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sábado, 6 de junho de 2026
.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo
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quinta-feira, 4 de junho de 2026
.: Coleção Argumentos em três livros que debatem futebol, ética e fake news
Publicada pela Ação Editora, a Coleção Argumentos reúne três livros com linguagem simples e direta, pensados para leitores que têm afã por ideias audaciosas e transformadoras. Ou, como escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “este mundo infame está grávido de outro possível”. “O Outro Lado do Jogo”, de Adriano Freixo, “Ética e Cidadania”, de Herbert de Souza, o Betinho, e Carla Rodrigues, e “Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”, de Sylvia Moretzsonhn chegam às livrarias neste mês de maio pela Ação Editora, um braço cultural da Ação da Cidadania, e trazem um convite à transformação, pois ideias movem o mundo.
"Ética e Cidadania", de Herbert de Souza e Carla Rodrigues
“Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação” ajuda a navegar em um universo dominado por fake news, um espaço onde informação e manipulação se entrelaçam. É uma leitura essencial para qualquer pessoa que deseje compreender como identidade e poder se confrontam no campo da informação. "Vivemos no contexto que se convencionou chamar de “pós-verdade” – a rigor, uma radicalização do relativismo pós-moderno que ganhou força décadas atrás – em que as crenças prevalecem sobre as evidências", diz a autora.
terça-feira, 26 de maio de 2026
.: Crítica: "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" é terror com mocinho desagradável
Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com
Em maio de 2026
O terror psicológico "Hokum: O Pesadelo da Bruxa", dirigido e roteirizado por Damian McCarthy ("Oddity - Objetos Obscuros", "Madame Teia"), mergulha no folclore irlandês para entregar uma história de perdão entre mãe e filho. Contudo, um alerta precisa ser dado logo a princípio, uma vez que o protagonista, o romancista Ohm Bauman (Adam Scott, "Big Little Lies") de postura constantemente grosseira, age sempre de modo desagradável. Ainda que esteja sozinho e em outro país para espalhar as cinzas de seus pais, impede o público de torcer por sua sobrevivência numa pousada mal-assombrada por uma bruxa que arrasta correntes.
A qualidade da trama e a montagem repleta de sequências de pura tensão tornam a produção perfeita para os fãs do gênero. Muito por priorizar o desconforto psicológico por meio de silêncios e a desconstrução da realidade do protagonista em detrimento de soluções narrativas fáceis. No entanto, "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" segue uma fórmula para assustar o público, o que vira alerta a ponto de permitir que alguns sustos sejam evitados.
Em certos pontos o longa se conecta com outros. Remete ao clássico "O Chamado" pelas figuras usadas, como por exemplo, o círculo nos primeiros minutos da história paralela do longa, embora estabeleça uma maior conexão com o clássico de terror psicológico "O Iluminado", uma vez que o protagonista está isolado e confuso em um hotel assombrado. "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" consegue usar elementos do terror (já conhecidos) a favor. Por fim, consegue ser único.
É inegável que o terror atmosférico de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" fisga a atenção do público ao colocá-lo para embarcar na desordem mental de Ohm e a dificuldade de lidar com um trauma de infância. Vale muito a pena assistir na telona de cinema e garantir uns bons sustos!
"Hokum: O Pesadelo da Bruxa" ("Hokum"). Gênero: Terror. Direção: Damian McCarthy. Roteiro: Damian McCarthy. Duração: 1h 47 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Adam Scott, David Wilmot e Florence Ordesh. Sinopse: O terror psicológico e folclore acompanha um romancista de terror que visita uma pousada na Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais, sem saber que o lugar tem fama de ser assombrado.
Trailer de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa"
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domingo, 24 de maio de 2026
.: "12º Round: A História de Emile Griffith" em nova temporada no TUSP
Com dramaturgia de Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, espetáculo conta a história desse lutador que enfrentou o preconceito ao assumir sua bissexualidade e evidencia como o racismo e a homofobia sempre estiveram presentes no meio esportivo. Foto: Eduardo Filho
Racismo e a homofobia no esporte são pautas levantadas por "12º Round: A História de Emile Griffith", com texto de Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, que estreou em 2025 no Sesc Ipiranga. A peça agora ganha uma nova temporada no TUSP - Teatro da USP, de 21 de maio a 14 de junho, com sessões de quinta a sábado, às 20h00, e aos domingos, às 19h00. Em cena, estão Alexandre Ammano, Fernando Vitor e Letícia Calvosa.
Apesar de ter feito uma brilhante carreira no boxe, o caribenho Emile Griffith, passou a enfrentar uma luta contra o preconceito dentro e fora dos ringues ao assumir sua bissexualidade. Traçando um voo panorâmico sobre temas como a violência no mundo do esporte, o racismo, a homofobia e as fronteiras da masculinidade negra, a peça também se propõe a discutir como essas tensões ainda ecoam até hoje na sociedade, abordando as contradições, violências e resistências vividas por corpos dissidentes.
A estreia do espetáculo contou com importantes personalidades do boxe brasileiro, como Servilho de Oliveira, primeiro brasileiro a conquistar uma medalha olímpica no boxe; Danila Ramos, primeira brasileira negra campeã mundial de boxe; Genival Guerra Gomes, árbitro da Confederação Brasileira de Boxe; Marcela Souza, primeira árbitra brasileira brasileira em uma olimpíada; Márcia Souza, Diretora de Arbitragem da Federação Paulista de Boxe e Fernando Tucori, jornalista e autor da biografia de Adilson Maguila.
Cinco vezes campeão mundial em três categorias de peso diferentes, Griffith foi o primeiro atleta com este perfil a assumir publicamente sua bissexualidade. Sua vida foi profundamente transformada após vencer o combate com Kid Paret, que havia chamado Emile de "bicha" várias vezes em público e, no embate, foi nocauteado e faleceu, numa luta televisionada para todos os EUA em 1962.
Negro e afro-caribenho, o lutador é uma figura de dimensões épicas, cuja trajetória nos permite discutir o quanto a sociedade contemporânea está — ou não — comprometida com a preservação dos direitos da população LGBTQIAPN+ e negra. O espetáculo busca dar corpo à memória de um herói complexo, que ousou desafiar as regras de seu tempo, um símbolo que rompeu paradigmas e enfrentou o peso do preconceito.
