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segunda-feira, 6 de julho de 2026

.: Peça inspirada em livros de Édouard Louis segue em cartaz no Teatro Faap


Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e de Marcelo Grabowsky, espetáculo foi criado a partir de três livros do francês Édouard Louis, um fenômeno da literatura mundial. Foto: Elisa Mendes

Indicado ao Prêmio APTR 2025 nas categorias de melhores direção, ator protagonista e direção de movimento depois de grande sucesso na capital carioca, "Eddy – Violência & Metamorfose" segue em temporada no Teatro FAAP até dia 6 de agosto, com sessões de terça a quinta-feira, às 20h00. O espetáculo tem direção de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky e traz no elenco João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. A montagem reúne três contundentes obras - “O Fim de Eddy”, “História da Violência” e “Mudar: Método” - do premiado autor francês Édouard Louis, traçando um panorama ampliado da sua trajetória. Vale mencionar que o trabalho teve o aval caloroso do próprio autor: “É a primeira vez que uma proposta assim foi realizada no mundo”, diz Louis, que já teve seus livros levados à cena em diferentes países.

O espetáculo, que aborda temas urgentes como violência de classe, de gênero e sexual, homofobia, machismo e xenofobia, dá continuidade à pesquisa da Polifônica a respeito da violência e da dominação masculina nas relações humanas e suas devastadoras consequências. A montagem gira em torno de um episódio real vivido por Édouard Louis no Natal de 2012, em Paris. Após um jantar com amigos, ao voltar para casa, o escritor é abordado por um jovem de origem argelina, chamado Redá, e, então, os dois seguem para o apartamento do escritor. Mas, após uma noite de amor, na manhã seguinte, Édouard é violentado por este homem e quase assassinado. 

O episódio traumático, elaborado na obra “História da Violência”, dá início a uma jornada reflexiva e de elaboração a respeito das estruturas sociais que viabilizam a produção, a reprodução e a circulação da violência em nossas sociedades. Um ano após o terrível episódio, após lidar com uma série de procedimentos médicos, policiais e jurídicos relacionados ao caso, Édouard inicia uma viagem de retorno à sua cidade natal. Ele hospeda-se na casa da sua irmã, Clara, e é a partir deste reencontro que se inicia um jogo de relatos, de narrativas e de representações que reconstituem e investigam o ocorrido naquela noite, em que vêm à tona uma pluralidade de questionamentos e de reflexões acerca do machismo, do racismo e da homofobia enraizadas na nossa sociedade. 

Ao longo do espetáculo, a narrativa de “História da Violência” também é atravessada por trechos de “O Fim de Eddy” e culmina na recriação de fragmentos de “Mudar: Mtodo”, obra em que Édouard reconta sua trajetória de emancipação social e intelectual, desde a saída da sua cidade natal, Hallencourt, até a sua chegada e estabelecimento em Paris. “Ao longo dos últimos dez anos de trabalho, buscamos, através de cada obra, propor uma reflexão coletiva acerca das consequências da desmedida ânsia masculina por poder, controle, dominação e submissão; sobre como isso produz danos nos mais diferentes corpos — humanos, além de humanos e de toda a Terra —, mas, principalmente, em tudo aquilo que se aproxima ou é identificado como feminino”, elabora o diretor Luiz Felipe Reis.

“Meu interesse pela obra do Édouard surge como desdobramento dessa investigação contínua que venho realizando sobre diferentes modos de violência, sobretudo os que constituem o mundo masculino - seu ethos e psiquismo, as regras e normas das sociedades patriarcais e, sobretudo, do regime totalitário do capital sob o qual estamos todos subjugados. Édouard reflete e escreve sobre violência social, política, econômica, cultural, racial, sexual, de gênero, ou seja, sobre inúmeras formas de produção e de circulação da violência, sobre todo um circuito de violência que rege nossos comportamentos e pensamentos, sociais e individuais. Em outras palavras, Édouard descreve com precisão iluminadora os efeitos devastadores das forças de opressão e de destruição que constituem a nós e nossas sociedades contemporâneas ”, acrescenta.

