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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

.: Crítica de teatro: "Adulto" faz da culpa o melhor espetáculo de todos os tempos


Com dramaturgia de Fran Ferraretto e direção de Lavínia Pannunzio, espetáculo transforma traição, saúde mental, dinheiro e relações afetivas em uma experiência teatral afiada, divertida e incômoda. Foto: Julieta Bacchin

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico cultural, especial para o portal Resenhando.com

Fran Ferraretto já contou em entrevista que uma das personagens dos sonhos dela é Blanche DuBois, de "Um Bonde Chamado Desejo". Em "Adulto" - espetáculo que volta para quatro apresentações gratuitas no Itaú Cultural, em São Paulo, dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, de quinta a sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00 - ela parece ter criado e escrito para ela mesma a própria Blanche, em uma personagem que lhe caiu como uma luva. 

Em comum com a personagem do clássico de Tennessee Williams está Sara, uma mulher cheia de contradições, desejos, fragilidades, força, culpa e uma capacidade desconcertante de continuar funcionando quando tudo ao redor já deveria ter desabado. Foi no Sesc Santos que assistimos à montagem, e fica difícil sair dela sem pensar nas próprias escolhas - inclusive naquelas em que grande parte do público prefere esquecer.

"Adulto" é daqueles espetáculos em que o espectador ri para, logo depois, perceber que está vendo graça em alguma coisa dolorosamente familiar. O texto de Fran Ferraretto tem essa habilidade, já que ela trata de assuntos espinhosos com leveza, inteligência e uma acidez que chega na hora certa. Não há necessidade de transformar os personagens em exemplos de comportamento ou em vilões de ocasião. Eles erram, mentem, desejam e se arrependem, mas também tentam justificar o injustificável. 

A história acompanha dois casais de amigos envolvidos em uma crise que começa a revelar problemas antigos. João (Iuri Saraiva) e Sara (Fran Ferraretto) enfrentam uma crise conjugal, enquanto a chegada de Vitor (Sidney Santiago Kuanza) e Paula (Jennifer Souza) provoca novas discussões sobre amor, fidelidade, monogamia, maternidade, machismo, dinheiro e saúde mental. A dramaturgia ainda brinca com a própria construção da peça teatral, criando, de maneira mais do que genial, uma segunda camada em que uma das personagens escreve a ficção que o público está assistindo.

Fran sabe escrever personagens que estão longe de qualquer perfeição. Por isso é impossível não reconhecer alguma coisa de si em pelo menos algum desses personagens. O elenco está muito afiado e os atores conseguem ir do humor à intensidade em questão de segundos, sem que nenhuma mudança pareça calculada. Cada personagem possui uma personalidade muito própria, e o quarteto de atores encontra diferentes caminhos para mostrar força, fragilidade, arrogância, medo, culpa e revanchismo.

Iuri Saraiva, o nosso Johnny Deep brasileiro devido à versatilidade com que encara cada papel, começa com uma leveza despretensiosa e vai ganhando contornos cada vez mais complexos. É uma atuação que cresce diante do público e chega a um estado de perturbação bastante palatável, porque reconhecível. É aquele sujeito que poderia estar sentado ao lado de qualquer um, tomando uma cerveja e contando uma história que certamente teria outra versão se fosse narrada pela pessoa envolvida.

Sidney Santiago Kuanza tem uma presença que eleva qualquer montagem. Aqui, encontra um material à altura do próprio talento e constrói um personagem que sabe incomodar sem precisar forçar a mão. Jennifer Souza, por sua vez, é uma força da natureza. Pequena fisicamente, fica gigantesca quando entra em cena. O carisma é imediato, mas ela não depende dele: existe domínio de ritmo, precisão e uma capacidade impressionante de sustentar as mudanças da personagem.

Fran Ferraretto completa esse quarteto com uma atuação que confirma uma coisa que já se percebia em trabalhos anteriores: ela entende profundamente as mulheres que escreve. Depois de abordar o relacionamento abusivo para crianças em "A Minicostureira" e discutir desigualdade social no espetáculo infantil "Rua", a dramaturga encontra em "Adulto" um terreno mais complexo para falar sobre relações entre pessoas que deveriam saber melhor o que estão fazendo.

Além disso, Fran merece ser cada vez mais reconhecida como dramaturga. Existe uma inteligência rara no modo dela abordar temas delicados sem tratar o público como criança. Ela sabe onde colocar o dedo na ferida e, principalmente, quando tirá-lo. O resultado é um texto ácido, divertido e emocionalmente desconfortável na medida certa. A direção de Lavínia Pannunzio mantém o espetáculo em movimento e impede que a discussão sobre relacionamentos vire uma sucessão de discursos. A montagem lembra, em alguns momentos, a tensão do cinema em "Closer: Perto Demais", a atmosfera do recente drama "O Convite" e até a maneira como "Flores de Aço" transforma relações pessoais em matéria dramática. São referências que ajudam a localizar a peça, mas "Adulto" tem a própria mensagem.

No fundo, é um espetáculo sobre culpa, seja essa a de trair, a de permanecer, a de desejar, a de mentir, a de não saber amar e a de não conseguir fazer diferente. Também é sobre a tentativa de reparar aquilo que foi quebrado. Porque crescer, em qualquer idade, dói, já que continuar crescendo é uma das poucas obrigações que ninguém consegue terceirizar. A imagem do casaco amarelo, presente do início ao fim do espetáculo, resume isso de maneira especialmente bonita. Depois de ser lavado, ele passa a carregar o cheiro dela. É um detalhe simples, mas poderoso: aquilo que carregava a marca de outra pessoa volta a pertencer a quem o veste. "Adulto" afirma e reafirma que algumas coisas se consertam depois de quebradas. Outras mudam de forma. E algumas, depois de lavadas, finalmente voltam a ter o nosso próprio perfume.


Ficha técnica
Espetáculo "Adulto"
Texto e idealização: Fran Ferraretto. Direção: Lavínia Pannunzio. Elenco: Fran Ferraretto, Iuri Saraiva, Sidney Santiago Kuanza e Jennifer Souza. Desenho de luz: Gabriele Souza. Trilha sonora e operação de som: Rafael Thomazini. Cenário: Mira Andrade. Figurino: Anne Cerutti. Design gráfico: Murilo Thaveira. Fotos: Julieta Bacchin. Visagismo: Louise Helène. Operação de luz: Carol Dourado. Técnico de montagem: Diego França. Assessoria de imprensa: Canal Aberto – Márcia Marques, Daniele Valério e Carina Bordalo. Estratégia digital e social media: Fernanda Pilotto. Direção de produção: Paula Malfatti. Coordenação de produção: FATTO Realizações. Gestão administrativa: Mava Produções. Assessoria jurídica: José Otávio V. de S. Ferreira S.I. Advocacia. Apoio: Oficina de Atores Nilton Travesso e Salão Pier A.


Serviço
Espetáculo "Adulto" no Itaú Cultural
Dias 17, 18, 19 e 20 de setembro, de quinta a sábado, às 20h00, e domingo, às 18h00.
Avenida Paulista, 149 - São Paulo.
Apresentações gratuitas.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

.: "O Tesoureiro" revisita o caso PC Farias pelo olhar de Xico Sá


Livro recupera a investigação que levou o jornalista ao paradeiro do tesoureiro de Fernando Collor e reconstitui bastidores de um dos episódios mais emblemáticos da política brasileira. Foto: Renato Parada / C
apa: Veridiana Scarpelli

Em "O Tesoureiro: O Esquema de Corrupção, a Fuga Espetacular e a Morte de PC Farias", lançado pela Editora Todavia, o escritor Xico Sá retorna aos anos 1990 para reconstruir uma história que reúne política, investigação jornalística, fuga internacional e um assassinato que permanece cercado de dúvidas. O livro combina perfil, reportagem e memória para revisitar os bastidores da cobertura que colocou o jornalista no encalço de Paulo César Farias, personagem central do escândalo que abalou o governo de Fernando Collor de Mello. A capa é de Veridiana Scarpelli.

Repórter de política da Folha de S.Paulo naquele período, Xico Sá foi o primeiro jornalista a revelar o paradeiro de PC Farias depois que o empresário teve a prisão decretada, em 1993. Acusado de envolvimento em um esquema de corrupção ligado ao governo Collor, PC fugiu do Brasil e passou por diferentes países até ser localizado em Bangkok, na Tailândia.

A trajetória da fuga parece saída de uma narrativa de espionagem. Com peruca e sem o característico bigode, PC deixou uma fazenda no interior de Pernambuco em um bimotor com destino a Buenos Aires. O percurso ainda incluiu passagens pela Bahia, Paraguai, Uruguai e Londres, até a chegada à Tailândia. Depois de cumprir pena em Alagoas, ele foi assassinado em junho de 1996, ao lado da namorada, Suzana Marcolino. O crime, ocorrido em uma casa de Guaxuma, em Maceió, jamais foi completamente esclarecido.

Mais de três décadas depois dos acontecimentos que marcaram a política brasileira, Xico Sá recupera as informações que cercaram aquela cobertura. Entre as lembranças estão fontes que forneciam pistas em boates de Maceió, telefonemas anônimos, ameaças e os métodos de uma época em que a apuração jornalística dependia de viagens, telefones e contatos presenciais. O livro também registra uma transformação profunda na profissão. No início dos anos 1990, a internet ainda dava os primeiros passos e os celulares estavam longe da realidade atual. A rotina dos repórteres era marcada pelo fechamento diário dos jornais impressos e por uma cobertura que exigia presença constante no local dos acontecimentos.

