o comunista. Mas ser afiliado a um partido dessa matriz ideológica, ser simpatizante, votar e fazer campanha para um candidato desse partido, não significa que vá mudar toda uma ordem mundial secular já consolidada. Isso é uma ignorância até dos processos que levaram às duas guerras mundiais e de suas consequências geopolíticas e econômicas. 

O Socialismo não foi inventado pelo PSOL, tampouco pelo PT. Este último pode até ter surgido nas lutas sindicais da CUT e ter feito história na oposição ao Capitalismo neoliberal, mas foi se descaracterizando como “esquerda” à medida que foi se aliançando ao Capital. Por isso não se pode mais dizer que o PT ainda esteja na esquerda. Porque esquerda e direita são posições onde se ESTÁ. Ninguém É de esquerda ou de direita. Os cidadãos ESTÃO, quer se reconheçam ou não, à esquerda ou à direita, e podem migrar para um meio termo, à medida que entendem COMO funciona a dinâmica da política brasileira. Sem estudo, portanto, você vai acabar à mercê desse marketing político dicotômico eficaz para o político, não para você.

Sobre o autor
Helder Bentes* é professor de Língua Portuguesa e Literatura, na educação básica e superior, em Belém do Pará. Está escrevendo textos sobre política para educar leitores ao voto com consciência de classe.




sexta-feira, 14 de junho de 2019

.: “Em Defesa da Cidadania”, professores paraenses se unem


Só este ano, em cinco meses, o Ministério da Educação já trocou de ministro duas vezes. E o Inep, autarquia que organiza o Enem, já trocou de presidente três vezes. Percebemos que isto gera uma grande insegurança da parte de professores e de estudantes do ensino médio acerca da realização do Enem 2019. 

Há uma expectativa sobre o viés ideológico das provas. Mas não se deve trabalhar na perspectiva de ideologias político-partidárias, contaminando a Educação com um tipo de polarização que nada tem a ver com seu objetivo legal, que é a formação para a Cidadania. A Lei que rege a Educação Nacional coloca a formação para a Cidadania como sua maior finalidade, e situa a participação democrática dentro de seu campo de abrangência. Mas as decisões para a Educação têm se baseado no que os políticos consideram prioridade. 

Por causa disso, em todo o país, tem havido protestos e polêmicas, pois tanto os governantes quanto seus opositores lançam mão de diversos recursos e estratégias argumentativas aparentemente “democráticas”, sem que haja uma expressão declarada da inculcação ideológica ou político-partidária que vem de todos os lados, tanto de quem está no poder, quanto da oposição. Tudo isso acontece em nome “da Cidadania” e “da Democracia”. Mas estes são dois conceitos em construção que não podem estar subordinados a estratégias políticas. E a única maneira de se evitar que isto aconteça é através da Educação.

Por entender que essa redução da Democracia ameaça a Cidadania brasileira, cinco professores paraenses se uniram para um protesto diferente. Sem desmerecer os protestos de rua, eles querem reunir professores e estudantes de diversas escolas de ensino médio e universitários, para uma manhã de estudos sobre Cidadania. A iniciativa reúne cinco pesquisadores em História, Sociologia, Filosofia, Literatura e Linguística. A programação consta de cinco palestras introdutórias de um debate sobre atualidades em política, com o objetivo de entender coletivamente o contexto sócio-histórico do cenário político atual, o ideal e o real em matéria de Cidadania, Educação, Pesquisa e Democracia.

Segundo o Professor Júlio Charchar, Pesquisador em História e idealizador do evento, serão discutidos conceitos operacionais básicos da Cidadania em construção e o lugar do cidadão brasileiro na dinâmica da política nacional. Haverá emissão de certificados para universitários que precisem de carga horária para integralização curricular.