O cineasta Marcelo Grabowsky, que já havia colaborado com a Polifônica no espetáculo “Amor em Dois Atos”, foi convidado para retomar sua parceria com o grupo, coassinado a direção e a dramaturgia de “Eddy - Violência e Metamorfose”, ao lado de Luiz Felipe Reis.“Admiro muito a forma como a companhia enxerga a cena teatral e propõe esse cruzamento de linguagens. Adaptar a obra do Édouard para o palco encontra a importância de encenar dilemas e vivências de corpos e subjetividades gays e, assim, fazer a gente se reconhecer em cena. Mesmo com o avanço e a legitimação de muitas vozes LGBTQIAP+ no Brasil, o conservadorismo e o preconceito insistem em revelar e exercer a sua violência. Édouard elabora de uma forma instigante seu olhar sobre a violência, encarando sua complexidade, e questionando sua origem. Consegue transformar suas próprias experiências, por mais duras que possam ser, em literatura, em arte, para alcançarem e sensibilizarem outras pessoas”, analisa Grabowsky.

"Eddy" também dá sequência à pesquisa estética da Polifônica acerca da noção de polifonia cênica, em que busca estabelecer uma relação criativa e não hierárquica entre o teatro e diferentes linguagens e formas de arte, como o cinema, a literatura e o som - pesquisa elaborada desde o primeiro espetáculo da companhia, “Estamos Indo Embora…” (2015), assim como em todos os trabalhos subsequentes: “Amor em Dois Atos” (2016), “Galáxias” (2018), “Tudo Que Brilha no Escuro” (2020), “Vista” (2023) e “Deserto” (2024) - esse último em cartaz atualmente no Teatro Poeira, com temporada prorrogada até agosto, devido ao sucesso, e indicações ao Prêmio APTR para Melhor Dramaturgia, Direção e Ator. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Sinopse de “Eddy - Violência & Metamorfose”
“Eddy - Violência & Metamorfose”é um espetáculo baseado em três obras do escritor francês Édouard Louis: “O Fim de Eddy”“História da Violência” e “Mudar: Método”. Com direção e dramaturgia de Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky, o elenco conta com João Côrtes, Julia Lund e Erom Cordeiro. Indicado ao Prêmio APTR 2025 nas categorias Melhor Direção, Melhor Ator Protagonista e Melhor Direção de Movimento, “EDDY” aborda temas urgentes como violência sexual, homofobia, xenofobia, machismo e dominação masculina, a partir de um episódio real vivido pelo autor em Paris no Natal de 2012. Com esta imersão na obra de Édouard Louis a Polifônica dá sequência a uma pesquisa continuada, desenvolvida ao longo da última década, a respeito da violência e da dominação masculina nas relações humanas e suas múltiplas consequências. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Sobre Édouard Louis
Édouard Louis, nascido Eddy Bellegueule, em 1992, na região operária da Picardia, norte da França, é um dos principais nomes da literatura contemporânea europeia. Formado em sociologia pela École Normale Supérieure, foi aluno do filósofo e sociólogo Didier Eribon, cuja influência transparece em sua obra. Estreou em 2014 com “Para Acabar com Eddy Bellegueule, uma narrativa autobiográfica que retrata a infância marcada pela pobreza, homofobia e violência familiar. Em 2016, publicou “História da Violência”, um relato intenso sobre o estupro que sofreu e seus desdobramentos psicológicos e sociais. Em 2018, lançou “Quem Matou Meu Pai”, uma denúncia comovente sobre as consequências das políticas neoliberais no corpo e no destino de seu pai operário.

Já em 2021, publicou “Lutas e Metamorfoses de Uma Mulher”, focando na trajetória de sua mãe, uma mulher que tenta romper com as amarras da submissão patriarcal. Os livros de Louis têm sido traduzidos para dezenas de idiomas e amplamente debatidos por seu teor político e sua fusão entre experiência pessoal e crítica social. Seus temas centrais - identidade, exclusão social, sexualidade, violência e desigualdade - conferem à sua obra um caráter profundamente político e transformador. Embora jovem, já recebeu reconhecimento significativo, como o Prêmio Pierre Guénin Contra a Homofobia (2014), e teve suas obras adaptadas para o teatro e analisadas em meios acadêmicos. Sua escrita, marcada por uma linguagem direta e sem ornamentos, faz da dor um ponto de partida para repensar as estruturas sociais que moldam e limitam as vidas marginalizadas. Compre os livros de Édouard Louis neste link.