É nesse ambiente que Xico Sá resgata a própria trajetória profissional. O jornalista mistura memória e investigação para reconstituir os caminhos percorridos durante a cobertura de PC Farias, incluindo episódios vividos ao lado de personagens da cena cultural pernambucana, como Chico Science e Doctor Mabuse. Um dos momentos narrados no livro acontece em junho de 1993. Xico estava em Recife, em um raro período de folga, quando uma notícia transmitida pelo rádio anunciou que a Justiça havia decretado a prisão preventiva de PC Farias por sonegação fiscal. A pausa acabou antes mesmo de começar. Por determinação da redação, o jornalista precisou retomar imediatamente a apuração e voltar a Maceió para acompanhar os passos do empresário.

A passagem também funciona como retrato de uma prática jornalística que dependia de telefones enormes, deslocamentos e uma rede de fontes construída no contato direto. O chamado "tijolão", celular cedido pela Folha, servia basicamente para fazer e receber ligações. A velocidade da informação era outra, e o fechamento de cada edição estabelecia o ritmo da investigação. Ao recuperar essas histórias, Xico Sá aproxima o passado dos dilemas do presente.

O resultado é um livro que acompanha a ascensão e a queda de uma das figuras mais controversas da Nova República enquanto também registra a formação de um jornalista diante de uma cobertura que atravessou política, corrupção, perseguições e mistérios. A narrativa preserva ainda a marca literária do autor, que se inspira em referências como Hunter S. Thompson e incorpora elementos de literatura policial à investigação. Entre as figuras que povoam a história está a misteriosa informante conhecida pelo codinome Brigitte Monfort, nome emprestado de uma personagem de romances populares. Compre o livro "O Tesoureiro", escrito por Xico Sá, neste link.


Sobre o autor
Xico Sá nasceu no Crato, no Ceará, em 1962. Iniciou a carreira jornalística no Recife e trabalhou durante anos como repórter investigativo. É autor de livros de contos e crônicas, apresentador do ICL Notícias e colunista do Diário do Nordeste. Compre os livros de Xico Sá neste link.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

.: Companhia das Rosas estreia "Esse-Outro", espetáculo para bebês


A Companhia das Rosas estreia nova obra teatral para bebês e primeiras infâncias, centrada na construção dos primeiros vínculos, desde a gestação até as descobertas iniciais do mundo exterior. Foto: Em Cena Produtora

A Companhia das Rosas investiga os primeiros vínculos entre o eu e o outro por meio de uma narrativa não verbal no espetáculo "Esse-Outro". A montagem é uma criação de teatro para bebês que dialoga também com diversos públicos. Trata-se de um teatro que comunica sem palavras,  com trilha sonora original e um cenário de bambus que utiliza recursos acrobáticos e de jogo cênico da dupla de atrizes-circenses de Erica Stoppel e Luara Bolandini, sob a direção de Clarice Cardell. O espetáculo estreia em São Paulo nos dias 14, 15 e 16 de agosto - sexta-feira, às 10h00 e 15h00; sábado e domingo, às 11h00 - no Sesc 24 de maio com sessões gratuitas. E nos dias 22 e 23, 29 e 30 de agosto - sábados, às 15h00, e domingos, às 11h00 - no espaço Chiquita de Teatro Para Bebês.

Na trama, dois seres que chegam ao mundo se relacionam entre si e com o espaço, se movem com fluidez acrobática e constroem uma narrativa não verbal por meio da linguagem gestual, sonora e visual. Elas são duas personagens que se aproximam, se espelham, se estranham e brincam, revelando as delicadas transformações dos vínculos humanos nos primeiros anos de vida. A obra investiga, de forma poética e sensível, os primeiros encontros entre o eu e o outro: da experiência de fusão e acolhimento no ventre à descoberta do mundo exterior e dos primeiros movimentos de separação afetiva. 

“A questão do outro, dessa construção do processo identitário, que sempre passa por esse espelhamento do outro, foi um dos caminhos da pesquisa. É um espetáculo plástico. Ele é feito para os bebês, mas também para os adultos que os acompanham. A história fala basicamente desse processo de encontros e desencontros, que é a própria vida”, ressalta a diretora Clarice Cardell. O cenário é uma estrutura-casa em forma de pirâmide dupla de bambu, que se transforma continuamente ao longo da peça, criando paisagens de abrigo, passagem e descoberta. Em constante transformação, o espaço cênico traduz a passagem do interior para o exterior, refletindo o processo de descoberta, apropriação e recriação do mundo ao redor. Os figurinos representam dois seres em formação, sem definições de gênero ou identidade fixa. 

A trilha sonora original reúne percussões corporais, marimba, cello, violão, timbres produzidos com o bambu e arranjos vocais que ajudam a criar uma experiência imersiva que dialoga diretamente com a escuta e a imaginação dos bebês. A música constrói atmosferas, acompanha jogos e emoções das personagens e joga com a ideia de repetição e variação com um tema musical central chamado Esse- Outro. Este tema evoca a relação entre mãe e filho, reaparecendo ao longo da narrativa em momentos chave de significados. A narrativa se constrói junto às informações que a música traz, os silêncios e as expressões sonoras das personagens. Ao final do espetáculo, o público é convidado a entrar no espaço cênico e interagir com os objetos de bambu, prolongando a experiência estética por meio do toque, da exploração e da brincadeira compartilhada.

O encontro entre a Companhia das Rosas e a diretora Clarice Cardell consolidou afinidades que já vinham sendo desenvolvidas pelas artistas em suas pesquisas sobre a primeira infância. “Sempre buscamos uma comunicação profunda com os bebês, baseada na presença e na verdade do encontro. Compartilhamos da ideia de que os bebês nascem com capacidades expandidas de percepção do mundo e são capazes de se conectar com universos poéticos de modo muito profundo. Foi muito libertador perceber que compartilhamos dessas e outras ideias sobre a magnitude do ser humano na infância, enfatiza Erica Stoppel.

A atriz Luara Bolandini também comentou o resultado dessa conexão. "Na criação de Esse-Outro, fomos em busca de sentimentos próprios e muito verdadeiros. No encontro com a Clarice potencializamos nossa forma de comunicar sem palavras e explorar a dramaticidade no gesto, seja ele teatral ou acrobático. Apostamos em uma linguagem que prima por uma desacelaração do tempo e convida convida bebês e adultos à experiência sensível de contemplação compartilhada”.

Com mais de duas décadas de pesquisa voltada à arte para a primeira infância, Clarice Cardell (Cia Primeiro Olhar) iniciou essa trajetória na Espanha, onde fundou a companhia La Casa Incierta, referência internacional no teatro para bebês e responsável pela criação de 11 espetáculos apresentados em diversos países. De volta ao Brasil, passou a dirigir o Festival Primeiro Olhar e fundou a BebeLume, produtora dedicada ao desenvolvimento de filmes e conteúdos artísticos para a primeira infância, ampliando sua atuação para o audiovisual e a formação de educadores. 

“Fazer teatro para bebês é, antes de tudo, um ato político. É reivindicar o ser humano em outra dimensão, longe desse olhar adultocêntrico que acredita que a criança é uma página em branco. Temos muito mais a aprender com as crianças do que algo a ensinar a elas. Acredito que a arte para a primeira infância é, antes de tudo, um reconhecimento da potência dos bebês como espectadores”, finaliza a diretora.  A Companhia das Rosas foi criada em 2017, a partir de uma pesquisa de Erica Stoppel e Luara Bolandini, centrada na relação entre a arte circense, o teatro de bonecos e a necessidade de dialogar com as crianças e dar voz às questões da infância.  

“Esse-Outro” é um espetáculo de teatro para bebés que traz duas personagens acrobáticas  que atravessam experiências de vínculo, descoberta e separação em um espaço cênico em constante transformação. O espetáculo narra, sem palavras, de forma poética e sensível, os primeiros encontros entre o eu e o outro: da experiência de fusão e acolhimento no ventre aos primeiros movimentos de separação afetiva e a descoberta do mundo exterior.


Ficha técnica
Peça teatral “Esse-Outro” 
Idealização: Companhia das Rosas - Erica Stoppel e Luara Bolandini. Direção: Clarice Cardell (Cia Primeiro Olhar). Assistência de direção: Vera Abud (Cia Pelo Cano / Cia As Graças).. Orientação de arte e corpo bambu: Poema Mühlenberg (Cia Nós no Bambu). Criação com bambus: Luis Calça Criação de luz: Marisa Bentivegna. Figurino: Chris Galvan. Trilha sonora original: Vinícius Politano. Assistente de Produção: Beatriz Alves Direção de produção: Rita Massini (Margarida Agência de Cultura). Assessoria de Imprensa: Adriana Balsanelli e Renato Fernandes. 


Serviço
Peça teatral “Esse-Outro” 
Sesc 24 de maio (Local: Tecnologias e Artes - ETA | 4º andar)
R. 24 de Maio, 109 - República, São Paulo - SP, 01041-001 
Dias 14, 15 e 16 de agosto.  Sexta-feira, dia 14, às 10h00 e 15h00. Sábado e domingo, dias 15 e 16, às 11h00. Grátis.

Espaço Chiquita 
Rua Cel. Domingos Ramos, 54 Vl. Leopoldina/SP 
De 22 a 30 de agosto, sábados, às 15h00, e domingos, às 11h00.
Preço: RS 40,00 inteira R$ 20,00 meia
Classificação: livre. Duração:45 minutos
O trabalho foi pensado para sensibilizar bebês (0-3 anos) e seus acompanhantes por meio de estímulos táteis, sonoros e visuais adequados a essa faixa etária. 

sábado, 8 de agosto de 2026

“Diva Futura” resgata império erótico e escancara o preço da fama nos anos 80


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.