A produção do evento, assinada pelo Professor Helder Bentes, está pedindo que os participantes doem livros para compor o acervo de bibliotecas públicas. Só não vale doar livros didáticos. Mas romances, contos, novelas, crônicas, infanto-juvenis, poesia, teatro, técnico-científicos de diversas áreas do conhecimento, histórias em quadrinhos e paradidáticos serão muito bem vindos. Com esta iniciativa, o evento ganha o apoio da sociedade civil em geral e de entidades de defesa dos Direitos Humanos, de escolas e universidades paraenses. “A Educação é supra-partidária”, explica o Professor Helder Bentes, que denuncia a ação de segmentos políticos que reduzem à mera “doutrinação” fatos, opiniões e argumentos que não atendam a interesses político-partidários, gerando conflitos em sala de aula e promovendo, também no ambiente escolar, embates em vez de debates. “Doutrinação é uma palavra que faz parte do campo de significados religiosos, não da Educação. As escolas não são igrejas, e sua razão social está toda descrita na LDB. A nova Base Nacional Comum não fechou as portas das habilidades de leitura necessárias à Democracia e ao exercício pleno da Cidadania. Nossos alunos precisam entender isto”, enfatiza o professor.

Professores Participantes:

Júlio Charchar – Historiador, Professor de ensino médio na rede particular de ensino de Belém, autor do livro Memórias da Escravidão Negra no Brasil.

Aldenir Vasconcelos – Historiador, Cientista Social e Especialista em Ensino de Sociologia, Professor de ensino médio na rede particular de ensino de Belém, Pesquisador da Interventória de Magalhães Barata no Pará, Educação ambiental em livros didáticos de Sociologia, e Estrutura Curricular de Cursos de Sociologia.

Sérgio André Oliveira – Filósofo formado pela UFPA, Especialista em História Contemporânea, Pesquisador em Estudos Culturais da Amazônia e Professor nas redes pública e particular de ensino.

Helder Bentes – Pesquisador em Ciências da Linguagem, estudou Letras, Jornalismo, Especialização em Abordagem Textual da Língua Portuguesa, Mestrado em Estudos Literários, foi professor da UFPA e de outras faculdades paraenses, e hoje é também Professor efetivo da Secretaria de Estado de Educação do Pará.

Joana Vieira – Mestranda em Análise do Discurso, é Professora da rede particular de ensino em Belém há 18 anos, tem quatro livros publicados, é palestrante profissional desde 2012 e foi eleita professora inspiradora pelo Quizlet, a segunda maior plataforma educacional do mundo.

Serviço: 
Ciclo de palestras “Em Defesa da Cidadania”
Data: domingo, 16 de junho
Hora; 7h30 às 12h
Local: Auditório Ismael Nery, do Centur 
Página do evento no Facebook neste link  
Página "Em Defesa da Cidadania" neste link 
Outras informações: Helder Bentes – (91) 993470981

domingo, 13 de maio de 2018

.: Professores falam sobre escravidão, resistência e raízes africanas



Em março deste ano, em Belém do Pará, a escravidão ocorrida no período imperial brasileiro foi tomada como mote de um ensaio fotográfico para uma festa de 15 anos, onde a debutante homenageada aparecia “servida” por negros como uma “sinhá” oitocentista. 

Em setembro do ano passado, na Bahia, mãe e filha, ambas negras e torcedoras de um time de futebol baiano, tiveram sua foto montada com outra foto de torcedoras brancas do time adversário, sob a legenda: “Ainda tem gente que acha que time é tudo igual”A montagem foi compartilhada em grupos de WhatsApp. Em novembro do ano passado, William Waack, apresentador de um telejornal brasileiro, foi demitido da emissora em que trabalhava, por causa de um vídeo onde o jornalista aparecia fazendo piadinhas racistas.


Esses fatos são apenas alguns exemplos de que, entre artistas, atletas, jornalistas e cidadãos em geral, a vida social brasileira ainda está repleta de ocorrências de racismo, apesar da criminalização homologada um século após a abolição da escravatura no Brasil. Isso acontece por causa do contexto histórico em que o negro africano é introduzido na história do Brasil, que começa oficialmente em 1530. 

Do início do período colonial à abolição, em 1888, são 358 anos. Some-se a isso mais 100 anos de combate às heranças culturais negativas da escravidão, até a criminalização do racismo, e teremos um contexto histórico de aproximadamente quatro séculos e meio de cultura escravocrata que, se não justifica, reduz o crime de racismo a uma “determinação histórico-cultural”.