Ficha técnica
Espetáculo "Eddy - Violência & Metamorfose"
Idealização, produção e realização: Polifônica (Luiz Felipe Reis e Julia Lund)
Direção e dramaturgia: Luiz Felipe Reis e Marcelo Grabowsky com João Côrtes, Julia Lund, Erom Cordeiro
A partir das obras de Édouard Louis - “O Fim de Eddy”, “História da Violência”, “Mudar: Método”
Direção de movimento: Lavínia Bizzotto
Preparação corporal: Alexandre Maia
Cenografia: André Sanches
Assistente de cenografia: Débora Cancio e Nicole Suzana Santos da Silva
Direção de tecnologia: Julio Parente (Para Raio)
Iluminação: Julio Parente (Para Raio)
Figurino: Antônio Guedes
Assistente de figurino: Mari Ribeiro
Criação de vídeo: Daniel Wierman
Trilha sonora: Luiz Felipe Reis
Direção musical: Carol Mathias
Produção musical: Pedro Sodré
Técnico de luz: Rodrigo Lopes e Gabriel Lagoas
Operador de luz e vídeo: Rodrigo Lopes
Técnico-operador de som: Joy Espindola
Hair stylist: Salão Ará
Make: Sabrina Sanm
Fotografia de estúdio: Renato Pagliacci
Identidade visual: Guilherme Falcão
Assessoria de comunicação: Pombo Correio
Direção de produção: Luiz Felipe Reis e Julia Lund (Polifônica)
Produtor associado: Sérgio Saboya (Galharufa)
Produção executiva: Roberta Dias (Caroteno Produções)


Serviço
Espetáculo "Eddy - Violência & Metamorfose"
Temporada: até dia 6 de agosto de 2026
Terças, quartas e quintas-feiras, às 20h00
Teatro FAAP - Rua Alagoas, 903, Higienópolis / São Paulo 
Ingressos: R$ 130,00 (inteira) e R$ 65,00 (meia-entrada)
Bilheteria: de quarta a sábado, das 14h00 às 20h00, e domingo, das 14h00 às 17h00. Durante os dias de espetáculo, até o início da apresentação
Duração: 110 minutos
Classificação: 18 anos
Capacidade: 477 lugares
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

.: "Os Anarquistas" resgata fúria política e expõe dilemas de uma geração


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com.

"Os Anarquistas" chega ao catálogo da plataforma de streaming Belas Artes À La Carte para ajudar a entender de onde veio parte da força do cinema sul-coreano que, anos depois, conquistaria o mundo. Dirigido por Yu Young-sik e com roteiro assinado por Park Chan-wook, o longa-metragem lançado no ano 2000 mergulha na Xangai dos anos 1920 para acompanhar um grupo de jovens coreanos dispostos a tudo contra a ocupação japonesa.

A narrativa se constrói a partir do olhar de Sang-gu, o mais jovem entre os revolucionários, que relembra sua entrada na célula anarquista e o aprendizado brutal de uma militância feita de atentados, assaltos e perdas sucessivas. Interpretado por Kim In-kwon, o personagem funciona como ponte entre o espectador e um grupo vivido por nomes que se tornariam gigantes do cinema asiático, como Jang Dong-gun, Kim Sang-jung e Jeong Jun-ho.

Há um cuidado visual que chama atenção já de início: a fotografia aposta em sombras densas, fumaça e uma iluminação que flerta com o expressionismo, enquanto as sequências de ação evocam o cinema de Hong Kong e o chamado “heroic bloodshed”, um subgênero do cinema de ação surgido em Hong Kong nos anos 1980, marcado por violência estilizada aliada a forte carga dramática. Popularizado por diretores como John Woo, traz protagonistas geralmente anti-heróis envolvidos em conflitos morais, com histórias que valorizam lealdade, amizade e sacrifício. As cenas de ação são coreografadas, com câmera lenta e tiroteios intensos, enquanto a narrativa costuma conduzir a desfechos trágicos ou melancólicos. A encenação acompanha o desgaste emocional dos personagens, que veem seus ideais se chocarem com a realidade de uma luta sem garantias.