“Diva Futura” chega à plataforma de streaming Reserva Imovision e encara um capítulo incômodo e fascinante da cultura pop italiana. Dirigido e roteirizado por Giulia Louise Steigerwalt, o longa-metragem recria os anos 1980 e 1990 a partir da figura de Riccardo Schicchi (Pietro Castellitto), fundador da agência que ajudou a transformar o erotismo em espetáculo midiático e produto de massa. Inspirado no livro “Non Dite Alla Mamma Che Faccio la Segretaria”, de Debora Attanasio, o filme acompanha os bastidores da ascensão de nomes como Ilona Staller, a Cicciolina (Lidija Kordic), e Moana Pozzi (Denise Capezza), personagens que atravessaram a fronteira entre entretenimento adulto e política institucional - Cicciolina chegou ao Parlamento italiano, enquanto Pozzi ensaiou uma candidatura à prefeitura de Roma. A narrativa se ancora no olhar de Debora (Barbara Ronchi), secretária da agência, que observa, de dentro, a engrenagem afetiva e profissional desse grupo improvável.

Steigerwalt, que já havia chamado atenção com “Settembre”, mantém aqui o interesse por personagens femininas em conflito com estruturas sociais rígidas. Ao revisitar a trajetória da Diva Futura, a diretora não se limita ao escândalo: investiga vínculos, disputas, fragilidades e o preço cobrado pela exposição pública. A produção teve estreia mundial em competição no Festival de Veneza 2024, reforçando o peso histórico do material que revisita.

A arte presente no escritório de Schicchi reproduz traços do quadrinista Milo Manara, referência italiana no erotismo ilustrado, e o título do filme só aparece nos créditos finais, gesto que desloca o olhar do espectador para os personagens antes da marca. Com fotografia de Vladan Radovic e trilha de Michele Braga, “Diva Futura” se constrói como um retrato de ambição, desejo e contradição, evitando simplificações sobre um período em que a mídia ampliou vozes e, ao mesmo tempo, moldou destinos.


Ficha técnica
“Diva Futura”
Gênero: drama. Duração: 125 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 2024. Data de lançamento: 16 de julho de 2026. Idioma: italiano. Direção: Giulia Louise Steigerwalt. Roteiro: Giulia Louise Steigerwalt e Debora Attanasio. Elenco: Pietro Castellitto, Denise Capezza, Barbara Ronchi, Lidija Kordic, Tesa Litvan. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.


Assine a Reserva Imovision, a maior plataforma de filmes independentes da América Latina
A equipe do portal Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Você pode assinar a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

.: "Elogio da Loucura" chega à Caixa Cultural São Paulo: apresentações grátis


Montagem inspirada na obra de Erasmo de Rotterdam será apresentada de 30 de julho a 9 de agosto e contará com oficina ministrada pelo diretor Eduardo Figueiredo. Foto: Conceito e Cena
 

A Caixa Cultural São Paulo recebe, de 30 de julho a 9 de agosto, "Elogio da Loucura", protagonizado por Leona Cavalli e dirigido por Eduardo Figueiredo, com entrada gratuita. As apresentações serão realizadas de quinta a sábado, às 19h00, e aos domingos, às 18h00. A programação inclui ainda a oficina Dramaturgia da Imagem, ministrada pelo diretor no dia 1º de agosto. A montagem é baseada na obra "O Elogio da Loucura", de Erasmo de Rotterdam, adaptada para o teatro por Leona Cavalli e Eduardo Figueiredo. O texto apresenta a personagem Loucura conduzindo reflexões sobre aspectos da sociedade, das relações de poder e da condição humana.

No palco, Leona Cavalli interpreta a personagem central da narrativa. A encenação conta ainda com música executada ao vivo por Matheus Vieira, no violoncelo, e Cika, na percussão. A oficina "Dramaturgia da Imagem" explora a importância da concepção estética na encenação teatral a partir dos espetáculos "Frida y Diego" e "Um Beijo em Franz Kafka". A atividade reúne referências da fotografia, das artes visuais e das artes cênicas, incluindo trabalhos de Tim Walker, Sebastião Salgado, David LaChapelle, Jan Saudek, Tadeusz Kantor e Pina Bausch.


Sobre Leona Cavalli
Leona Cavalli atua no teatro, cinema e televisão. Entre seus trabalhos estão montagens como "Hamlet", "Toda Nudez Será Castigada", "Um Bonde Chamado Desejo", "Frida Y Diego" e "Gatão de Meia-Idade". No audiovisual, participou de produções como "Um Céu de Estrelas", "Amarelo Manga", "Carandiru", "Olga" e de produções televisivas exibidas nacionalmente.


Sobre Eduardo Figueiredo:
Eduardo Figueiredo é diretor e produtor teatral, mestre em teatro pela Universidade de São Paulo (USP). Atua como sócio da Manhas & Manias Projetos Culturais e desenvolveu projetos como Mulheres Alteradas, Frida Y Diego, Gatão de Meia-Idade, Um Beijo em Franz Kafka e O Veneno do Teatro.

 
Serviço
Espetáculo "Elogio da Loucura"
Local: Caixa Cultural São Paulo – Praça da Sé, 111, Centro, São Paulo (SP)
Período: 30 de julho a 9 de agosto de 2026
Horários: quinta a sábado, às 19h ; domingo, às 18h
Duração: 80 minutos
Classificação indicativa: 16 anos
Entrada: gratuita, com distribuição de ingressos uma hora antes de cada apresentação, limitada a um ingresso por pessoa

Oficina "Dramaturgia da Imagem"
Data: 1º de agosto de 2026 - sábado
Das 15h00 às 17h00
Duração: 120 minutos
Local: Sala de Oficinas da Caixa Cultural São Paulo
Vagas: 15 participantes, com possibilidade de lista de espera
Classificação indicativa: 18 anos
Inscrições: gratuitas na página do evento no site da CAIXA Cultural São Paulo
Acessibilidade: acesso para pessoas com deficiência
Informações: (11) 3321-4400

segunda-feira, 27 de julho de 2026

.: "Ulisses", na pioneira tradução de Antônio Houaiss, é relançado


Na véspera do Bloomsday, como é chamado o dia em que se passa a narrativa de "Ulisses", a editora Civilização Brasileira manda para as livrarias o romance monumental de James Joyce, na célebre e pioneira tradução de Antônio Houaiss, recuperando o projeto gráfico original do icônico designer Eugênio Hirsch, com texto de orelha de Augusto de Campos. A edição conta ainda com preparação de texto que recupera a versão aprovada por Houaiss, além de introdução e cronologia.

Joyce foi um dos maiores escritores do século XX, síntese do modernismo literário e de novas concepções de literatura. Considerada a obra-prima do escritor irlandês, "Ulisses" é uma reimaginação moderna da estrutura da "Odisseia" de Homero. O romance "Ulisses" acompanha algumas horas da vida do corretor de anúncios Leopold Bloom, ao longo do dia 16 de junho de 1904 e da madrugada seguinte: ele sai de casa pela manhã e retorna à noite na companhia de Stephen Dedalus. Em casa, sua esposa, a cantora Molly Bloom, já está deitada – após ter passado a tarde com o amante. Publicado em 1922, o livro foi divisor de águas na literatura. Por sua grande inovação, horrorizou e encantou leitores e críticos. Para T. S. Eliot“Joyce está seguindo um método que outros devem buscar depois dele”.

O intelectual Antônio Houaiss encarou o desafio de traduzir "Ulisses" para o português brasileiro em menos de um ano. O trabalho exigia não apenas conhecimento técnico, mas grande sensibilidade para as possibilidades do idioma. Sua tradução inaugurou no país a tradição de leitura e estudo de Ulisses, mantendo-se como referência quase cinquenta anos depois. Vitor Alevato do Amaral, um dos maiores especialistas em James Joyce no Brasil, estabeleceu o texto desta edição e organizou conteúdo para contextualizar o romance e sua segunda edição, revista por Antônio Houaiss e editada por Ênio Silveira. Compre o livro "Ulisses", de James Joyce, neste link.


O que disseram sobre o livro
“É indispensável conhecer essa obra para consciencializar suas conquistas e poder seguir à frente, no caminho do novo. Um escritor atual que não tenha lido Joyce, é mais ou menos como um físico que ignore Einstein ou um sociólogo que não tenha tomado conhecimento de Marx.” Augusto de Campos


Sobre o autor
James Joyce (Irlanda, 1882 – Suíça, 1941) é amplamente considerado um dos maiores escritores do século XX. Embora o romancista tenha vivido boa parte de sua vida expatriado de sua terra natal, sua identidade irlandesa foi essencial para a construção da ambientação e da temática de sua obra. Dos seus maiores títulos, a odisseia moderna Ulisses é publicada pela Editora Civilização Brasileira. Compre os livros de James Joyce neste link.

quinta-feira, 16 de julho de 2026

.: A nova temporada de "Autobiografia do Vermelho", com Bianca Comparato


Com direção de Daniela Thomas, espetáculo é inspirado no romance de Anne Carson e cria um retrato profundamente comovente de um jovem que se reconcilia com o fantástico acidente de ser quem é. Foto: Matheus José Maria 


Inspirado no romance homônimo de Anne Carson, o espetáculo "Autobiografia do Vermelho", estreou em fevereiro no Sesc Avenida Paulista. E, agora, a peça estrelada pela atriz Bianca Comparato e dirigida por Daniela Thomas, ganha uma nova temporada no Teatro YouTube, dentro da Galeria Magalu no Conjunto Nacional, de 14 de agosto a 27 de setembro, com sessões às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h. A peça é, ao mesmo tempo, um romance e um poema, uma recriação não convencional de um antigo mito grego e um romance de formação totalmente original ambientada no presente, no midwest estadunidense.