Há praticamente três décadas, o racismo é considerado crime inafiançável e imprescritível, pela lei 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Desde então, a resistência à cultura escravista culminou na criação de outras leis que fazem eco à tipificação do crime de racismo, tais como o Estatuto da Igualdade Racial (2010) e a Lei de Cotas (2012), que garante o acesso de estudantes negros e indígenas a instituições de ensino e à condição de servidor público. 

No entanto, ao lado das ocorrências de racismo, há grupos fascistas que reagem à luta secular dos negros por igualdade, sobretudo nas redes sociais. Por isso, um grupo de cinco professores da rede pública e particular de ensino, em Belém do Pará, reuniu-se para estudos interdisciplinares, a fim de alcançar outros professores e estudantes, e os induzir à reflexão crítica sobre esses embriões de argumentos do senso comum.

No próximo domingo, dia 20 de maio, esses professores estarão reunidos com o público, no auditório Ismael Nery, da Fundação Cultural do Estado do Pará, em Belém, das 7h30 às 13h00, para um ciclo de cinco palestras e debates sobre “Escravidão, Resistência e Raízes Africanas no Brasil”.

A iniciativa partiu do historiador Júlio Charchar, autor do livro “Memórias da Escravidão Negra no Brasil”, que será distribuído gratuitamente a todos os participantes do evento. Com larga experiência no ensino de História na rede particular de ensino, o professor é o autor de uma obra que aborda em detalhes os anos da escravidão, fundamental para a compreensão dos fenômenos sociais oriundos da cultura escravocrata e da resistência a essa cultura.

Conheça os outros palestrantes do "Raízes Africanas":

Professor Márcio Marçal, editor e colaborador em publicações direcionadas a certames de acesso ao ensino superior. Vai abordar as formas de resistência dos escravos no campo e na cidade, utilizando documentos históricos do século XIX, que destacam os abolicionismos e o protagonismo do negro no contexto escravocrata, além de tratar do período pós-abolição e da dinâmica que norteia a exclusão étnico-racial na contemporaneidade.       

Professor Helder Bentes, pesquisador em Ciências da Linguagem. Vai falar sobre as matrizes africanas de nossa literatura; sua relação com a história; as concepções artísticas nos séculos de escravidão; os reflexos literários das lutas que criminalizaram o racismo; os tipos atuais de racismo; e vai mostrar como construir uma tese de argumentação persuasiva, na redação do Enem, sobre temas polêmicos de natureza social, política, cultural e científica.

Professor Raimundo Marques é mestre e doutorando em História Social pela USP. Estudioso da América indígena, de povos andinos e amazônicos, e da interação destes com os colonos espanhóis. Tem vinte anos de magistério na rede particular de ensino em Belém e foi professor da rede pública do Estado de São Paulo.

Professor Aldenir Vasconcelos é historiador, sociólogo e mestrando em Sociologia e Antropologia pela Universidade Federal do Pará. Vai analisar a importância das representações da negritude na constituição de nosso patrimônio cultural e artístico, associando as manifestações culturais do presente a seus aspectos históricos, a fim de ajudar o público a compreender os elementos culturais que constituem a identidade do povo brasileiro. 

Serviço: Ciclo de Palestras “Escravidão, Resistência e Raízes Africanas no Brasil”
Local: Auditório Ismael Nery do Centur (Belém do Pará)
Data: 20 de maio de 2018
Horário: 7h30 às 13h
Investimento: 20 (com direito ao livro “Memórias da Escravidão Negra no Brasil”)


sexta-feira, 5 de maio de 2017

.: Resenha crítica do filme "A cabana", com Octavia Spencer

Por: Helder Bentes


Eu não gostei de "A Cabana". Assisti-lhe por indicação de dois ex-alunos que eu respeito muito, também porque a sinopse me parecia interessante desde a época em que eu era associado ao Círculo do Livro. O livro de William P. Young me era oferecido em catálogo, mas eu nunca o comprei para ler. Acabei conhecendo o drama do protagonista Mackenzie Allen Phillips já adaptado para o cinema. 