"Os Anarquistas" também carrega um peso histórico relevante. Inspirado, ainda que livremente, em movimentos de resistência coreanos durante o domínio japonês, o filme foi a primeira coprodução entre Coreia do Sul e China, com filmagens realizadas em locações de Xangai e arredores. A reconstrução de época evita o artificial e aposta em cenários amplos e figurinos detalhados, resultado de uma colaboração com equipes locais experientes.

Lançado antes da explosão global do cinema coreano, o longa-metragem acabou ganhando outra dimensão com o passar dos anos. Revisto hoje, funciona como registro de uma geração de artistas que redefiniria a indústria, além de revelar um Park Chan-wook ainda em processo de afirmação como roteirista, pouco antes de dirigir títulos que se tornariam cultuados mundialmente. A luta política se mistura à amizade, à desconfiança e ao desgaste de quem passa a viver no limite. A trajetória do grupo aponta para um destino inevitável, conduzido por escolhas que cobram um preço alto demais.


Ficha técnica
"Os Anarquistas" | "The Anarchists" (título original)
Gênero: drama, ação. Duração: 100 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 2000. Data de lançamento: 29 de abril de 2000. Idioma: coreano. Direção: Yu Young-sik. Roteiro: Park Chan-wook, Lee Moo-young, Bangnidamae. Elenco: Jang Dong-gun, Kim Sang-jung, Jeong Jun-ho, Lee Beom-soo, Kim In-kwon, Ye Ji-won. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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A equipe do portal Resenhando.com acompanha parte da cobertura cinematográfica por meio da Belas Artes À La Carte, plataforma brasileira dedicada ao cinema de arte, clássicos e produções premiadas de diferentes países. Criado pelo grupo responsável pelo tradicional cinema Belas Artes, em São Paulo, em parceria com a Pandora Filmes, o serviço reúne um catálogo com curadoria especializada, incluindo obras raras, títulos restaurados e destaques de festivais internacionais. Para acessar o catálogo completo, conferir os lançamentos semanais e realizar a assinatura, basta acessar o site ou aplicativo da plataforma. Os planos têm valores acessíveis, com opção mensal e anual, além de locação avulsa para títulos específicos. Você pode assinar o Belas Artes À La Carte neste link.

segunda-feira, 22 de junho de 2026

.: Suspense de 1956, "A Sombra" retorna para provocar novas leituras


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Produzido durante o chamado “degelo” político na Polônia, quando a censura afrouxava discretamente, “A Sombra” encontrou terreno para lidar com temas delicados. O filme chega à plataforma de streaming Belas Artes À La Carte como um título que precisa ser redescoberto. Dirigido por Jerzy Kawalerowicz e escrito por Aleksander Ścibor-Rylski, o longa-metragem polonês de 1956 parte de um corpo lançado de um trem para construir um enigma difícil de ser decifrado. A investigação conduzida por policiais, agentes de segurança e um legista se fragmenta em três versões, situadas em momentos distintos: a Segunda Guerra Mundial, o imediato pós-guerra e a Polônia dos anos 1950. O filme, que tem no elenco os atores Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki e Tadeusz Jurasz, organiza o suspense a partir de relatos que se contradizem e se contaminam. Cada depoimento desloca o espectador, que passa a lidar com identidades instáveis e intenções ambíguas. 

A estrutura lembra o jogo de perspectivas popularizado por “Rashomon”, de Akira Kurosawa, mas Kawalerowicz prefere expandir o dispositivo: em vez de revisitar um único acontecimento, ele costura histórias que ecoam entre si, criando uma espécie de mosaico moral. A pergunta sobre quem foi o homem morto se transforma, aos poucos, em outra: o que define alguém em um cenário de vigilância, medo e lealdades frágeis? A câmera de Jerzy Lipman aposta em enquadramentos fechados e ângulos baixos, valorizando rostos tensos e ambientes carregados. O filme avança com movimento, perseguições e sequências envolvendo trens que imprimem ritmo e risco. Em algumas dessas cenas, os próprios atores dispensaram dublês.

