Comédia italiana de Gianni Di Gregorio chega à Reserva Imovision depois de passar pelo Festival de Veneza e observa, com humor delicado, os incômodos e afetos que acompanham a vida em família
Um professor aposentado na casa dos 70 anos finalmente conquistou aquilo que imaginava ser uma espécie de prêmio pela passagem dos anos: uma vida organizada segundo os próprios interesses. Em “Querendo ou Não”, que estreia na plataforma de streaming Reserva Imovision, o ator e diretor Gianni Di Gregorio interpreta esse homem que encontrou prazer na rotina tranquila, entre amigos, leituras, escritos que avançam devagar e uma existência sem grandes sobressaltos. O problema é que família, como se sabe, costuma ter pouca consideração pelos planejamentos alheios.
A tranquilidade do professor muda quando sua filha Sofia (Greta Scarano) retorna da Alemanha depois de descobrir a traição do marido, Helmut (Tom Wlaschiha). Ela chega acompanhada dos dois filhos, Olga e Tommaso, e instala na casa do pai uma confusão que altera seus hábitos, sua privacidade e até a maneira como ele passa a enxergar os próprios dias. Dirigido por Di Gregorio, que também assina o roteiro ao lado de Marco Pettenello, o filme acompanha esse rearranjo familiar com humor discreto.
A situação poderia facilmente escorregar para a comédia de conflitos domésticos, mas o cineasta prefere observar os personagens em suas pequenas contradições. O professor gosta da liberdade que tem, mas também se intromete na vida alheia quando lhe interessa. Sofia está fragilizada pela crise conjugal, mas nem por isso deixa de ser exigente. Os netos chegam como uma pequena força da natureza. Helmut, arrependido, tenta reconstruir a relação percorrendo um caminho bastante peculiar da Alemanha até Roma.
A premissa tem uma particularidade interessante: o homem que imaginava ter finalmente conquistado o direito de administrar o próprio tempo descobre que a aposentadoria, para os outros, pode significar exatamente o contrário. Quando Sofia lembra ao pai que ele é aposentado, a frase aparentemente banal carrega uma dose considerável de ironia. O trabalho confere uma espécie de legitimidade social aos compromissos, enquanto aquilo que alguém escolhe fazer por prazer pode ser tratado como tempo disponível para resolver problemas familiares.
Esse aspecto aproxima “Querendo ou Não” de uma tradição do cinema italiano interessada em encontrar humor nas pequenas engrenagens da convivência. Di Gregorio não precisa inventar grandes acontecimentos para movimentar a narrativa. A casa cheia, uma rotina interrompida, uma conversa atravessada ou a necessidade de dividir novamente espaços que pareciam definitivamente particulares já bastam para provocar situações engraçadas. O filme mantém essa atenção aos personagens comuns e aos pequenos embaraços da existência.
O romance também aparece nessa equação. O professor demonstra interesse por uma mulher e se permite flertar, lembrar que ainda existe desejo e imaginar uma possibilidade de relacionamento. A abordagem é discreta, sem transformar a velhice em sinônimo de ausência de interesse amoroso. Nesse ponto, o filme ganha uma conversa peculiar com outras produções recentes que colocam personagens mais velhos no centro de histórias de amor e desejo.Talvez exista, na comédia de Di Gregorio, alguma sabedoria nessa inconveniente matemática doméstica: certas coisas simplesmente chegam, ocupam espaço e nos obrigam a recalcular a rota.
Ficha técnica
“Querendo ou Não” | “Come Ti Muovi, Sbagli” (título original)
Gênero: comédia. Duração: 97 min. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Data de lançamento no Brasil: 22 de outubro de 2026, na Reserva Imovision. Idiomas: italiano e alemão. Direção: Gianni Di Gregorio. Roteiro: Gianni Di Gregorio e Marco Pettenello. Elenco: Gianni Di Gregorio, Greta Scarano, Tom Wlaschiha, Iaia Forte, Anna Losano, Pietro Serpi e Alessandro Bedetti. Distribuição no Brasil: Imovision. Cenas pós-créditos: não identificadas nas fontes consultadas. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.
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