Com dramaturgia de Gabi Costa, Daniela Thomas e Bianca Comparato, a encenação conta ainda com a direção de movimento da artista e coreógrafa Malu Avelar e cenário de Daniela Thomas. Lello Bezerra assina a direção musical e a trilha sonora original, que é executada ao vivo pelo próprio músico. A produção é da South. “Encontre o que você ama e deixe isso te matar. Quem disse isso foi Bukowski. E, talvez, seja o que mais me atraiu a fazer a peça. Me lanço nesse abismo de 7 personagens, sem medo de errar. Aprendi com a Carson a errar deliberadamente, ela erra deliberadamente, inventa, engana. Este projeto é para mim maravilhosamente perturbador”, revela Bianca Comparato.

“Já na primeira leitura de Autobiografia do Vermelho, em preparação para dirigir Bianca no audiolivro, fui transportada para o ambiente no qual iniciei minha trajetória no teatro há quase 50 anos: o teatro experimental estadunidense do final dos anos 70, início dos 80, especificamente em Nova York, onde morava então. Lá assisti ou convivi ou trabalhei com artistas de grupos como Mabou Mines, Wooster Group, Living Theater, em teatros como o La Mama, Theater For the New City, Public Theater, e com criadores como Sam Shepard, Laurie Anderson, Richard Foreman, Jeff Weiss, Spalding Grey e por aí vai. Uma potência inventiva de grande impacto, que repercutiu mundo afora, balizou minha imaginação e a quem devo minha formação como artista do teatro”, conta a diretora Daniela Thomas.

“Passando as páginas do livro, fui descobrindo que o monstro alado Gerião (aquele morto pelo herói Hercules, no seu décimo trabalho, no mito clássico) que eu antecipava habitar a paisagem grega era, nessa versão, um jovem americano esquisito e solitário, vivendo na exata geografia dos meus heróis experimentais de Nova York.(...) Essa descoberta fez com que eu abraçasse a ideia de transformar o livro em um espetáculo que fosse tributário dessa cultura de teatro que me formou e por quem tenho uma admiração imensa”, conclui Thomas. Compre os livros de Anne Carson neste link.


Sinopse de "Autobiografia do Vermelho"
Gerião é o personagem principal da Gerioneida, um poema lírico narrativo escrito por volta de 650 A.C pelo poeta grego Estesícoro, cujos poucos fragmentos foram encontrados somente em 1967, no Egito. A peça conta a sua história misturando fragmentos da peça original grega com criações de Anne Carson e intervenções de Bianca e de Daniela. Gerião, um menino que também é um monstro vermelho alado, revela o terreno vulcânico de sua alma frágil e atormentada em uma autobiografia que ele começa a escrever aos cinco anos de idade. 

À medida em que cresce, Gerião escapa de seu irmão abusivo e de sua mãe afetuosa, mas ineficaz, encontrando consolo na construção da sua autobiografia e nos braços de um jovem chamado Hércules, um andarilho que abandona Gerião no auge da paixão. Anos depois, quando Hércules reaparece, Gerião confronta novamente a dor de seu desejo e embarca em uma jornada por terrenos vulcânicos. A paixão obsessiva por Hércules leva Gerião até seu destino inevitável. Ora excêntrica, ora assombrosa, erudita e acessível, ricamente complexa e enganosamente simples, Autobiografia do Vermelho é um retrato profundamente comovente de um jovem  que se reconcilia com o fantástico acidente de ser quem é. Compre o livro "Autobiografia do Vermelho", de Anne Carson, neste link."


Mais sobre o livro e peça
A obra de Anne Carson, Autobiografia do vermelho, foi destaque no New York Times como “Livro notável do ano” e  finalista do National Book Critics Circle Award. Anne Carson também foi a primeira mulher a ganhar o TS Eliot Prize.

O que acontece com a mitologia clássica, que ainda ecoa no mundo contemporâneo nas formas atuais de pensar, viver e sentir, quando colocamos no centro da narrativa o que antes era periférico a ela? É essa pergunta que a autora nos faz em "Autobiografia do Vermelho". Se assim como Carson fez valer em sua maneira de contar essa história o monstro, é a partir de uma ética da monstruosidade - que faz conviver tudo que é estranho entre si - que percorreu o processo de criação do espetáculo. Tudo aquilo que está à margem, que não é aceito pelo mainstream, os queers, os “diferentes”, os que estão fora do padrão heteronormativo.

A obra é uma reinterpretação contemporânea do mito de Gerião, o monstro vermelho da mitologia grega, apresentando-o como um jovem sensível e introspectivo. Desde os cinco anos, Gerião enfrenta desafios relacionados à sua aparência monstruosa, com asas vermelhas, que é apresentado de maneira mais humana e introspectiva do que o mito original. Ele busca autocompreensão e amor, especialmente através de sua relação com Hércules.

A história mistura elementos de ficção e poesia, explorando questões de identidade, amor, desejo, e a busca pela aceitação. Gerião é retratado como um jovem isolado, que se vê marcado tanto por sua aparência quanto por seu destino trágico. Ele tem uma relação complexa com Hércules, o herói que deve matá-lo, mas a história se concentra também no desenvolvimento emocional e psicológico de Gerião.

Hércules, que inicialmente é visto como o herói que o mataria, passa também por uma transformação emocional. A morte de Gerião no contexto da obra não é apenas física, mas também simbólica, representando um encontro com o próprio destino e a aceitação de seu ser. Sem se ater a um fechamento “clássico” de um romance, mas mantendo uma reflexão sobre a morte, identidade e a verdade interna. A obra é profunda e aberta a múltiplas interpretações, convidando o espectador a questionar as fronteiras entre mito, realidade e a construção de futuros possíveis.

O espetáculo expressa a pluralidade e diversidade em sua composição de artistas e técnicos da ficha técnica. A equipe é formada majoritariamente por mulheres e também é válido reafirmar que os lugares de protagonismo do projeto são ocupados por mulheres ou pessoas não-brancas e LGBTQI+.

Ficha técnica
Espetáculo "Autobiografia do Vermelho"
Direção: Daniela Thomas
Elenco: Bianca Comparato
Direção de produção: Fabiana Comparato
Dramaturgia: Gabi Costa, Bianca Comparato e Daniela Thomas
Cenografia: Daniela Thomas
Direção musical, composição e execução: Lello Bezerra
Direção de movimento e preparação corporal: Malu Avelar
Desenho de luz e operação: Sarah Salgado
Desenho de projeções: Henrique Martins
Figurino: Verônica Julian
Direção vocal: Leila Mendes
Visagismo: Walter Leal
Contrarregra: Luiz Carlos Ferreira
Operação de vídeo: Laura de Lago
Operação de som: Gabriel Edé
Operação de luz: Nicolas Manfredini
Assistente de produção: Gabriel Cillo
Coordenação executiva e financeira: Camilia Cillo
Designer gráfico: Henrique Martins
Fotos: João Kopv
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Produção: South
Produção associada: 3C Produções
Produção associada: Ipa films e Flagcx
Apoio: Grupo Map
Produtores Executivos SOUTH: Bianca Comparato, Roberto Martini e Yana Chang
Equipe South: Pietra Veiga e Julia Faria
Assessoria: MCS Law
Produtora associada: Mariana Beltrão
Produtor executivo: Arlindo Hartz
Produtora de figurino: Lia Damasceno
Produção: Corpo Rastreado
Produtora: Gabi Gonçalves
Colaboração na direção de movimento: Renata Melo
Assistência: Mariana Faloppa
Equipe Corpo Rastreado: Gisely Alves, Tamara Andrade, Graciane Diniz
Apoio: Editora 34, Paradigm Agency, MAP, CASA LÍQUIDA, PMX, Supersônica.

Serviço
Espetáculo "Autobiografia do Vermelho"
Elenco: Bianca Comparato. Direção: Daniela Thomas. Baseado no romance em verso de Anne Carson
Temporada: 14 de agosto a 27 de setembro de 2026
Às sextas e aos sábados, às 20h, e aos domingos, às 18h
Teatro YouTube - Av. Paulista, 2073 - Bela Vista, São Paulo
Ingressos: R$ 120,00  (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada)
Venda online em https://www.eventim.com.br/artist/autobiografia-do-vermelho/
Bilheteria: Avenida Paulista, 2073 (3º andar), no bairro da Bela Vista, em São Paulo - SP
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Duração: 90 minutos 
Classificação indicativa: 16 anos
Capacidade: 160 lugares


terça-feira, 14 de julho de 2026

.: Angel Ferreira estreia o sucesso "Sidarta" em São Paulo no Teatro Estúdio


Criada ao longo de 5 anos, a peça é inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse e narra a jornada interna do protagonista em busca de si mesmo. Espetáculo comemora 2 anos em cartaz e chega, pela primeira vez, na capital paulista. Foto: Claudio Pitanga

A vida e a iluminação de Buda são o ponto de partida para a criação do solo "Sidarta", do ator e diretor Angel Ferreira, que celebra dois anos em cartaz com este trabalho. O espetáculo estreia em São Paulo no Teatro Estúdio, de 8 a 31 de agosto, com apresentações aos sábados e domingos, às 17h00, com sessões extras às segundas, 20h00.