Idealizado pelo ator Fernando Vitor, que interpreta o protagonista, o espetáculo faz parte de uma longa pesquisa com o objetivo de dar luz a histórias queers e negras. “A trajetória de Griffith é uma das maiores histórias do mundo do esporte, e seu desconhecimento é resultado de um longo processo de apagamento de nossa história e nossas identidades. Estamos comprometidos em honrar sua trajetória, destacando o fato de Emile ter se tornado, além de tudo, um ativista da causa LGBTQIAPN+. O espetáculo está na encruzilhada de questões atuais. E num momento histórico onde a luta contra a homofobia e o racismo se fazem tão necessária, resgatar a história de Griffith nos inspira a seguir em frente”, revela.
A peça é encenada em “rounds”, assim como uma luta de boxe, num formato que aproxima o espectador de uma linguagem singular, marcada pela repetição, pelo esforço e pelo esgotamento, elementos que tensionam os corpos em cena e tornam esse “ringue” um constante território de disputa.
A montagem marca a estreia do Coletivo Nocaute, grupo de teatro negro formado por Bruno Lourenço (indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator por ‘Brás Cubas’), Fernando Vitor (‘James Baldwin: Pode Um Negro Ser Otimista?’), Letícia Calvosa (‘Escola Modelo’) e Alexandre Ammano (‘O Avesso da Pele’ e ‘A Máquina’).
“Decidi escrever esta peça principalmente por achar imperdoável que um lutador de sua importância, um ser humano generoso e ativista de tantas e tão belas causas sociais não tivesse gravado seu nome na história. Griffith foi um ser humano excepcional, dentro e fora dos ringues. Senti que a dramaturgia poderia obedecer às regras do Boxe, no intuito de reproduzir o tempo de uma disputa na íntegra. Criei 12 cenas de três minutos, separadas por cenas menores, de um minuto, que correspondem aos intervalos do gongo, com o objetivo de ser fiel ao esporte. A narrativa surge entrecortada, com algumas idas e vindas no tempo, até que o arremate final se dá na última cena, na qual Griffith vive, aparentemente, o que teria sido o melhor dia de sua vida”, adianta Sérgio Roveri.
Neste percurso, a montagem dá voz a personagens reais e ficcionais que orbitam o universo de Griffith — sua mãe; seu maior adversário, Kid Paret; seu namorado; jornalistas e figuras simbólicas — oferecendo uma cartografia afetiva, política e histórica de sua trajetória e seu legado. A peça propõe uma reflexão sobre a complexidade da vida do boxeador, seus dilemas íntimos e os desafios impostos por uma sociedade que marginalizava sua identidade. A encenação busca captar a tensão entre o corpo como máquina de luta e o corpo como espaço de desejo, dor e resistência. O espetáculo conta ainda com projeções de imagens de arquivos em fotos e vídeos, utilizados com a finalidade de conferir verossimilhança às memórias fragmentadas, apresentar os rostos das personalidades reais e estabelecer diálogos entre os diversos tempos históricos.
“Esse foi o maior desafio da minha estreia na direção artística: transformar a luta em linguagem, em dança e em narrativa. E, mais do que isso, dar corpo e voz a uma história que me atravessa. Emile Griffith não é apenas uma figura biográfica, é um ancestral. Um campeão mundial praticamente apagado do nosso imaginário por conta da homofobia. Como é possível que saibamos tanto sobre Muhammad Ali, Pelé, Michael Jordan e quase nada sobre Griffith? Achei que essa lacuna precisava ser preenchida. Através da tensão entre elegância e violência, o espetáculo se constrói como uma espécie de teatro-documentário com uma pegada pop. A trilha sonora, marcada por clássicos do cinema, contribui para esse clima híbrido entre o real e a memória, entre o ringue, o vestiário e o clube noturno”, ressalta Bruno Lourenço.
O texto de “12º Round” foi contemplado em 2015 pelo PROAC (Programa de Apoio à Cultura do Estado de São Paulo) dentro da modalidade Concurso Para Bolsa de Incentivo à Dramaturgia - Criação Literária do Estado de São Paulo, obtendo o segundo lugar na classificação geral entre concorrentes de todo Estado.
Ficha técnica
Espetáculo "12º Round: A História de Emile Griffith"
Idealização de projeto: Fernando Vitor
Direção artística: Bruno Lourenço
Dramaturgia: Sérgio Roveri
Elenco: Alexandre Ammano, Fernando Vitor e Letícia Calvosa
Cenografia, figurino e direção de arte: Maíra Sciuto e Natália Burger
Assistência de cenografia: Matheus Muniz
Iluminação e técnica de luz: Ariel Rodrigues
Preparação de corpo: Tainara Cerqueira
Preparação de voz: Malú Lomando
Consultoria e treinamento de boxe: Wellinton Souza
Vídeo e projeções: Renan Almeida
Direção musical: Bruno Lourenço
Técnico de som: Fernando da Mata
Piano (gravação): Lisi Andrade
Vibrafone (gravação): Lua Oliveira
Sound design: Lua Oliveira
Gestão de projeto: Jéssica Rodrigues
Direção de produção: Natália Burger
Diretor de palco: Gabriel Diniz
Fotos: Rony Hernandes
Identidade Visual: João Vitor Lage
Cenotécnica: Alício Silva, Casa Malagueta
Stand-in: Thamiris Mandú
Apoio: Diamond Sports Brasil
Serviço
Espetáculo "12º Round: A História de Emile Griffith"
Temporada: até dia 14 de junho de 2026
De quinta a sábado, às 20h00; e aos domingos, às 19h00
TUSP - Teatro da USP - Rua Maria Antônia, 294 - Vila Buarque, São Paulo
Ingressos: gratuitos, liberados uma hora antes de cada sessão na bilheteria (sujeito à lotação do espaço), limitados a uma entrada por pessoa
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Instagram: @12roundteatro
Capacidade: 100 lugares
Acessibilidade: elevadores
.: Espetáculo infantojuvenil "Antes de Dormir" está em cartaz no Sesc Ipiranga
Pipa descobre que crescer não é uma tarefa fácil no espetáculo infantojuvenil "Antes de Dormir", com texto de Liana Ferraz e direção de Joana Dória, que tem sua temporada de estreia até dia 19 de julho, no Sesc Ipiranga, com apresentações sempre aos domingos, às 11h00. Estrelado por Carol Vidotti, Dom Capelari e Fábia Mirassos, o espetáculo inédito foca questões delicadas do último ato da infância, como o embate entre o medo e a vontade de crescer, a complexidade das escolhas, as mudanças no pensar e no sentir, as chegadas e despedidas.