Críticos da época reagiram com desconfiança ao retrato de um mundo povoado por agentes secretos e inimigos invisíveis, leitura que dialogava com o imaginário do stalinismo. O filme, no entanto, segue por outra via e expõe a fragilidade das certezas: heroísmo e traição mudam conforme o ponto de vista. Exibido no Festival de Cannes de 1956, o longa-metragem integra o movimento conhecido como Polish Film School, responsável por renovar a linguagem cinematográfica no país ao abordar as consequências da guerra com maior liberdade estética e densidade moral. Kawalerowicz, que mais tarde assinaria obras como “Madre Joana dos Anjos” e “Faraó”, já demonstrava aqui um domínio formal que chamaria atenção fora da Polônia, ainda que a filmografia dele permaneça menos difundida do que merece.


Ficha técnica
“A Sombra” | "Cień" (título original)
Gênero: drama, ação, suspense. Duração: 98 minutos. Classificação indicativa: não informada.
Ano de produção: 1956. Idioma: polonês. Direção: Jerzy Kawalerowicz. Roteiro: Aleksander Ścibor-Rylski. Elenco: Zygmunt Kęstowicz, Adolf Chronicki, Tadeusz Jurasz, Emil Karewicz, Ignacy Machowski, Bolesław Płotnicki, Bohdan Ejmont, Marian Łącz, Halina Przybylska, entre outros.
Distribuição no Brasil: não informada. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.

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sábado, 20 de junho de 2026

.: Longa “The Doors” expõe excessos e controvérsias sobre Jim Morrison


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Oliver Stone nunca teve vocação para a neutralidade. Isso aparece com força em “The Doors”,  cinebiografia em cartaz na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte, e tenta capturar sem muita delicadeza o furacão chamado Jim Morrison. Lançado em 1991, o longa-metragem sempre foi embalado por expectativas altas, sustentadas pelo mito da banda que ajudou a redefinir os limites do rock e da contracultura norte-americana no fim dos anos 1960.

No centro de tudo está Val Kilmer, em uma atuação que beira o transe. Há relatos de que ele aprendeu cerca de 50 músicas do repertório da banda, cantando boa parte delas no próprio filme. Em estúdio, a voz dele chegou a confundir até integrantes originais do grupo, tamanha a precisão. O nível de dedicação cobrou um preço, já que o ator precisou de terapia ao final das filmagens para se desligar do personagem.

A narrativa acompanha Morrison desde os tempos de estudante de cinema na UCLA até a ascensão meteórica com o The Doors, passando por excessos, crises criativas e a espiral autodestrutiva que culminaria na morte precoce dele, aos 27 anos, em Paris. Stone aposta no hedonismo, no caos e em uma aura quase mística que transforma o vocalista no chamado “Rei Lagarto”. O elenco sustenta essa atmosfera com eficiência. 

Meg Ryan surpreende ao abandonar a imagem de comédias românticas para viver Pamela Courson, companheira de Morrison. Kyle MacLachlan, como Ray Manzarek, traz uma presença mais contida, enquanto Kevin Dillon (John Densmore) e Frank Whaley (Robby Krieger) completam a formação da banda. Entre participações curiosas, Billy Idol aparece como Cat, e Crispin Glover surge como Andy Warhol, em um retrato breve, mas marcante.

O roteiro, assinado por Stone em parceria com J. Randall Jahnson, opta por uma construção fragmentada, quase alucinada, que privilegia sensações em vez de fidelidade histórica. Integrantes da banda, especialmente Manzarek e Densmore, criticaram publicamente o filme por reduzir Morrison a um arquétipo de excessos, ignorando a inteligência, humor e inquietação intelectual dele. 