A peça, ambientada na Índia no período de vida do Buda histórico, é livremente inspirada no livro homônimo de Hermann Hesse, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, que narra, de forma ficcional, uma viagem que o próprio autor realizou em sua juventude, abarcando temas de valor existencial e mergulhos na ambiguidade entre os pólos sagrado-profano, sucesso-fracasso, prazer-privação, solidão-pertencimento.

Nesta história, Sidarta, inteligente filho de Brâmane, a deixar a casa dos pais. Seguido por seu melhor amigo, Govinda, ambos aderem aos samanas, vertente espiritual que busca a iluminação através da mortificação do corpo. Em seguida, desconfiado e desiludido com as doutrinas, Sidarta conhece o próprio Buda e dele também se afasta, determinado a encontrar seu próprio caminho ou a morte. 

Estabelece relação com uma cortesã da cidade, torna-se comerciante, embrenha-se no vício e no materialismo, para novamente deixar tudo para trás e retornar à simplicidade, junto a um barqueiro que se revela um mestre e amigo. Continuamente, encontramos ao longo do texto dramaturgias de aprisionamento e libertação, que descortinam suas ilusões e aprofundam sua subjetividade.

Sobre essa jornada interior em busca da essência,  Angel Ferreira comenta: “Quando a gente põe em perspectiva o nosso tempo de vida, a efemeridade de tudo, não faz sentido basear a vida numa busca distraída por sucesso, bens, poder. Gosto do conforto, e não sou um asceta, como os samanas da floresta que o Sidarta encontra. Se libertar do materialismo pra mim não é sobre abdicar e renunciar a vida material, ao mundo dos objetos e da relação com as coisas, pra mim é sobre aprender a brincar com elas, mas sem ficar obcecado, sem se viciar nesse jogo. Então, a peça me ensina a pensar e escolher quais hábitos me centram e me trazem calma. Como o trabalho é bastante físico, ele me convida a ter uma vida amorosamente disciplinada, com alongamento, fortalecimento, meditação - e se eu não faço eu me machuco em cena”.

Angel também destaca a relação da peça com temas atuais e urgentes, principalmente os ambientais. “Quando eu penso que nós vivemos num mundo em colapso climático, no qual o negacionismo encontra força justamente no fato de que deixamos de conviver com as árvores, os bichos, as águas limpas, fazer uma peça que conta a história de uma pessoa que encontra a paz se dedicando a ouvir a voz do rio, me encanta! Isso pra mim é urgente de ser trabalhado nas artes. Uma nova compreensão da centralidade da natureza nas nossas vidas”, acrescenta.

Preparado ao longo de cinco anos, o espetáculo narra a jornada do protagonista em busca de si mesmo, em uma apresentação que mescla narrador, personagens e ator a partir de uma montagem minimalista, com colaboração na direção de Beth Martins (Intrépida Trupe) e Renato Livera (Shell 2026 de Melhor Ator). Livera também é responsável pela iluminação da peça, ao lado de João Gioia, com quem foi indicado ao Prêmio Shell 2025 na categoria Iluminação.

“‘Sidarta’ é um desses projetos que te chamam para algo a mais do que a criatividade artística puramente dita. É um chamado também espiritual. Foi assim que recebi o convite do Angel Ferreira para estar junto. E como a espiritualidade está ligada a um movimento interno de conexão que vai para além de nós mesmos, entendemos que o resultado que tivemos com a iluminação seguiu o princípio desse sopro, dessa troca, da escuta e da generosidade. É uma luz muito simples, mas ela habita e dá lugar à imensidão da história contada. Isso foi reconhecido e resultou na indicação, a qual agradeço imensamente ao Angel, ao João Gioia e à Thatyane Calandrini. Sem esse coletivo inspirado e inspirador, nada disso teria acontecido”, comenta Livera.


Ficha técnica
Espetáculo "Sidarta"
Direção, adaptação e atuação: Angel Ferreira
Direção de produção: Marcela Casarin
Diretores colaboradores: Beth Martins e Renato Livera
Diretora assistente: Thatyane Calandrini
Interlocução dramatúrgica: Walter Daguerre
Iluminação: João Gioia e Renato Livera
Colaboração artística: Lavinia Bizzotto
Preparação em parateatro: João Maia P
Colaboração em movimento: Alexandre Maia
Fotografia: Philipp Lavra e Claudio Pitanga
Produção: Mãe Joana Produções
Agradecimentos: Felipe Habib, Nina Harper e Ricardo Cabral


Sinopse de "Sidarta"
Nesta história, acompanhamos Sidarta, inteligente filho de Brâmane, a deixar a casa dos pais. Seguido por seu melhor amigo, Govinda, ambos aderem aos samanas, vertente espiritual que busca a iluminação através da mortificação do corpo. Em seguida, desconfiado e desiludido com as doutrinas, Sidarta conhece o próprio Buda e dele também se afasta, determinado a encontrar seu próprio caminho ou a morte. Estabelece relação com uma cortesã da cidade, torna-se comerciante, embrenha-se no vício e no materialismo, para novamente deixar tudo para trás e retornar à simplicidade, junto a um barqueiro que se revela um mestre e amigo. Continuamente, encontramos ao longo do texto dramaturgias de aprisionamento e libertação, que descortinam suas ilusões e aprofundam sua subjetividade.


Serviço
Espetáculo "Sidarta", com Angel Ferreira
Temporada: 8 a 31 de agosto de 2026
Sábados e domingos, às 17h00. Segundas, às 20h00
Teatro Estúdio - R. Conselheiro Nébias, 891 - Campos Elíseos
Ingressos: R$ 100 (inteira) e R$ 50 (meia-entrada)
Bilheteria: segunda a sábado, a partir das 17h00; e aos domingos, a partir das 15h00
Serviço de Vallet com Estacionamento no local (a partir de 1h30 antes do início do espetáculo).
Duração: 120 minutos
Capacidade: 112 lugares
Classificação: 18 anos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida
Não é permitida a entrada após o início do espetáculo. 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

.: Hugo Possolo comemora 45 anos de carreira com espetáculo solo inédito


Em "Idiota Convicto", Hugo Possolo zomba da normalização crescente da mediocridade que vem tornando a sociedade cada vez mais embrutecida. Foto: Luiz Doroneto

Para comemorar seus 45 anos de carreira e 35 do grupo Parlapatões, o palhaço, ator, dramaturgo, diretor, cenógrafo, figurinista e aderecista Hugo Possolo apresenta o espetáculo solo inédito “Idiota Convicto”, todos os sábados até dia 29 de agosto, às 22h00, no Espaço Parlapatões, em São Paulo. A peça nasce das suas inquietações e desejo de abordar o fato de que a sociedade contemporânea está cada vez “mais intolerante, tensa e agressiva, mas que a solidariedade ainda é possível!”. A montagem reúne textos exclusivos de renomados dramaturgos e dramaturgas como Luís Alberto de Abreu, Ana Saggese, Maíra Dvorek, Michelle Ferreira e Sérgio Roveri, e fica em cartaz até o dia 29 de agosto, sempre aos sábados, exceto dia 01/08, sem sessão.

Possolo, hoje com 63 anos, iniciou sua carreira em teatro profissional ainda na adolescência, em 1981. Com mais de 100 peças encenadas, ele segue voltado à pesquisa de teatro popular, comicidade e artes circenses para levar ao público um trabalho artístico divertido e que gere reflexões. O premiado palhaço - como faz questão de ser chamado - se consolidou em 1991, quando fundou os Parlapatões, que neste ano celebra 35 anos de trajetória, com 71 espetáculos produzidos. O grupo tem como característica a palhaçaria, o teatro de rua e popular, sempre buscando inovar a linguagem e ampliar o alcance de público. Já o Espaço Parlapatões, na Praça Franklin Roosevelt, no Consolação, comemora também 20 anos de atividades. 

Em sua trajetória multifacetada, Possolo escreveu diversos textos infantis, dirigiu óperas, atuou em televisão e cinema, colaborou para jornais e revistas, foi gestor público e curador de concertos, balés e espetáculos das mais variadas linguagens. É um dos fundadores da SP Escola de Teatro. “Idiota Convicto” é o terceiro espetáculo solo do ator, que realizou “Prego na Testa” (2005, indicado ao Prêmio Shell de melhor ator), com texto de Eric Bogosian e direção de Aimar Labaki, com enorme sucesso e que seguiu no repertório do grupo por 20 anos; e “Eu Cão Eu”, do próprio Possolo (2012, indicado ao Prêmio Shell de melhor texto) com direção de Rodolfo García Vázquez.

A produção inédita traz o parlapatão em nova encenação que, pelo humor e com diferentes personagens, zomba da normalização crescente da mediocridade que vem tornando a sociedade cada vez mais embrutecida. Os textos independentes foram escritos especialmente para a celebração dos 45 anos de carreira como um presente para Possolo, que também contribuiu com textos e roteirização. A narrativa da memória de um ator preso em casa passeia por diversos quadros e temas. 

Luís Alberto de Abreu, que foi mestre de Possolo na dramaturgia, traz a situação insólita de um homem que encontra uma argola viva no meio da calçada, até entender que era uma pessoa que virou do avesso. Michelle Ferreira fala de um professor de cinema que, com sua arrogância diante dos alunos, trata a sua própria vida como um roteiro. Ana Saggese e Maíra Dvorek apresentam Deus no comando de tudo, tomando atitudes descontroladas e autoritárias. Sérgio Roveri mostra um pai que não aceita que o filho possa sonhar e ser feliz. O espetáculo nasce das inquietações de Possolo querendo abordar o fato de que a sociedade contemporânea está cada vez “mais intolerante, tensa e agressiva”. Nesta reflexão, ele leva em conta que diversos fatores históricos mundiais são significativos para isso.