Na trama, enquanto os adultos acreditam que as crianças já dormiram, Pipa, Maju e Nada transformam seu quarto em um território fértil para a imaginação, os sonhos, os pesadelos, os medos e as lembranças. Eles imaginam juntos os desafios e delícias de crescer. O tema toca pessoas de várias gerações, com a proposta de reconhecer a riqueza das reflexões das crianças sobre suas emoções e vivências. Contrariando o senso comum, elas não se cansam de nos surpreender com elaborações poéticas e até mesmo psicanalíticas e filosóficas.
No intuito de não ceder aos hábitos de fruição cada vez mais hegemônicos (minúsculas durações, abordagens superficiais e dispositivos hipnóticos), o espetáculo articula música, composição visual e trabalho corporal como recursos para ampliar a conexão com a história e com a palavra corporificada nesse evento presencial, com frequência analógico e sempre coletivo chamado teatro.
Ficha técnica
Espetáculo "Antes de Dormir"
Idealização e direção: Joana Dória
Dramaturgia: Liana Ferraz
Atuação: Carol Vidotti, Dom Capelari e Fábia Mirassos
Musicista: Clara Dum
Assistência de direção: Manu Nahas
Direção de movimento: Karina Almeida
Iluminação: Henrique Andrade
Direção de arte: Nicolle de Bari
Visagismo: Fábia Mirassos
Direção de criação musical: Dom Capelari
Letras e melodias: Dom Capelari e Liana Ferraz
Arranjos: Dom Capelari e Clara Dum
Técnico e operador de som: Pedro Semeghini
Operador de luz: Henrique Andrade e Manu Nahas
Cenotécnico: Dahora cenografia - José Alves da Hora
Aderecista: Criando Planos
Design gráfico: Manuela Afonso
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Vídeo: Madu Araraki
Fotos: Tomás Franco
Direção de produção: Paula Malfatti
Administração: Marisa Riccitelli Sant’Ana - Superfície de Eventos
Gestão: Malfatti Paciência em Ato
Serviço
Espetáculo "Antes de Dormir"
Apresentações: até dia 19 de julho, sempre aos domingos, às 11h00
Sessão com Libras dia 27 de junho
Sesc Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga
Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 20,00 (meia-entrada) e R$ 12,00 (credencial plena) Gratuito para crianças até 12 anos
Vendas on-line em sescsp.org.br ou presencialmente nas bilheterias de qualquer unidade do Sesc São Paulo
Classificação: livre.
Duração: 60 minutos
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
quinta-feira, 21 de maio de 2026
.: Vencedor em Berlim, drama revela como progresso redesenha as relações
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.
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terça-feira, 12 de maio de 2026
.: Estopô Balaio estreia “Reset América Latina” no Sesc Belenzinho
Inédito, o trabalho transforma um cruzeiro de luxo em alegoria da formação latino-americana. A montagem investiga colonialidade, identidade e pertencimento a partir da metáfora da travessia. Foto: Cassandra Mello
O Coletivo Estopô Balaio estreia no dia 14 de maio, no Sesc Belenzinho, o espetáculo "Reset América Latina, terceiro e último trabalho da Trilogia da Amnésia, iniciada com Reset Nordeste (2020) e seguida por Reset Brasil (2023). A temporada segue até 28 de junho, com sessões de sexta à domingo. Premiado ao Shell na categoria Inovação por “A Cidade dos Rios Invisíveis” em 2020, conhecido por suas criações em ruas, praças e trens da CPTM, o grupo da zona leste de São Paulo realiza, agora, um movimento inédito: ocupar um espaço fechado. Entre os nove espetáculos de sua trajetória, apenas um havia sido concebido para palco. A decisão marca uma inflexão estética e estratégica na história do coletivo.
“Estamos trocando de pele em todos os sentidos”, afirma a diretora e atriz Ana Carolina Marinho. “A trilogia é um mergulho para dentro. Investigamos o que esquecemos de lembrar quando inventamos identidades que nos homogeneizam. O nordestino, o brasileiro e agora o latino-americano são construções que encobrem camadas étnicas, raciais e territoriais muito mais complexas”.
A mudança de linguagem dialoga também com o contexto das políticas culturais atuais. Diante de dificuldades crescentes de circulação e financiamento para trabalhos itinerantes, o grupo opta por experimentar um formato que dialogue com os mecanismos institucionais vigentes, sem abrir mão de sua perspectiva crítica. Ao mesmo tempo, o coletivo prepara a inauguração de sua nova sede no Jardim Romano, também na zona leste, instalada em um antigo salão religioso que está sendo transformado em teatro. A abertura está prevista para julho, logo após o encerramento da temporada no Sesc.
Um cruzeiro chamado “Sangue Latino”
Em cena, Reset América Latina se inicia dentro de um cruzeiro de luxo - metáfora do próprio teatro. Um “não-lugar” em águas internacionais, onde passageiros embarcam para viver uma experiência de consumo cultural e identitário.
O primeiro ato assume a forma de um musical: canções populares do imaginário brasileiro conduzem um espetáculo que revisita simbolicamente as grandes navegações e o projeto colonial. Aos poucos, surgem fissuras. Conflitos de classe, raça e pertencimento atravessam dois núcleos de personagens: um casal em ascensão social e um grupo de amigos que ganha uma viagem premiada.