Entendi a proposta do diretor, mas continuei não gostando. Fora os recuos no tempo da narrativa, todo o restante, pra mim, não teve nada de extraordinário. Nenhuma subversão inovadora da gramática cinematográfica, enredo linear e comprometido até o pescoço com a ideologia judaico-cristã, apesar de apresentar evidentes influências espíritas nos elementos de composição narrativa, cujo conflito desfecha-se a partir de uma experiência de quase morte. 

Achei que a presença do "maravilhoso" não sustentou a verossimilhança da mensagem, e o que havia de relevante no filme, sua proposta reflexiva, ficou no nível da fantasia, comprometendo o efeito purgativo e humanizante da obra, a transmissão de um conhecimento verdadeiramente universal e o meu prazer. Ficou igual a uma pregação do Silas Malafaia, que só agrada a quem já acredita, porque se universaliza pela negação das particularidades da fé alheia. 

Há uma contradição tremenda, que anula aqueles recursos pretensos de que a Divindade não teria sexo e não se subordinaria aos modelos religiosos de representação do Sagrado no imaginário social: O Deus do filme é o Deus judaico-cristão, e a fé NESSE DEUS é defendida como "conditio sine qua non" (condição sem a qual) não se superam mágoas e culpas, não se consegue perdoar, nem alcançar a paz interior. Então a tentativa de desmitificar a noção ordinária da Divindade foi frustrada pelo comprometimento ideológico.


O público do filme fica restrito àqueles cristãos que têm uma fé piegas que beira a autoajuda. Sabe? Tipo fé pentecostal ou da renovação carismática? Pois é. Pessoas que têm fé noutras entidades que não sejam o Deus de Abraão ou de Jesus, ateus e agnósticos continuam excluídos ATÉ da recepção do filme. Na minha opinião, esse tipo restritivo de arte compositora de um signo univalente é um desserviço à vida social. Sobretudo em tempos de combate à intolerância religiosa. 

Lembrei-me de Pedro Lyra, que em "Literatura e Ideologia" (editora Vozes), afirma que uma das finalidades da obra de arte é infundir a ideologia de seu autor. Eu não sei se William P. Young (escritor do livro A Cabana, que inspirou o filme homônimo) ou se o diretor Stuart Hazeldine (que adaptou o livro para o cinema) são cristãos. Fato é que se ratifica, na apreciação crítica de A Cabana, a análise de Lyra, segundo a qual a infusão da carga ideológica independe da intenção do artista.


Filme: A Cabana (The Shack, EUA)
Gênero: Fantasia, drama
Duração: 2h 13 minutos
Data de lançamento: 7 de abril de 2017 (Brasil)
Direção: Stuart Hazeldine
Música composta por: Aaron Zigman
Roteiro: John Fusco
Adaptação de: A Cabana
Classificação: 14 anos
Elenco: Sam Worthington, Radha Mitchell, Octavia Spencer, Ryan Robbin

domingo, 2 de abril de 2017

.: O fingerstyle apaixonante de Tiago Iorc (a crítica do show)

Foto: Diana Arnold
Por Helder Bentes*, em abril de 2017.

Acabo de chegar do show do Tiago Iorc em Belém do Pará. E estou impressionado! Mas se vc, preconceituosinho de merda, acha que é só porque ele é um gato que deixa mulheres e gays enlouquecidos, equivocou-se.

Por trás daquela beleza sui generis e daquele charme único, há um músico de primeira grandeza, que estuda e sabe fazer solos incríveis, dominando o violão com técnicas que os especialistas em música vão chamar de  avançadas, mas que eu prefiro chamar de criativas.

Sou paraense de Belém, onde bons músicos são obrigados a conviver com uma indústria cultural que vende marteladas como se fossem músicas. 

Minha formação profissional em letras, no entanto, não me permite ignorar as propriedades rítmicas da linguagem, tampouco a música como um meio de expressão artística que alcança mais facilmente as pessoas. Então é lógico que música de qualidade vai exercer efeitos múltiplos sobre meu espírito.