“O advento das redes sociais e os comportamentos dela derivados; a volta e violência do fascismo e dos grupos de extrema direita, o militarismo a máfia miliciana; as guerras que ameaçam uma Terceira Guerra Mundial, com possibilidade de utilização de bombas atômicas; o aquecimento global e a destruição do planeta por interesses econômicos e, por fim, o desprezo às Ciências e às Artes, gerando incompreensíveis elogios à ignorância”, reflete Possolo.

Como tratar desses assuntos com comicidade? “No fundo, os desafios do humor estão em saber questionar os temas contemporâneos sem querer definir para o público quais são as soluções. Até mesmo porque não as temos”, completa o ator. Assim, Possolo procurou uma dramaturgia que definisse uma persona múltipla, que se mostra o idiota absoluto do título, totalmente convicto de que está sempre certo. Esse idiota, a persona central, é um ator que não consegue sair de seu apartamento, porque perdeu as chaves. Preocupado com sua memória, ele repassa o que fez antes, para tentar lembrar onde deixou a chave. 

Porém, seu esforço traz lembranças de outros fatos que o fazem reviver suas várias personagens, do passado e do presente. Os protagonistas que revive, enquanto tenta sair de casa, são um pouco dele mesmo e um pouco da visão que teve sobre essas personagens que representou um dia. Essas diversas pessoas e situações, a partir do momento em que ele se ridiculariza, chegam ao público igualmente idiotas. Possolo define a peça como “mais uma provocação parlapatônica, sem julgamentos condenatórios aos idiotas, até porque sou um. Quero deixar ao público as reflexões de como e porque nos tornamos assim, tão tolos e tão convictos de nosso destino errático e sem sentido”.

Se em “Prego na Testa” o foco estava nas personagens que enlouquecem com a solidão das grandes cidades e em “Eu Cão Eu” mergulhava na força que tem um vício em mudar a vida das pessoas, “Idiota Convicto” trata da dificuldade de relações sociais das personagens e de como isso as embrutece. O espetáculo resulta de um processo longo de pesquisa que vem celebrar junto a diversos artistas o trabalho em torno da palhaçaria e do teatro popular. Com comicidade e lirismo, o grupo busca trazer um diferente ângulo de visão que possa, com a comunicação direta com a plateia - típica da linguagem dos Parlapatões -, contribuir na construção de uma cidadania mais solidária.


Ficha técnica
Espetáculo "O Idiota Convicto"

Textos: Ana Saggese, Luís Alberto de Abreu, Hugo Possolo, Maíra Dvorek, Michelle Ferreira e Sérgio Roveri.
Roteiro, direção, atuação, assistência de direção, cenário, figurino, assistência de limpeza, limpeza, iluminação, insistências, confusões, dívidas e dúvidas, paciência, paixão e algumas outras funções não menos importantes: Hugo Possolo
Sonoplastia e operação de som: Deivison Nunes
Locução (Voz Bíblica): Tadeu Pinheiro 
Adereços: Agentemesmoqueimandodedonacolaquente
Operação de iluminação: Walmerio e OBarros
Fotos: Luiz Doroneto
Vídeos: Deivison Nunes
Designer gráfico: Werner Schulz
Redes e comunicação Social: A Outra
Assessoria de imprensa: Fernanda Martins/Benu Comunicação
Produção executiva: Manoela Flor
Gestão de projetos: Cristiani Zonzini
Produção Espaço Parlapatões: Wira Bortoli
Assistência de produção Espaço Parlapatões: Sofia Falastro
Realização: Parlapatões e Nada de Novo Produções Artísticas


Serviço
Espetáculo "Idiota Convicto", Hugo Possolo e Parlapatões 
Data: dias 18 e 25 de julho; 8, 15, 22 e 29 de agosto - todos os sábados (exceto o dia 01/08, que é sem sessão), às: 22h00
Local: Espaço Parlapatões - Praça Franklin Roosevelt, 158 - Consolação / São Paulo
Capacidade: 96 lugares
Classificação indicativa: 14 anos
Ingressos: R$ 70,00 (inteira), R$ 35,00 (meia-entrada); promoção para quem comprar até o dia 03 de julho: R$ 50,00 (inteira), R$ 25,00 (meia-entrada); vendidos pelo Sympla: https://bileto.sympla.com.br/event/122863
Mais informações: @parlapatoes / https://parlapatoes.com.br / @hugopossolo

sexta-feira, 10 de julho de 2026

.: “Tomo Controle Contigo”, novidade: Suzy McCalley lança novo single


Por
 Luiz Gomes Otero, jornalista e crítico cultural.

A cantora brasileiro-americana Suzy McCalley está lançando um novo single. Bebendo na fonte das músicas brasileira e americana, Suzy está lançando a música “Tomo Controle Contigo”, pela Ada Brasil Music em todas as plataformas musicais. “A inspiração para essa música é o posicionamento da mulher no momento do flerte, da atração. Ela está entrando num clube, há aquele momento de tensão sexual, e no final é a mulher que escolhe o parceiro”, conta Suzy.

O single faz parte de um projeto chamado “Amor e Atitude”, que terá outras músicas lançadas ao longo do ano. No caso de “Tomo Controle Contigo”, a vocação de Suzy para extrapolar fronteiras aparece também numa batida meio caribenha, fruto da troca de experiências com o produtor Carlos Yael, vencedor de cinco Grammys.

Suzy nasceu no Brasil, filha de mãe brasileira e pai americano, ambos músicos. Mudou-se para os Estados Unidos aos 9 anos e mora lá até hoje, mas está sempre no Brasil e nos últimos três anos intensificou sua imersão musical, visitando Minas Gerais e o Nordeste, sempre em busca de novas influências e conhecimentos.  

Nos Estados Unidos, Suzy tornou-se uma espécie de embaixadora da cultura brasileira. Além de se apresentar com sua banda, realiza eventos que incluem, além de música, dança e gastronomia brasileiras. “É incrível compartilhar a cultura brasileira. Principalmente onde moro agora, na Carolina do Norte, onde as pessoas normalmente só conhecem “Garota de Ipanema” e uma ou outra música brasileira”,  concluiu.

"Tomo Contro Contigo"

segunda-feira, 6 de julho de 2026

.: Peça inspirada em livros de Édouard Louis segue em cartaz no Teatro Faap


Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e de Marcelo Grabowsky, espetáculo foi criado a partir de três livros do francês Édouard Louis, um fenômeno da literatura mundial. Foto: Elisa Mendes

Indicado ao Prêmio APTR 2025 nas categorias de melhores direção, ator protagonista e direção de movimento depois de grande sucesso na capital carioca, "Eddy – Violência & Metamorfose" segue em temporada no Teatro FAAP até dia 6 de agosto, com sessões de terça a quinta-feira, às 20h00. O espetáculo tem direção de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky e traz no elenco João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. A montagem reúne três contundentes obras - “O Fim de Eddy”, “História da Violência” e “Mudar: Método” - do premiado autor francês Édouard Louis, traçando um panorama ampliado da sua trajetória. Vale mencionar que o trabalho teve o aval caloroso do próprio autor: “É a primeira vez que uma proposta assim foi realizada no mundo”, diz Louis, que já teve seus livros levados à cena em diferentes países.

O espetáculo, que aborda temas urgentes como violência de classe, de gênero e sexual, homofobia, machismo e xenofobia, dá continuidade à pesquisa da Polifônica a respeito da violência e da dominação masculina nas relações humanas e suas devastadoras consequências. A montagem gira em torno de um episódio real vivido por Édouard Louis no Natal de 2012, em Paris. Após um jantar com amigos, ao voltar para casa, o escritor é abordado por um jovem de origem argelina, chamado Redá, e, então, os dois seguem para o apartamento do escritor. Mas, após uma noite de amor, na manhã seguinte, Édouard é violentado por este homem e quase assassinado. 

O episódio traumático, elaborado na obra “História da Violência”, dá início a uma jornada reflexiva e de elaboração a respeito das estruturas sociais que viabilizam a produção, a reprodução e a circulação da violência em nossas sociedades. Um ano após o terrível episódio, após lidar com uma série de procedimentos médicos, policiais e jurídicos relacionados ao caso, Édouard inicia uma viagem de retorno à sua cidade natal. Ele hospeda-se na casa da sua irmã, Clara, e é a partir deste reencontro que se inicia um jogo de relatos, de narrativas e de representações que reconstituem e investigam o ocorrido naquela noite, em que vêm à tona uma pluralidade de questionamentos e de reflexões acerca do machismo, do racismo e da homofobia enraizadas na nossa sociedade. 

Ao longo do espetáculo, a narrativa de “História da Violência” também é atravessada por trechos de “O Fim de Eddy” e culmina na recriação de fragmentos de “Mudar: Mtodo”, obra em que Édouard reconta sua trajetória de emancipação social e intelectual, desde a saída da sua cidade natal, Hallencourt, até a sua chegada e estabelecimento em Paris. “Ao longo dos últimos dez anos de trabalho, buscamos, através de cada obra, propor uma reflexão coletiva acerca das consequências da desmedida ânsia masculina por poder, controle, dominação e submissão; sobre como isso produz danos nos mais diferentes corpos — humanos, além de humanos e de toda a Terra —, mas, principalmente, em tudo aquilo que se aproxima ou é identificado como feminino”, elabora o diretor Luiz Felipe Reis.