“O cruzeiro atravessa o Atlântico como uma espiral do tempo”, explica o dramaturgo e ator Juão Nyn. “Caravelas, navios negreiros - tudo ecoa nesse percurso. A ideia é questionar essas identidades criadas pelos invasores da terra e perguntar: o que somos antes de sermos latino-americanos?”
No segundo ato, o espetáculo desloca o olhar para os bastidores da embarcação - cozinha, limpeza e maquinário. Trabalhadores exaustos, ainda que financeiramente recompensados, confrontam a sensação de esvaziamento e saque simbólico. Uma disputa em torno de um prato - a “língua” servida aos passageiros - torna-se alegoria da violência histórica sobre território, cultura e linguagem.
Já o terceiro momento rompe com a narrativa realista e avança para uma dimensão imagética e pós-dramática. A figura da cobra - demonizada na tradição cristã e reverenciada em diversas cosmologias indígenas - torna-se eixo simbólico da transformação. Trocar de pele, aqui, é abandonar camadas coloniais para acessar outras temporalidades e cosmovisões.
Ancestralidade crítica
A Trilogia da Amnésia parte da provocação: o que apagamos quando adotamos identidades nacionais ou regionais como essência? Se o conceito de Nordeste tem menos de um século e o de América Latina nasce de projetos coloniais, que histórias anteriores ficam soterradas?
O grupo propõe o que chama de “ancestralidade crítica”: reconhecer que toda identidade é atravessada por disputas e que honrar o passado pode implicar também trair legados violentos. A discussão inclui a branquitude latino-americana e suas estratégias de pertencimento simbólico, tensionando a ideia de uma experiência homogênea no continente.
Elenco e criação coletiva
Pela primeira vez, o Estopô inicia um processo tendo todo o elenco fixo do grupo em cena — Ana Carolina Marinho, Juão Nyn, Dandara Azevedo, Kelly Andrade e Dunstin Farias — acompanhados por quatro intérpretes convidados. Integrantes que não atuam assumem funções de produção, figurino e secretariado.
A dramaturgia é assinada por Lara Duarte, com colaboração do coletivo, assistência de direção de Bárbara Freitas e Direção de Eliana Monteiro. A preparação vocal, corporal e direção de movimentos é de Dudu Galvão e produção de Wemerson Nunes. A identidade visual do espetáculo incorpora desenhos produzidos por crianças do Jardim Romano em oficina artística, reforçando o diálogo territorial que marca a trajetória do coletivo. Montado com recursos do ProAC, Reset América Latina tem previsão de 30 apresentações públicas.
Sinopse
O cruzeiro Sangue Latino, um empreendimento de luxo que promete conduzir seus passageiros por uma travessia festiva e musical pelo imaginário Latino Americano, enfrenta uma pane silenciosa por causa de uma maraca na tubulação. A partir desse curto-circuito, diferentes núcleos entram em choque, reunindo cozinha, maquinário, limpeza, saguão e passageiros, e revelando as fissuras que sustentam esse projeto colonial. A narrativa passa a assumir contornos cada vez mais absurdos e melodramáticos, tensionando privilégios, expectativas e os limites da empatia. À medida que identidades se confundem e papéis sociais se deslocam, o espetáculo expõe como os projetos coloniais seguem operando no presente, ao mesmo tempo em que sugere a existência de um plano em curso, uma estratégia em movimento, uma possibilidade de levante indígena.
Marcando a segunda experiência do coletivo na caixa cênica, Reset América Latina desloca para o espaço fechado do teatro uma pesquisa antes realizada em diálogo direto com a cidade, e se pergunta como trazer o território para dentro do cruzeiro, convidando o público a embarcar em uma viagem satírica sobre o que constitui a identidade Latino Americana.
Ficha técnica
Espetáculo "Reset América Latina"
Direção geral: Eliana Monteiro
Diretora assistente: Bárbara Freitas
Idealização e criação: Coletivo Estopô Balaio
Dramaturgia: Lara Duarte com colaboração do Coletivo Estopô Balaio
Textos: Ana Carolina Marinho, Bárbara Freitas, Eliana Monteiro, Dandara Azevedo, Dunstin Farias, Juão Nyn, Keli Andrade, Lara Duarte, Wescritor
Direção de movimentos e preparador corporal: Dudu Galvão
Direção e produção musical: Dani Nega
Criação musical: Coletivo Estopô Balaio e Dani Nega
Produção musical - Show de abertura: Dani Nega e Pipo Pegoraro
Canções originais: elenco
Arranjos de voz: Dudu Galvão
Elenco Estopô Balaio: Ana Carolina Marinho, Dandara Azevedo, Dunstin Farias, Keli Andrade, Juão Nyn
Elenco convidado: Adyel Kariú Kariri, Hayla Cavalcanti, Potira Marinho, Wescritor
Desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Operação de luz: Yasmin Ebere
Operação e design de som: André Papi
Videografia: Bianca Turner
Operação de vídeo mapping: Julia Ro, Laura Do Lago E Bianca Turner
Concepção de cenografia: Eliana Monteiro
Assistente de cenografia E Desenho Técnico: José Fernando Bicudo
Cenotécnico: Zé Valdir
Criação e concepção de figurinos: Mara Carvalho
Confecção, Modelagem e costura: Silvana Carvalho
Adereços: Rafa Giz e Zé Valdir
Identidade visual: Daniel Torres
Contrarregras: Lisa Ferreira, Muri Palma, Mauro José e Rafael Alcantara
Montadores: Mauro José, Rafael Alcantara
Assessoria de imprensa: Márcia Marques - Canal Aberto
Secretaria: Lisa Ferreira
Mídias sociais: Jorge Ferreira
Fotografia e câmera: Cassandra Mello
Direção de produção: Wemerson Nunes
Assistente de produção: Muri Palma
Produção : Wn Produções e Bela Filmes Produções
Realização: Coletivo Estopô Balaio e Sesc São Paulo
Acessibilidade: Libras e Audiodescrição (Consulte Datas)
Agradecimentos: Teatro de Contêiner Mungunzá (Cia Mungunzá), Cia Antropofágica (Teatro Pyndorama), Cia Livre (Casa Livre), Cooperativa Paulista de Teatro, Casa Faroffa, Galpão do Folias, Complexo Funarte, Teatro Flávio Império, SP Escola de Teatro, Teatro da Vertigem e aos moradores do Jardim Romano.