Voltei pra casa fascinado e pensando: "Como é que pode alguém ser tão genuíno em cena?". Tiago toca e canta entre a razão e a emoção,  tem criatividade no palco, e é isso que dá qualidade profissional ao show de voz e violão que ele faz. Durante o show, observei que ele faz a base e o solo simultaneamente, usando as cordas e o corpo do violão como percussão, demonstrando conhecer cada som produzido por cada parte do instrumento.

Essa intimidade com o violão é metaforizada em vários momentos do show, mas se torna metonímica, catacrética, sinestésica e extrassensorial quando ele sensualiza tocando Bang, sucesso de Anita que é despido de toda breguice na voz performática dele.

Gente, fiquei tão impressionado, que como não tinha como descobrir o whatsapp do Tiago (hahaha...), fui pesquisar na net que coisa era aquela. E descobri que o nome disso é Fingerstyle, uma técnica secular de tocar a harmonia e a melodia e que remonta à época em que música e poesia nem eram ainda artes autônomas. Lógico que, naquele tempo, o violão, tal qual o conhecemos hoje, ainda não existia.

Mas certamente quem o inventou, deve tê-lo criado de modo a ampliar o potencial sonoro do instrumento, porque quem estuda música, sobretudo a erudita, sabe que pensar harmonia e melodia simultaneamente é um pré-requisito para ser um bom músico.

Essa técnica foi absorvida e aperfeiçoada em ritmos como o Blues e o Country. Mas acho que, no Brasil, quem trouxe isso para o Pop foi o Tiago mesmo. Ele usa tanto a mão direita, quanto a esquerda para tocar e, com afinações variadas, imprime mais qualidade aos acordes e às cordas mais graves do violão.

E assim, com um único violão e aquela voz linda de tenor, ele consegue fazer a melodia, a harmonia, os baixos, e o ritmo pensado para aqueles versos cheios de poesia. Eu juro que, se eu não estivesse vendo aquilo com meus olhinhos brilhantes e emocionados, eu pensaria que havia mais de um músico no palco.

Pena que o público grita muito, e a gente acaba não apreciando ao máximo toda essa riqueza sonora! Mas dá pra perceber que Tiago Iorc tem mundiaudiência (capacidade de ouvir o mundo, para além da afinação das notas). E isso confere originalidade tanto a seu trabalho autoral quanto às interpretações. Ele improvisa adequadamente e parece ser simultâneo ao compor e tocar. Enfim, tanta dedicação à música, dá até vontade da gente libertar talentos outros que a gente talvez tenha e nem saiba! Eu agora o amo muito mais!

Próximo show de Tiago Iorc em Cuiabá:


*Helder Bentes é crítico de artes e pesquisador em ciências da arte e da linguagem.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

.: O paraense que honrou o nome de Belém no show de Marisa Monte

Foto: Edinaldo Silva
Por Helder Miranda
Em dezembro de 2016

A cantora e compositora Marisa Monte encerra 2016 em grande estilo. Não apenas porque vai cantar com Roberto Carlos, em seu especial de fim de ano para a Rede Globo. Mas principalmente por seus duetos com os fãs, numa interação sui generis no meio artístico, sobretudo entre estrelas que, como ela, já estruturaram uma respeitosa carreira internacional. Marisa acaba de fazer um ciclo de shows em cidades brasileiras que não a tinham visto ao vivo em suas turnês mais recentes.

Dentre essas cidades está Belém do Pará, onde Marisa havia se apresentado pela última vez em fevereiro de 2001, fazendo dois shows de lançamento do álbum “Memórias, Crônicas e Declarações de Amor” (2000). Os fãs de Belém não viram a turnê dos discos “Universo ao Meu Redor” e “Infinito Particular” (2006), “O Que Você Quer Saber de Verdade” (2011) e “Verdade Uma Ilusão” (2014). Este “jejum”, no entanto, foi quebrado em grande estilo, com a participação especialíssima do professor e crítico de literatura Helder Bentes, que é paraense de Belém e estava em posição privilegiada na plateia do show que Marisa fez em sua cidade.