“Meu interesse pela obra do Édouard surge como desdobramento dessa investigação contínua que venho realizando sobre diferentes modos de violência, sobretudo os que constituem o mundo masculino - seu ethos e psiquismo, as regras e normas das sociedades patriarcais e, sobretudo, do regime totalitário do capital sob o qual estamos todos subjugados. Édouard reflete e escreve sobre violência social, política, econômica, cultural, racial, sexual, de gênero, ou seja, sobre inúmeras formas de produção e de circulação da violência, sobre todo um circuito de violência que rege nossos comportamentos e pensamentos, sociais e individuais. Em outras palavras, Édouard descreve com precisão iluminadora os efeitos devastadores das forças de opressão e de destruição que constituem a nós e nossas sociedades contemporâneas ”, acrescenta.

O cineasta Marcelo Grabowsky, que já havia colaborado com a Polifônica no espetáculo “Amor em Dois Atos”, foi convidado para retomar sua parceria com o grupo, coassinado a direção e a dramaturgia de “Eddy - Violência e Metamorfose”, ao lado de Luiz Felipe Reis.“Admiro muito a forma como a companhia enxerga a cena teatral e propõe esse cruzamento de linguagens. Adaptar a obra do Édouard para o palco encontra a importância de encenar dilemas e vivências de corpos e subjetividades gays e, assim, fazer a gente se reconhecer em cena. Mesmo com o avanço e a legitimação de muitas vozes LGBTQIAP+ no Brasil, o conservadorismo e o preconceito insistem em revelar e exercer a sua violência. Édouard elabora de uma forma instigante seu olhar sobre a violência, encarando sua complexidade, e questionando sua origem. Consegue transformar suas próprias experiências, por mais duras que possam ser, em literatura, em arte, para alcançarem e sensibilizarem outras pessoas”, analisa Grabowsky.

"Eddy" também dá sequência à pesquisa estética da Polifônica acerca da noção de polifonia cênica, em que busca estabelecer uma relação criativa e não hierárquica entre o teatro e diferentes linguagens e formas de arte, como o cinema, a literatura e o som - pesquisa elaborada desde o primeiro espetáculo da companhia, “Estamos Indo Embora…” (2015), assim como em todos os trabalhos subsequentes: “Amor em Dois Atos” (2016), “Galáxias” (2018), “Tudo Que Brilha no Escuro” (2020), “Vista” (2023) e “Deserto” (2024) - esse último em cartaz atualmente no Teatro Poeira, com temporada prorrogada até agosto, devido ao sucesso, e indicações ao Prêmio APTR para Melhor Dramaturgia, Direção e Ator. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Sinopse de “Eddy - Violência & Metamorfose”
“Eddy - Violência & Metamorfose”é um espetáculo baseado em três obras do escritor francês Édouard Louis: “O Fim de Eddy”“História da Violência” e “Mudar: Método”. Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky, o elenco conta com João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. Indicado ao Prêmio APTR 2025 nas categorias Melhor Direção, Melhor Ator Protagonista e Melhor Direção de Movimento, “EDDY” aborda temas urgentes como violência sexual, homofobia, xenofobia, machismo e dominação masculina, a partir de um episódio real vivido pelo autor em Paris no Natal de 2012. Com esta imersão na obra de Édouard Louis a Polifônica dá sequência a uma pesquisa continuada, desenvolvida ao longo da última década, a respeito da violência e da dominação masculina nas relações humanas e suas múltiplas consequências. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Sobre Édouard Louis
Édouard Louis, nascido Eddy Bellegueule, em 1992, na região operária da Picardia, norte da França, é um dos principais nomes da literatura contemporânea europeia. Formado em sociologia pela École Normale Supérieure, foi aluno do filósofo e sociólogo Didier Eribon, cuja influência transparece em sua obra. Estreou em 2014 com “Para Acabar com Eddy Bellegueule, uma narrativa autobiográfica que retrata a infância marcada pela pobreza, homofobia e violência familiar. Em 2016, publicou “História da Violência”, um relato intenso sobre o estupro que sofreu e seus desdobramentos psicológicos e sociais. Em 2018, lançou “Quem Matou Meu Pai”, uma denúncia comovente sobre as consequências das políticas neoliberais no corpo e no destino de seu pai operário.

Já em 2021, publicou “Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher”, focando na trajetória de sua mãe, uma mulher que tenta romper com as amarras da submissão patriarcal. Os livros de Louis têm sido traduzidos para dezenas de idiomas e amplamente debatidos por seu teor político e sua fusão entre experiência pessoal e crítica social. Seus temas centrais - identidade, exclusão social, sexualidade, violência e desigualdade - conferem à sua obra um caráter profundamente político e transformador. Embora jovem, já recebeu reconhecimento significativo, como o Prêmio Pierre Guénin Contra a Homofobia (2014), e teve suas obras adaptadas para o teatro e analisadas em meios acadêmicos. Sua escrita, marcada por uma linguagem direta e sem ornamentos, faz da dor um ponto de partida para repensar as estruturas sociais que moldam e limitam as vidas marginalizadas. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Eddy - Violência & Metamorfose"
Idealização, produção e realização: Polifônica (Luiz Felipe Reis e Julia Lund)
Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky com João Côrtes, Julia Lund, Erom Cordeiro
A partir das obras de Édouard Louis - “O Fim de Eddy”, “História da Violência”, “Mudar: Método”
Direção de movimento: Lavínia Bizzotto
Preparação corporal: Alexandre Maia
Cenografia: André Sanches
Assistente de cenografia: Débora Cancio e Nicole Suzana Santos da Silva
Direção de tecnologia: Julio Parente (Para Raio)
Iluminação: Julio Parente (Para Raio)
Figurino: Antônio Guedes
Assistente de figurino: Mari Ribeiro
Criação de vídeo: Daniel Wierman
Trilha sonora: Luiz Felipe Reis
Direção musical: Carol Mathias
Produção musical: Pedro Sodré
Técnico de luz: Rodrigo Lopes e Gabriel Lagoas
Operador de luz e vídeo: Rodrigo Lopes
Técnico-operador de som: Joy Espindola
Hair stylist: Salão Ará
Make: Sabrina Sanm
Fotografia de estúdio: Renato Pagliacci
Identidade visual: Guilherme Falcão
Assessoria de comunicação: Pombo Correio
Direção de produção: Luiz Felipe Reis e Julia Lund (Polifônica)
Produtor associado: Sérgio Saboya (Galharufa)
Produção executiva: Roberta Dias (Caroteno Produções)


Serviço
Espetáculo "Eddy - Violência & Metamorfose"
Temporada: até dia 6 de agosto de 2026
Terças, quartas e quintas-feiras, às 20h00
Teatro FAAP - Rua Alagoas, 903, Higienópolis / São Paulo 
Ingressos: R$ 130,00 (inteira) e R$ 65,00 (meia-entrada)
Bilheteria: de quarta a sábado, das 14h00 às 20h00, e domingo, das 14h00 às 17h00. Durante os dias de espetáculo, até o início da apresentação
Duração: 110 minutos
Classificação: 18 anos
Capacidade: 477 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

.: "Os Anarquistas" resgata fúria política e expõe dilemas de uma geração


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"Os Anarquistas" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para ajudar a entender de onde veio parte da força do cinema sul-coreano que, anos depois, conquistaria o mundo. Dirigido por Yu Young-sik e com roteiro assinado por Park Chan-wook, o longa-metragem lançado no ano 2000 mergulha na Xangai dos anos 1920 para acompanhar um grupo de jovens coreanos dispostos a tudo contra a ocupação japonesa.

A narrativa se constrói a partir do olhar de Sang-gu, o mais jovem entre os revolucionários, que relembra sua entrada na célula anarquista e o aprendizado brutal de uma militância feita de atentados, assaltos e perdas sucessivas. Interpretado por Kim In-kwon, o personagem funciona como ponte entre o espectador e um grupo vivido por nomes que se tornariam gigantes do cinema asiático, como Jang Dong-gun, Kim Sang-jung e Jeong Jun-ho.

Há um cuidado visual que chama atenção já de início: a fotografia aposta em sombras densas, fumaça e uma iluminação que flerta com o expressionismo, enquanto as sequências de ação evocam o cinema de Hong Kong e o chamado “heroic bloodshed”, um subgênero do cinema de ação surgido em Hong Kong nos anos 1980, marcado por violência estilizada aliada a forte carga dramática. Popularizado por diretores como John Woo, traz protagonistas geralmente anti-heróis envolvidos em conflitos morais, com histórias que valorizam lealdade, amizade e sacrifício. As cenas de ação são coreografadas, com câmera lenta e tiroteios intensos, enquanto a narrativa costuma conduzir a desfechos trágicos ou melancólicos. A encenação acompanha o desgaste emocional dos personagens, que veem seus ideais se chocarem com a realidade de uma luta sem garantias.

"Os Anarquistas" também carrega um peso histórico relevante. Inspirado, ainda que livremente, em movimentos de resistência coreanos durante o domínio japonês, o filme foi a primeira coprodução entre Coreia do Sul e China, com filmagens realizadas em locações de Xangai e arredores. A reconstrução de época evita o artificial e aposta em cenários amplos e figurinos detalhados, resultado de uma colaboração com equipes locais experientes.