Serviço
Espetáculo "Reset América Latina"
Data: 14 de maio a 28 de junho, às sextas e aos sábados, às 20h30, e, aos domingos, às 17h30
Estreia 14 de maio, quinta-feira às 20h30.
Sessões especiais nos dias 16 e 17 de maio, durante a Semana S: retirada de ingressos dia 15/5 a partir das 14h online. Gratuito
Sessões especiais nos dias 23 e 24 de maio, durante a Virada Cultural retirada de ingressos um dia antes a partir das 15h online. Gratuito
Acessibilidade
Interpretação em Libras nos dias: 24/05, 29/05, 06/06, 14/06, 20/06 e 28/06.
Audiodescrição nos dias: 07/06, 12/06 e 21/06.
Local: Sesc Belenzinho - R. Padre Adelino, 1000 - Belenzinho, São Paulo, SP
Ingressos: R$60,00 (inteira); R$30,00 (meia-entrada); R$18,00 (Credencial Plena).
Vendas no portal sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades Sesc.
Local: Sala de Espetáculos I (130 lugares). Duração: 120 min. Classificação: A partir de 12 anos.
Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000. Belenzinho – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 2076-9700 | sescsp.org.br/Belenzinho
Estacionamento: De terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h.
Valores: Credenciados plenos do Sesc: R$8,00 a primeira hora e R$3,00 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$17,00 a primeira hora e R$4,00 por hora adicional.
Transporte Público: Metrô Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)
sábado, 9 de maio de 2026
.: "Onde Moram os Livros? Bibliotecas do Brasil" de Daniela Chindler é lançado
Há 15 anos, quando Daniela Chindler começou a pesquisar a histórias das bibliotecas, ela não podia imaginar a repercussão que alcançaria seu trabalho. Em 2012, a autora lançou o título “Bibliotecas do Mundo”, que recebeu o prêmio Malba Tahan de Melhor livro informativo para crianças e jovens pela FNLIJ e logo foi adaptado para o teatro. A peça foi apresentada em escolas, teatros e teve o privilégio de ser encenada na entrada da Biblioteca Nacional! Em 2017 a autora voltou seu olhar para as nossas fronteiras e escreveu “Onde Moram os Livros? Bibliotecas do Brasil”.
Sobre a autora
Biblioteca dos Saberes
Real Gabinete Português de Leitura
O inferno
quinta-feira, 7 de maio de 2026
.: “12.12: O Dia” reconstrói golpe de 79 e estreia na Reserva Imovision
Ficha técnica
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quinta-feira, 2 de abril de 2026
.: Filme "Barba Ensopada de Sangue" aposta no vazio e provoca desconforto
Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, editor do portal Resenhando.com.
Na trama, os espectadores acompanham um professor de educação física interpretado por Gabriel Leone, que se muda para o litoral catarinense após a morte do pai. O que começa como uma tentativa de reorganizar a própria vida rapidamente se transforma em uma investigação íntima e fragmentada sobre o desaparecimento do avô, figura envolta em versões contraditórias e perguntas persistentes. A narrativa se constrói em camadas, explorando o deslocamento do protagonista e sua dificuldade de se inserir em uma comunidade que parece proteger segredos com obstinação.
Muritiba, que já havia demonstrado interesse por personagens à margem em trabalhos anteriores, como Deserto Particular, aposta aqui em uma encenação contida, na qual o não dito tem tanto peso quanto os diálogos. O roteiro, assinado em parceria com Jessica Candal, preserva o espírito introspectivo do livro, ainda que adapte sua estrutura fragmentária para um formato mais linear, sem abrir mão da ambiguidade que sustenta o mistério.
O elenco traz ainda nomes como Thainá Duarte, Ivo Müller, Roberto Birindelli e Teca Pereira, compondo um conjunto que sustenta a atmosfera de estranhamento e isolamento que atravessa o filme. A presença da cadela Beta, herdada do pai, funciona como elo afetivo e simbólico, reforçando a solidão do protagonista e sua busca por pertencimento.
Exibido na seleção oficial do Festival de Gramado, o longa já havia chamado atenção pela atuação contida de Leone e pela fidelidade temática ao material original. A adaptação carrega ainda a curiosidade de não ter contado com envolvimento direto de Galera no roteiro, decisão que, segundo entrevistas à imprensa, foi respeitada pelo autor, interessado em ver a obra reinterpretada por outros criadores.
Publicado em 2012, o romance original venceu o Prêmio São Paulo de Literatura e foi traduzido para mais de dez idiomas, consolidando-se como um marco da ficção brasileira contemporânea. No cinema, “Barba Ensopada de Sangue” preserva essa vocação para o incômodo e a introspecção, recusando respostas fáceis e convidando o espectador a habitar as lacunas existentes no livro.
Ficha técnica
“Barba Ensopada de Sangue” (título original)
Gênero: drama.
Duração: 108 minutos.
Classificação indicativa: 14 anos.
Ano de produção: 2026.
Idioma: português.
Direção: Aly Muritiba.
Roteiro: Aly Muritiba e Jessica Candal.
Elenco: Gabriel Leone, Thainá Duarte, Ivo Müller, Roberto Birindelli, Teca Pereira.
Distribuição no Brasil: O2 Play.
Cenas pós-créditos: não.
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“Barba Ensopada de Sangue” no Cineflix Miramar | Santos
De 2 a 8 de abril | Sessões no idioma original | Sala 1 | 21h00.
No Miramar Shopping | Rua Euclides da Cunha, 21 - Gonzaga - Santos / São Paulo.
Ingressos neste link
domingo, 8 de março de 2026
.: “Barquinho de Papel”, de Jadna Alana, vence a 10ª edição do Prêmio Kindle
O romance “Barquinho de Papel”, da escritora paraibana Jadna Alana, venceu a 10ª edição do Prêmio Kindle de Literatura, uma das principais iniciativas de incentivo à literatura independente no Brasil. A edição deste ano foi considerada histórica, reunindo mais de 3.200 obras inscritas. Com a vitória, a autora receberá R$ 50 mil em prêmio e adiantamento de royalties, terá o livro publicado pelo Grupo Editorial Record, ganhará uma edição especial enviada aos assinantes da TAG Experiências Literárias e contará com adaptação em audiolivro pela Audible. Além disso, Jadna Alana passa a integrar o grupo de jurados da próxima edição do prêmio.