No formato dessa “miniturnê”, como a própria cantora chama, ela interage mais com a plateia. Um dos pontos altos do show é quando ela canta o sucesso “Amor, I Love You”, parceria com Carlinhos Brown e participação de Arnaldo Antunes recitando trecho do romance “O Primo Basílio”, de Eça de Queiroz.

A música foi o carro-chefe do álbum "Memórias, Crônicas e Declarações de Amor", lançada em um clipe no "Fantástico" há 16 anos, mesmo tempo em que Marisa não visitava a capital paraense, e era também a canção de abertura daquela turnê. Para Helder, fã da cantora desde 1991, a canção tem um significado especial:


Foto: Brends Nunes
“Quando Marisa lançou 'Amor, I Love You', em 2000, eu já era professor de literatura, e essa música foi muito útil para iniciar meus alunos na leitura de Eça de Queiroz e lhes explicar a oposição Romantismo/Realismo. Essa música foi o mote de um sarau literário com meus alunos do curso de Letras da UFPA, em 2002, no campus de Breves, Ilha do Marajó, que eles próprios batizaram de 'Poetando Carpe Diem', para poetar o momento presente ao invés das evasões românticas para o passado ou para fora da realidade. Tudo baseado na literatura realista de que Eça de Queiroz é expoente sem par. Meu primeiro encontro ao vivo com Marisa, no show de 2001, foi ao som dessa música, e também a canção deste momento único na vida de um fã apaixonado como eu”, explica.  

O momento único foi o show realizado no último dia 9 de dezembro, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, em Belém. Após cantar a referida canção, Marisa diz:

Marisa Monte: “Que lindo! Gente, vocês cantam muito lindo. Eu amo quando vocês cantam comigo. Agora o que me derrete é quando vocês fazem o backing vocal. É lindo! Aquele ‘Amor, I Love You... Uh...’ É lindo! Eu acho bonito que é uma coisa assim que as meninas, naturalmente elas fazem, mas os rapazes são solidários. Quer ver? Mais uma, pra mim, vai...” (e canta o refrão da música de novo).

Marisa Monte: “Que lindo! Agora, de vez em quando, aparece até alguém aqui que sabe fazer a parte do Arnaldo. Eu não sei se hoje tem... (procurando na plateia, acha Helder) Tem. Você sabe? Dá o microfone pra ele aí, parceiro! Vamos ver. Peraí. Como é o seu nome? Fala aí no microfone. Como é o seu nome?”.

Helder Bentes: "Helder".

Marisa Monte: "Helder, você é daqui de Belém?".

Helder Bentes: "Sou de Belém".

Marisa Monte: "Helder de Belém, gente! Calma, Helder, calma! Olha pra mim, você vai saber a hora certa. Tá?".

Helder Bentes: “Tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades. E seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido. Sentia um acréscimo de estima por si mesma. E parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações...”.

A cantora canta o refrão da música de novo, substituindo a frase “Amor, I Love You” por “Belém, I Love You” no final, e a plateia vibra de emoção.

Marisa Monte: "Palmas pro Helder! Arrasou, Helder! Honrou... Honrou o nome de Belém! Helder, no papel de Arnaldo Antunes, recitando o Primo Basílio, de Eça de Queiroz".

Para entender melhor o significado deste momento para Helder Bentes e para a cidade de Belém do Pará, leia os artigos “Literatura e Orgasmo” e “O Primo Basílio: ler o filme ou ver o livro?”, publicados orginalmente na coluna de Literatura que o crítico manteve de 2007 a 2013 no Portal ORM.

Para ler o texto "Literatura e Orgasmo", em que Helder analisa a canção "Amor, I Love You" basta acessar o endereço abaixo: http://belaspessoas.blogspot.com.br/2007/08/literatura-e-orgasmo-helder-bentes-se.html  

Para ler o texto “O Primo Basílio: ler o filme ou ver o livro?”: http://www.orm.com.br/helderbentes/capa/?mes=8&ano=2007


Helder Bentes honrando o nome de Belém para a cantora Marisa Monte


Helder Bentes honrando nome de Belém para a cantora Marisa Monte (visto de outro ângulo)
 


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