Lançado antes da explosão global do cinema coreano, o longa-metragem acabou ganhando outra dimensão com o passar dos anos. Revisto hoje, funciona como registro de uma geração de artistas que redefiniria a indústria, além de revelar um Park Chan-wook ainda em processo de afirmação como roteirista, pouco antes de dirigir títulos que se tornariam cultuados mundialmente. A luta política se mistura à amizade, à desconfiança e ao desgaste de quem passa a viver no limite. A trajetória do grupo aponta para um destino inevitável, conduzido por escolhas que cobram um preço alto demais.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

.: Suspense de 1956, "A Sombra" retorna para provocar novas leituras


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Produzido durante o chamado “degelo” político na Polônia, quando a censura afrouxava discretamente, “A Sombra” encontrou terreno para lidar com temas delicados. O filme chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um título que precisa ser redescoberto. Dirigido por Jerzy Kawalerowicz e escrito por Aleksander Ścibor-Rylski, o longa-metragem polonês de 1956 parte de um corpo lançado de um trem para construir um enigma difícil de ser decifrado. A investigação conduzida por policiais, agentes de segurança e um legista se fragmenta em três versões, situadas em momentos distintos: a Segunda Guerra Mundial, o imediato pós-guerra e a Polônia dos anos 1950. O filme, que tem no elenco os atores Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki e Tadeusz Jurasz, organiza o suspense a partir de relatos que se contradizem e se contaminam. Cada depoimento desloca o espectador, que passa a lidar com identidades instáveis e intenções ambíguas. 

A estrutura lembra o jogo de perspectivas popularizado por “Rashomon”, de Akira Kurosawa, mas Kawalerowicz prefere expandir o dispositivo: em vez de revisitar um único acontecimento, ele costura histórias que ecoam entre si, criando uma espécie de mosaico moral. A pergunta sobre quem foi o homem morto se transforma, aos poucos, em outra: o que define alguém em um cenário de vigilância, medo e lealdades frágeis? A câmera de Jerzy Lipman aposta em enquadramentos fechados e ângulos baixos, valorizando rostos tensos e ambientes carregados. O filme avança com movimento, perseguições e sequências envolvendo trens que imprimem ritmo e risco. Em algumas dessas cenas, os próprios atores dispensaram dublês.

Críticos da época reagiram com desconfiança ao retrato de um mundo povoado por agentes secretos e inimigos invisíveis, leitura que dialogava com o imaginário do stalinismo. O filme, no entanto, segue por outra via e expõe a fragilidade das certezas: heroísmo e traição mudam conforme o ponto de vista. Exibido no Festival de Cannes de 1956, o longa-metragem integra o movimento conhecido como Polish Film School, responsável por renovar a linguagem cinematográfica no país ao abordar as consequências da guerra com maior liberdade estética e densidade moral. Kawalerowicz, que mais tarde assinaria obras como “Madre Joana dos Anjos” e “Faraó”, já demonstrava aqui um domínio formal que chamaria atenção fora da Polônia, ainda que a filmografia dele permaneça menos difundida do que merece.


Ficha técnica
“A Sombra” | "Cień" (título original)
Gênero: drama, ação, suspense. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: não informada.
Ano de produção: 1956. Idioma: polonês. Direção: Jerzy Kawalerowicz. Roteiro: Aleksander Ścibor-Rylski. Elenco: Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki, Tadeusz Jurasz, Emil Karewicz, Ignacy Machowski, Bolesław Płotnicki, Bohdan Ejmont, Marian Łącz, Halina Przybylska, entre outros.
Distribuição no Brasil: não informada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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sábado, 20 de junho de 2026

.: Longa “The Doors” expõe excessos e controvérsias sobre Jim Morrison


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Oliver Stone nunca teve vocação para a neutralidade. Isso aparece com força em “The Doors”,  cinebiografia em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e tenta capturar sem muita delicadeza o furacão chamado Jim Morrison. Lançado em 1991, o longa-metragem sempre foi embalado por expectativas altas, sustentadas pelo mito da banda que ajudou a redefinir os limites do rock e da contracultura norte-americana no fim dos anos 1960.

No centro de tudo está Val Kilmer, em uma atuação que beira o transe. Há relatos de que ele aprendeu cerca de 50 músicas do repertório da banda, cantando boa parte delas no próprio filme. Em estúdio, a voz dele chegou a confundir até integrantes originais do grupo, tamanha a precisão. O nível de dedicação cobrou um preço, já que o ator precisou de terapia ao final das filmagens para se desligar do personagem.

A narrativa acompanha Morrison desde os tempos de estudante de cinema na UCLA até a ascensão meteórica com o The Doors, passando por excessos, crises criativas e a espiral autodestrutiva que culminaria na morte precoce dele, aos 27 anos, em Paris. Stone aposta no hedonismo, no caos e em uma aura quase mística que transforma o vocalista no chamado “Rei Lagarto”. O elenco sustenta essa atmosfera com eficiência. 

Meg Ryan surpreende ao abandonar a imagem de comédias românticas para viver Pamela Courson, companheira de Morrison. Kyle MacLachlan, como Ray Manzarek, traz uma presença mais contida, enquanto Kevin Dillon (John Densmore) e Frank Whaley (Robby Krieger) completam a formação da banda. Entre participações curiosas, Billy Idol aparece como Cat, e Crispin Glover surge como Andy Warhol, em um retrato breve, mas marcante.

O roteiro, assinado por Stone em parceria com J. Randall Jahnson, opta por uma construção fragmentada, quase alucinada, que privilegia sensações em vez de fidelidade histórica. Integrantes da banda, especialmente Manzarek e Densmore, criticaram publicamente o filme por reduzir Morrison a um arquétipo de excessos, ignorando a inteligência, humor e inquietação intelectual dele. 

Décadas depois, o consenso permanece instável: o filme oscila entre documento cultural e fantasia estilizada. Mesmo com as controvérsias, a bilheteria superou ligeiramente o custo de produção, e o filme acabou consolidando uma imagem duradoura de Morrison para gerações que não o viram ao vivo. Para muitos, o Jim Morrison de Kilmer virou referência, o que, por si só, explica parte do incômodo dos músicos originais.

Curiosamente, o papel quase teve outro destino. Ian Astbury, vocalista do The Cult, recusou o convite por discordar da abordagem do roteiro. Nomes como Bono e Michael Hutchence também demonstraram interesse, mas não avançaram. A escolha por Kilmer, hoje, parece inevitável. Selecionado para o Festival de Moscou em 1991 e revisitado anos depois na seção Cannes Classics, o filme segue provocando debate. Stone entrega um retrato intenso, por vezes exagerado, que transforma a trajetória da banda em uma experiência sensorial. Há momentos em que a encenação se sobrepõe ao fato, mas a energia permanece.


Ficha técnica
“The Doors” | “The Doors: O Mito de uma Geração” (título em Portugal)
Gênero: Musical, biográfico. Duração: 141 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone e J. Randall Jahnson. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Kevin Dillon, Frank Whaley, Kathleen Quinlan, Billy Idol, Crispin Glover, entre outros. Distribuição no Brasil: Columbia Pictures (Sony Pictures). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 19 de junho de 2026

.: No streaming, “Betty Blue” convoca o público a encarar a vertigem


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A cópia restaurada de “Betty Blue” devolve ao circuito um filme que nunca se acomodou no passado. Dirigido e roteirizado por Jean-Jacques Beineix, a partir do romance de Philippe Djian, o longa-metragem reaparece em versão remasterizada para celebrar quatro décadas de um impacto que não se dilui. A estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recoloca em evidência uma obra que mistura desejo, criação artística e vertigem emocional. O filme volta embalado por uma restauração em alta definição que valoriza as cores saturadas.

Na história, Zorg (Jean-Hugues Anglade) leva uma vida modesta à beira-mar até a chegada de Betty (Béatrice Dalle), uma mulher que desestabiliza tudo ao redor dela. O romance entre os dois avança de maneira intensa, física e instável. Entre mudanças de cidade, empregos improvisados e a tentativa de transformar um manuscrito em livro publicado, o casal se move por impulsos que os aproximam e, ao mesmo tempo, anunciam um término inevitável. O filme observa esse percurso sem freio moral e mostra o que acontece quando o amor e o descontrole caminham juntos.

Lançado originalmente em 1986, “Betty Blue” foi o oitavo maior sucesso de bilheteria na França naquele ano e alcançou reconhecimento internacional com indicação ao Oscar e ao BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A trilha de Gabriel Yared, hoje amplamente reconhecida, ajuda a sustentar a atmosfera sensorial que marcou o cinema francês dos anos 1980, especialmente o chamado “cinema do look”, ao qual Beineix é frequentemente associado.

Há bastidores que ampliam a experiência de quem revisita o longa. As filmagens ocorreram ao longo de 13 semanas em locações como Gruissan, Marselha e Marvejols, explorando paisagens que alternam o solar e o melancólico. Beineix comentou, em entrevistas, que a química entre Béatrice Dalle e Jean-Hugues Anglade ultrapassava a encenação - uma energia que se infiltra em cena e ajuda a explicar a combustão do casal. Décadas depois, a versão do diretor, com cerca de 185 minutos, ganhou circulação ampliada e aprofunda a espiral de Betty, além de expandir o arco de Zorg.


“Betty Blue” | “37°2 Le Matin” (título original) | “Betty Blue – 37,2º de Manhã” (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, erótico, psicológico. Duração: 120 minutos (versão original); 185 minutos (versão do diretor). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: francês. Direção: Jean-Jacques Beineix. Roteiro: Jean-Jacques Beineix, baseado no romance de Philippe Djian. Elenco: Béatrice Dalle, Jean-Hugues Anglade, Gérard Darmon, Consuelo de Haviland, Clémentine Célarié, Jacques Mathou, Vincent Lindon, entre outros. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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