Ambientado em um vilarejo fictício da Bahia, o romance acompanha Jurema, menina que vive na orla de Cruz-credo, um lugar marcado pela precariedade e pela sensação de abandono. Entre as figuras que povoam o cotidiano da pequena comunidade está o padre Cícero, responsável pela capela azul do povoado e alvo constante das provocações da protagonista. A relação entre os dois mistura humor, curiosidade e uma tentativa insistente de catequese, já que Jurema nunca foi batizada - fato que, segundo os moradores, explicaria seu espírito inquieto.
O enredo se constrói a partir de uma imagem delicada e simbólica: a menina recolhe do lixo pedaços de papel, cartas incompletas e fragmentos de histórias esquecidas. Com esses restos, decide construir um barquinho de papel capaz de carregar sonhos e memórias. Cada relato ouvido, cada lembrança abandonada pela comunidade passa a compor o casco, as velas e o leme dessa embarcação imaginária. O gesto simples transforma-se em metáfora de travessia e de reinvenção.
Ao acompanhar o crescimento de Jurema, o romance propõe uma reflexão sobre memória, pertencimento e desejo de partida. A protagonista vive entre a afeição pelas pessoas do vilarejo e a vontade de conhecer o mundo além-mar. O barquinho, feito de palavras descartadas, simboliza justamente essa possibilidade de partir sem deixar de carregar consigo as histórias que moldam a identidade.
Antes mesmo da conquista do Prêmio Kindle, “Barquinho de Papel” já havia recebido reconhecimento ao vencer o Prêmio Carolina Maria de Jesus em 2023. A obra dialoga com o campo que a autora investiga academicamente: o chamado regionalismo fantástico, vertente que mistura elementos da cultura regional brasileira com atmosferas fabulares e imaginativas. Compre o livro "Barquinho de Papel", de Jadna Alana, neste link.
Sobre a autora
Formada em Letras pela Universidade Estadual da Paraíba e mestre em Linguagem pela Universidade Federal de Ouro Preto, Jadna Alana já vinha se destacando no cenário literário. O livro anterior dela, “Se Tu Me Quisesse”, foi finalista do Prêmio Kindle em 2022 e do Prêmio Odisseia de Literatura Fantástica em 2023. A autora também venceu o Prêmio Marília Arnaud com o conto “O Menino de Imburana”.
Além da produção literária, Jadna atua como profissional de texto na ALCE, sua marca editorial, e dirige o selo Candeário, dedicado à publicação de obras ligadas ao regionalismo fantástico. A vitória no Prêmio Kindle consolida sua trajetória e amplia a visibilidade de uma proposta estética que busca unir tradição regional, imaginação e experimentação narrativa.
Com “Barquinho de Papel”, Jadna Alana apresenta uma narrativa sensível sobre infância, memória e desejo de deslocamento. Ao transformar restos de histórias em matéria literária, o romance reafirma a potência das pequenas narrativas e das vozes esquecidas - aquelas que, dobradas com cuidado, podem se tornar barcos capazes de atravessar qualquer mar. Compre os livros de Jadna Alana neste link.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
.: Entrevista: Marcelo Alves, do "BBB 26": "Meu maior adversário fui eu mesmo"
Ao relembrar a trajetória no reality show, ele reconhece erros cometidos no programa e afirma que deveria ter se expressado mais. Foto: Globo/ Beatriz Damy
Da casa de vidro para o "BBB 26", Marcelo Alves foi eliminado no quinto paredão da temporada, com 68,56% dos votos, na última terça-feira, dia 17 de fevereiro, em uma disputa contra Solange Couto e Samira Sagr. Ao relembrar a trajetória no reality show, ele reconhece erros cometidos no programa e afirma que deveria ter se expressado mais. "Senti falta de externar meus pensamentos. Era importante que o público soubesse o que eu estava pensando. Algumas atitudes me irritavam, mas eu não falava. Planejava conversar com Ana Paula antes do paredão para mostrar que estava com eles, mas não fiz. O rompimento com Maxiane e Marciele apenas confirmou o que eu já pensava, mas não estava mostrando para fora. Na minha cabeça, eu estava bem-posicionado, mas não deixei isso claro para o público, que era o principal", observa. Em entrevista, o ex-participante analisa os fatores que atrapalharam a permanência dele na competição e faz um balanço de sua passagem pelo programa. Marcelo também revela o que teria feito de diferente e como seria seu pódio com quem ainda segue na disputa.
Como resume o que foi o "Big Brother Brasil" para você?
Marcelo Alves - O "BBB", para mim, foi a realização de um sonho. Eu me inscrevo desde 2014. Sei que tive minhas flutuações no jogo. Não consegui me mostrar por inteiro, tive minhas falhas e consigo reconhecê-las. Dentro da casa já percebia isso, e aqui fora só se confirmou. Mas estou muito feliz, viveria tudo de novo. Se fosse chamado novamente para participar, iria com outros olhos, com outra garra, com um posicionamento diferente e sendo 100% eu. Acredito que não consegui entregar totalmente quem eu sou.
Quais foram os erros e acertos dessa experiência?
Marcelo Alves - Erro foi não ter conseguido me doar 100% por causa de medos e inseguranças relacionados à minha sexualidade. Eu tinha muito receio de como isso iria repercutir aqui fora, tanto para mim quanto para minha família. Ser gay não é fácil, e isso me deixava inseguro. Outro erro foi me apegar rápido às pessoas e ser leal muito cedo, o que me fez tomar partido por outros e me perder no jogo. Eu deveria ter me posicionado de um lado só, não importava qual, mas firme. Infelizmente, percebi isso apenas no final, quando já era tarde.