Décadas depois, o consenso permanece instável: o filme oscila entre documento cultural e fantasia estilizada. Mesmo com as controvérsias, a bilheteria superou ligeiramente o custo de produção, e o filme acabou consolidando uma imagem duradoura de Morrison para gerações que não o viram ao vivo. Para muitos, o Jim Morrison de Kilmer virou referência, o que, por si só, explica parte do incômodo dos músicos originais.

Curiosamente, o papel quase teve outro destino. Ian Astbury, vocalista do The Cult, recusou o convite por discordar da abordagem do roteiro. Nomes como Bono e Michael Hutchence também demonstraram interesse, mas não avançaram. A escolha por Kilmer, hoje, parece inevitável. Selecionado para o Festival de Moscou em 1991 e revisitado anos depois na seção Cannes Classics, o filme segue provocando debate. Stone entrega um retrato intenso, por vezes exagerado, que transforma a trajetória da banda em uma experiência sensorial. Há momentos em que a encenação se sobrepõe ao fato, mas a energia permanece.


Ficha técnica
“The Doors” | “The Doors: O Mito de uma Geração” (título em Portugal)
Gênero: Musical, biográfico. Duração: 141 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1991. Idioma: inglês. Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone e J. Randall Jahnson. Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Kevin Dillon, Frank Whaley, Kathleen Quinlan, Billy Idol, Crispin Glover, entre outros. Distribuição no Brasil: Columbia Pictures (Sony Pictures). Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sexta-feira, 19 de junho de 2026

.: No streaming, “Betty Blue” convoca o público a encarar a vertigem


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

A cópia restaurada de “Betty Blue” devolve ao circuito um filme que nunca se acomodou no passado. Dirigido e roteirizado por Jean-Jacques Beineix, a partir do romance de Philippe Djian, o longa-metragem reaparece em versão remasterizada para celebrar quatro décadas de um impacto que não se dilui. A estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte recoloca em evidência uma obra que mistura desejo, criação artística e vertigem emocional. O filme volta embalado por uma restauração em alta definição que valoriza as cores saturadas.

Na história, Zorg (Jean-Hugues Anglade) leva uma vida modesta à beira-mar até a chegada de Betty (Béatrice Dalle), uma mulher que desestabiliza tudo ao redor dela. O romance entre os dois avança de maneira intensa, física e instável. Entre mudanças de cidade, empregos improvisados e a tentativa de transformar um manuscrito em livro publicado, o casal se move por impulsos que os aproximam e, ao mesmo tempo, anunciam um término inevitável. O filme observa esse percurso sem freio moral e mostra o que acontece quando o amor e o descontrole caminham juntos.

Lançado originalmente em 1986, “Betty Blue” foi o oitavo maior sucesso de bilheteria na França naquele ano e alcançou reconhecimento internacional com indicação ao Oscar e ao BAFTA de Melhor Filme em Língua Estrangeira. A trilha de Gabriel Yared, hoje amplamente reconhecida, ajuda a sustentar a atmosfera sensorial que marcou o cinema francês dos anos 1980, especialmente o chamado “cinema do look”, ao qual Beineix é frequentemente associado.

Há bastidores que ampliam a experiência de quem revisita o longa. As filmagens ocorreram ao longo de 13 semanas em locações como Gruissan, Marselha e Marvejols, explorando paisagens que alternam o solar e o melancólico. Beineix comentou, em entrevistas, que a química entre Béatrice Dalle e Jean-Hugues Anglade ultrapassava a encenação - uma energia que se infiltra em cena e ajuda a explicar a combustão do casal. Décadas depois, a versão do diretor, com cerca de 185 minutos, ganhou circulação ampliada e aprofunda a espiral de Betty, além de expandir o arco de Zorg.


