Drama dirigido por Eamonn Murphy acompanha fazendeiro viúvo cuja rotina muda depois que sua casa é invadida; produção independente foi totalmente financiada pelos próprios realizadores
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
Na Irlanda rural, onde a rotina parece obedecer ao relógio das vacas, das visitas ao pub e das tarefas da propriedade, uma invasão doméstica é suficiente para mudar a relação de um homem com o próprio lugar onde vive. É a partir desse desconforto que “Solitary”, drama dirigido e escrito pelo irlandês Eamonn Murphy, constrói uma história sobre envelhecimento, medo, violência e a dificuldade de pedir ajuda. O filme chega ao catálogo do streaming Belas Artes À La Carte
Gerry Herbert interpreta Brendan, um fazendeiro viúvo que vive sozinho na periferia de uma pequena vila. Acostumado à própria rotina, ele administra a propriedade, cuida do gado, encontra conhecidos e tenta seguir adiante depois da morte da mulher. A sensação de segurança começa a ruir quando sua casa é invadida e a violência passa a rondar a comunidade.
O ponto de interesse do filme está na maneira como Murphy transforma uma situação aparentemente simples em uma experiência cada vez mais angustiante. Durante o dia, “Solitary” se comporta como um drama rural sobre um homem envelhecendo em um mundo que já não lhe oferece a mesma sensação de pertencimento. À noite, porém, a conversa muda de tom. A casa ganha outra dimensão e a produção se aproxima do suspense, flertando com o terror à medida que Brendan fica sozinho diante de qualquer ruído, sombra ou possibilidade de uma nova invasão.
A mudança não é mero truque de gênero. O próprio Murphy explica que pensou a estrutura dessa maneira: enquanto Brendan está acompanhado, existe alguma sensação de proteção; quando a noite chega e ele fica por conta própria, o medo passa a comandar a narrativa. O diretor, curiosamente, não nasceu no interior. Murphy é de Dublin e passou parte das férias de infância e juventude visitando familiares no interior da Irlanda. A experiência acabou ajudando na construção de uma paisagem rural bastante específica, algo que chamou a atenção do público durante as primeiras exibições.
“Solitary” também carrega uma história de produção que daria facilmente outro filme. Murphy começou a trabalhar no roteiro em 2012, quando ainda estava na faculdade, mas abandonou o projeto por não conseguir encontrar a forma certa para a história. Dez anos depois, enquanto morava em Berlim, voltou ao material e encontrou o caminho que procurava. O roteiro ganhou nova forma e acabou dando origem ao primeiro longa-metragem dele.
A empreitada foi praticamente uma operação de guerrilha. Murphy e o produtor Alan Breslin bancaram a produção, que teve um orçamento estimado em apenas € 60 mil. Segundo o diretor, moradores da região também ajudaram na realização, oferecendo colaboração e estrutura para que o filme pudesse existir. A dimensão artesanal da produção não impediu uma trajetória bastante expressiva em festivais.
A estreia aconteceu no Galway Film Fleadh, em julho de 2025, e “Solitary” foi reconhecido como Melhor Filme Independente Irlandês. Depois, no Festival de Arras, na França, conquistou o Golden Atlas - Grand Jury Prize, principal prêmio da competição. O reconhecimento combina com uma proposta que aposta pouco em pirotecnia e bastante na observação de um personagem. Gerry Herbert sustenta Brendan com uma interpretação contida, adequada a um homem que parece ter aprendido a guardar quase tudo para si. Cailum Carragher e Cate Russell completam o trio principal, enquanto o elenco ainda conta com Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes.
A produção também tem uma particularidade curiosa: Murphy acumula funções. Além de escrever e dirigir, ele assina a montagem do filme. David Christopher Lynch responde pela direção de fotografia e Jonathan Casey pela música. A combinação contribui para que “Solitary” mantenha uma unidade estética bastante pessoal, especialmente quando a luz natural do campo dá lugar aos interiores escuros da casa de Brendan.
No fim das contas, o filme encontra seu melhor material no desconforto de um homem que quer continuar dono da própria vida enquanto o corpo, a idade e as circunstâncias começam a impor outras regras. A violência externa é o estopim, mas a história cresce quando Brendan percebe que talvez a maior dificuldade seja admitir que precisa de alguém por perto. Para um filme produzido com recursos tão modestos, “Solitary” chega ao streaming com uma credencial respeitável: passou por festivais importantes, ganhou prêmios e encontrou uma maneira bastante econômica de transformar uma casa, uma fazenda e algumas noites mal dormidas em matéria-prima para um drama que vai ficando cada vez mais sombrio. Às vezes, basta uma porta arrombada para a vida inteira parecer menos segura.
Ficha técnica
“Solitário” | “Solitary” (título original)
Gênero: drama. Duração: 86 minutos. Classificação indicativa: não informada para o lançamento brasileiro. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 11 de julho de 2025, na Irlanda; data de estreia no Brasil no Belas Artes à La Carte não localizada em fonte pública confiável. Idioma: inglês. Direção: Eamonn Murphy. Roteiro: Eamonn Murphy. Elenco: Gerry Herbert, Cailum Carragher, Cate Russell, Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Gênero: drama. Duração: 86 minutos. Classificação indicativa: não informada para o lançamento brasileiro. Ano de produção: 2025. Data de lançamento: 11 de julho de 2025, na Irlanda; data de estreia no Brasil no Belas Artes à La Carte não localizada em fonte pública confiável. Idioma: inglês. Direção: Eamonn Murphy. Roteiro: Eamonn Murphy. Elenco: Gerry Herbert, Cailum Carragher, Cate Russell, Emmet Kelly, Frances Blackburn, Gerry Cannon, Leanne Bickerdike, Carl Fitzpatrick, Síofra Brogan, Shane G. Casey e Gordon Forbes. Distribuição no Brasil: Belas Artes à La Carte. Cenas pós-créditos: não informadas. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.
Assine o Belas Artes À La Carte, o streaming para quem ama cinema de verdade
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.
A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.













0 comments:
Postar um comentário
Deixe-nos uma mensagem.