Apesar de não ser tão próximo ao grupo do quarto Sonho da Eternidade, houve ocasiões em que você e o Breno se juntaram a eles para combinar votos. Como avalia essa posição de jogo?
Marcelo Alves - Sempre tive carinho pelas pessoas do quarto da Eternidade, como Babu, Juliano, Boneco (que veio comigo da casa de vidro) e Chay. Tive uma questão pequena com Ana Paula, mas lá dentro tudo ganha proporções maiores. Acabei tomando a dor do que aconteceu com Maxiane. Hoje, vendo de fora, percebo que a situação com Ana Paula foi mínima e eu a transformei em algo grande. Gosto muito dela, mesmo com as implicâncias. Faltou percepção e força para me situar em um lugar só. Minha questão foi tomar dores que não eram minhas e esquecer que o jogo era individual. Um exemplo foi a situação com Jonas, que virou justificativa para ele me colocar no paredão, mesmo não tendo sido algo diretamente comigo.
A prova do líder da última semana marcou um rompimento entre você, a Maxiane e a Marciele?Marcelo Alves - Senti falta de externar meus pensamentos. Era importante que o público soubesse o que eu estava pensando. Algumas atitudes me irritavam, mas eu não falava. Planejava conversar com Ana Paula antes do paredão para mostrar que estava com eles, mas não fiz. O rompimento com elas [Maxiane e Marciele] apenas confirmou o que eu já pensava, mas não estava mostrando para fora. Na minha cabeça, eu estava bem-posicionado, mas não deixei isso claro para o público, que era o principal.
Como acredita que as duas irão se posicionar daqui para frente? E o Breno, após a sua saída?
Marcelo Alves - Já sentia que iria sair, porque tinha consciência da minha flutuação e de não estar me entregando por inteiro. Tive crises de ansiedade e insegurança pela questão da sexualidade e pelo medo de minha família ser atacada. Antes de sair, falei para o Breno: “Se posicione. Fique do lado dos meninos, Babu, Juliano e Boneco.” Mas sei que as meninas vão querer conversar com ele, e Breno cede muito fácil. Espero que não ceda, porque minha eliminação foi consequência disso. Se elas tivessem me colocado sentado [na prova do Líder] uma ou duas vezes e eliminado Jonas ou Cowboy, que são fortes em provas, eu ou Breno poderíamos ter vencido a liderança e mudado o cenário. Infelizmente, percebi isso tarde demais..
Depois da indicação do líder Jonas, você relembrou que ele o havia colocado no primeiro castigo do monstro da temporada e que não teria argumentos para votar em ti. Imaginava receber essa indicação ou o voto dele te pegou de surpresa?
Marcelo Alves - Eu já imaginava. Minutos antes do paredão, senti que seria eu e perguntei ao Breno se estava preparado, porque seríamos os dois na berlinda. Jonas tinha colocado Babu, que puxou Sarah, e ela saiu. Então, se ele colocasse Juliano, poderia eliminar Alberto, amigo dele. Ele preferiu o caminho mais fácil. Infelizmente, estamos em uma fase do jogo em que eles acham que os pipocas são fracos. Tenho até dó quando colocarem Chai no paredão, porque vão ver que não somos fracos. Fico feliz por Chaiany, que tem um coração enorme e uma inocência boa. Inclusive, Ana Paula perguntou a Jonas por que ele me indicou, e ele disse que as outras opções, Milena e Chai, estavam imunizadas. Ou seja, mais uma vez, tudo sobre os pipocas. Mas é aí que eles vão se surpreender.
Considera ter sido ele seu maior adversário no programa? Ou outra pessoa?
Marcelo Alves - Acredito que meu maior adversário fui eu mesmo. Se tivesse seguido minhas intuições e me firmado de um lado da casa, sem ficar no meio, teria ido muito bem. Não tive nenhum adversário que me desestabilizasse de verdade.
Neste paredão, o grupo do qual ele faz parte conseguiu colocar três adversários na berlinda. Acha que faltou articulação ou foi questão de sorte?
Marcelo Alves - Eu conseguia articular bem, mas não pensei que o voto de Alberto estava vetado. Se tivesse percebido isso, teria articulado para colocar Jordana e Maxiane no paredão. Quando fui indicado, queria ter ido com Maxiane, mesmo que saísse. Podia ter gritado na sala: “Votem em Maxiane!”, mas não fiz. Talvez tivesse mudado tudo. Para mim, seria mais confortável sair contra ela do que contra pessoas do meu grupo.
Você e o Breno protagonizaram o primeiro beijo da edição e desde então mantiveram uma relação próxima dentro da casa. Foi ele seu maior aliado?
Marcelo Alves - Sim. Falei para ele que, se não estivesse tão próximo, eu teria me perdido ainda mais. Mesmo com meus medos e inseguranças, ele conseguia me reconectar comigo em momentos difíceis. Foi uma aproximação genuína, de afeto, que quero levar para fora da casa, seja da forma que for.
Que amizades fez no "BBB" e deseja cultivar aqui fora?
Marcelo Alves - Chai, Leandro, Juliano, Babu, Samira e Breno, claro. Quero ver como ficará a situação com Ana Paula e Milena, porque tenho carinho por elas. As outras meninas ainda me deixam chateado, então prefiro falar das pessoas de quem tenho certeza.
Quais são seus planos a partir de agora? Pretende seguir atuando na Medicina e voltar para Currais Novos (RN)?
Marcelo Alves - Meus planos serão conforme Deus me guiar. Se aparecer trabalho, adoro fotografar, fazer publicidade, televisão... O que vier, estarei aberto. Se não, volto para minha cidade para exercer a Medicina com orgulho, porque amo ajudar pessoas. Comentei com Babu que um dos meus maiores sonhos é ir até a África para ajudar com meu trabalho quem realmente precisa.
Se pudesse montar seu pódio agora que deixou a disputa, como ele seria?
Marcelo Alves - Chai, Breno e Leandro.
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
.: "Bertoleza" ganha nova e curtíssima temporada no Teatro Alfredo Mesquita
Com direção de Anderson Claudir, adaptação da Cia. Gargarejo desloca o protagonismo no romance “O Cortiço”, de Aluísio Azevedo, para quem verdadeiramente o merece. Foto: José de Holanda
Sucesso de crítica e público em diversas temporadas, o musical "Bertoleza", da Gargarejo Cia Teatral, estreou em 2020 e conquistou o prêmio APCA de melhor espetáculo daquele ano. E, para quem ainda não conseguiu assistir ao trabalho, a Cia. Gargarejo faz uma nova temporada gratuita no Teatro Alfredo Mesquita, de 20 de fevereiro a 1º de março de 2026, às sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 19h00. Aos domingos, terá intérprete de libras e roda de conversa.
A montagem, com adaptação, direção e canções originais de Anderson Claudir, que também assina a dramaturgia ao lado de Letícia Conde, é inspirada no livro “O Cortiço”, clássico naturalista de Aluísio Azevedo. Mas, desta vez, o público conhece a história sob ponto de vista da Bertoleza, uma mulher negra que é tão importante para a construção do romance quanto o próprio João Romão, o protagonista original. Na trama, o oportunista Romão propõe uma sociedade à escrava Bertoleza, prometendo comprar a alforria dela. Eles começam uma vida juntos e constroem um pequeno patrimônio formado por um enorme cortiço, um armazém e uma pedreira.
Depois de acumular capital considerável, o ambicioso João Romão já não sabe como se tornar mais rico e poderoso. Envenenado pelo invejoso Botelho, ele decide se casar com Zulmira, a filha de Miranda, um negociante português recentemente agraciado com o título de barão. Mas, para isso, precisa se livrar da amante Bertoleza, que trabalha de sol a sol para lutar pelo patrimônio que eles construíram juntos.
Para a companhia, o grande desafio foi fazer com que uma narrativa do século 19 questionasse e problematizasse as relações criadas nos dias de hoje. Por isso, o projeto iniciado em 2015 foi ganhando novos contornos. “Quisemos investigar uma identidade brasileira, que vem da diáspora africana, e pensar em como isso nos afeta artisticamente. Assim, podemos criar novos signos para essa geração e dar uma voz para essa terra periférica”, conta Claudir.
No processo, o coletivo procurou a força da figura de Bertoleza em outras mulheres negras brasileiras negligenciadas pela História. Durante a encenação, o elenco relembra as histórias da vereadora Marielle Franco, militante da luta negra assassinada em março de 2018; da escritora Carolina Maria de Jesus, famosa pelo livro "Quarto de Despejo: Diário de Uma Favelada"; da jornalista e professora Antonieta de Barros, defensora da emancipação feminina que foi apagada dos livros de História; da escritora Maria Firmina dos Reis, considerada a primeira romancista brasileira; e da guerreira Dandara, que viveu e lutou no período colonial.
A protagonista do espetáculo é interpretada pela atriz Lu Campos. E o elenco ainda conta com Ali Baraúna, Taciana Bastos, Roma Oliveira, Cainã Naira, Larissa Noel, Palomaris, Edson Teles, Thiago Mota e Welton Santos e os stand-ins Lilian Rocha e Anderson Claudir. Completam a ficha técnica a direção musical de Eric Jorge, as músicas de Anderson Claudir, Andréia Manczyk, Eric Jorge e Juliana Manczyk, a preparação vocal e assistência de direção musical de Juliana Manczyk, a preparação de elenco de Eduardo Silva e a preparação corporal e coreografia de Taciana Bastos.
Relação profunda entre vida e obra
Para Lu Campos, interpretar Bertoleza tem um significado ainda mais profundo. No processo desde 2015, ela conta que vivenciou um chamado ancestral em 2017: suas antepassadas maternas deram-lhe a missão de quebrar o ciclo de opressão vivenciado por sua família desde os tempos de escravidão. “Espero que as mulheres pretas se sintam bem representadas na peça e a partir disso, busquem seus lugares de protagonismo nos variados âmbitos da vida”, conta.
Para a atriz, estar nesse processo contribui para a sua expansão de consciência. Em busca de mais respostas sobre sua ancestralidade, ela também cursou a pós-graduação em Matriz Africana pela Facibra/Casa de Cultura Fazenda Roseira. “As pessoas precisam perceber quão rica e diversificada é a matriz africana, por isso ela deve ser resgatada e valorizada. Afinal, a África é o ventre do mundo”, emociona-se.
Ficha técnica
Musical "Bertoleza"
Direção, adaptação e letras: Anderson Claudir
Dramaturgia final: Anderson Claudir e Letícia Conde
Direção musical: Eric Jorge
Músicas: Anderson Claudir, Andréia Manczyk, Eric Jorge e Juliana Manczyk
Preparação vocal e Assistência de direção musical: Juliana Manczyk
Preparador de elenco: Eduardo Silva
Preparação corporal e coreografia: Taciana Bastos
Cenografia e figurino: Dani Oliveira e Victor Paula
Assistente de cenografia e figurino: Gabriela Moreira
Visagista: Victor Paula
Diretor de palco: Léo Magrão
Designer e operação de Luz: Andressa Pacheco
Vídeos: Aline Almeida
Desenho de som: Labsom - Laboratório Sonoro
Operação de som e microfonação: Kleber Marques e Julia Mauro
Elenco: Lu Campos, Ali Baraúna, Taciana Bastos, Roma Oliveira, Cainã Naira, Larissa Noel, Palomaris, Edson Teles, Thiago Mota e Welton Santos.
Stand-ins: Lilian Rocha e Anderson Claudir
Direção de produção: Manczyk Produções
Serviço
"Bertoleza", da Gargarejo Cia Teatral
Temporada: 20 de fevereiro a 1º de março de 2026
Sextas e sábados 20h00; domingos às 19h00
Aos domingos há intérprete de libras e roda de conversa
Teatro Alfredo Mesquita - Av. Santos Dumont, 1770 - Santana, São Paulo
Ingresso: gratuito | Retirada na bilheteria com uma hora de antecedência
Duração: 90 minutos
Recomendação etária: 12 anos
Acessibilidade: o espaço possui acessibilidade para pessoas com mobilidade reduzida

