“Betty Blue” | “37°2 Le Matin” (título original) | “Betty Blue – 37,2º de Manhã” (título em Portugal)
Gênero: drama, romance, erótico, psicológico. Duração: 120 minutos (versão original); 185 minutos (versão do diretor). Classificação indicativa: 18 anos. Ano de produção: 1986. Idioma: francês. Direção: Jean-Jacques Beineix. Roteiro: Jean-Jacques Beineix, baseado no romance de Philippe Djian. Elenco: Béatrice Dalle, Jean-Hugues Anglade, Gérard Darmon, Consuelo de Haviland, Clémentine Célarié, Jacques Mathou, Vincent Lindon, entre outros. Distribuição no Brasil: Pandora Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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sábado, 6 de junho de 2026

.: "Dominados pelo Desejo" resgata alma do noir e afunda personagens no medo


Por 
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Lançado em 1990, "Dominados pelo Desejo", que estreia na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte,  foi transformado em objeto de culto do cinema norte-americano. Dirigido por James Foley, cineasta que transitou entre o suspense, o drama e produções de grande apelo comercial, o longa-metragem adapta o romance "After Dark, My Sweet", de Jim Thompson, um dos escritores mais influentes da literatura policial americana.

A trama acompanha Kevin "Kid" Collins, interpretado por Jason Patric, um ex-boxeador atormentado que foge de uma instituição psiquiátrica e passa a vagar pelo deserto californiano. Durante a fuga, ele cruza o caminho de Fay Anderson, personagem de Rachel Ward, uma mulher fragilizada por perdas e vícios, que vive sob a influência de Garrett "Tio Bud" Stoker, papel de Bruce Dern. O encontro entre os três dá origem a um plano de sequestro que parece simples apenas na superfície. Conforme a situação se deteriora, a desconfiança, a manipulação e os impulsos autodestrutivos assumem o controle da narrativa.

James Foley, que anos antes dirigira "Quem é Essa Garota?" e posteriormente assinaria títulos como "O Sucesso a Qualquer Preço" e capítulos da franquia "Cinquenta Tons de Cinza", encontra neste filme uma de suas obras mais elogiadas pela crítica especializada. A direção aposta na construção psicológica dos personagens, mantendo o espectador preso à instabilidade emocional do protagonista.

Grande parte da força do filme reside na fidelidade ao universo criado por Jim Thompson. Conhecido por romances como "The Killer Inside Me" e "Pop. 1280", o escritor construiu uma carreira retratando criminosos fracassados, pessoas à deriva e indivíduos incapazes de escapar das próprias limitações. "Dominados pelo Desejo" preserva esse espírito sem recorrer a glamourizações, oferecendo um retrato áspero de personagens que avançam rumo ao desastre quase por inércia.

A atuação de Jason Patric costuma ser apontada como um dos pontos mais marcantes de sua trajetória. O ator confere humanidade e vulnerabilidade a um homem constantemente dividido entre a lucidez e a confusão mental. Rachel Ward evita qualquer romantização da figura da femme fatale clássica, compondo uma mulher emocionalmente ferida, imprevisível e contraditória. Já Bruce Dern entrega um personagem oportunista e desprezível na medida certa, reforçando o clima de tensão permanente.

Visualmente, o longa também chama atenção. A fotografia de Mark Plummer utiliza paisagens áridas e ensolaradas para construir uma atmosfera opressiva. O resultado aproxima o filme do chamado "neo-noir solar", vertente que substitui becos escuros e ruas molhadas pela sensação de isolamento provocada pelo calor e pelos espaços abertos. O fatalismo característico do noir clássico permanece intacto, apenas muda de cenário.

Embora não tenha obtido sucesso expressivo nas bilheterias durante o lançamento, "Dominados pelo Desejo" conquistou admiradores ao longo das décadas. Muitos críticos o consideram uma das adaptações mais consistentes da obra de Jim Thompson para o cinema, justamente por compreender que seus personagens não são gênios do crime, mas seres humanos frágeis, guiados por impulsos, ilusões e decisões equivocadas. Um suspense psicológico que prefere explorar a deterioração moral e emocional de seus protagonistas a oferecer respostas fáceis. Uma experiência marcada pela inquietação, pela melancolia e pela certeza de que, naquele universo, cada escolha carrega consequências difíceis de evitar.


Ficha técnica
"Dominados pelo Desejo" | "After Dark, My Sweet" (título original)
Gênero: romance, suspense, drama, policial, mistério (neo-noir). Duração: 114 minutos. Classificação indicativa: 16 anos. Ano de produção: 1990. Idioma: inglês. Direção: James Foley. Roteiro: James Foley e Robert Redlin, baseado no romance de Jim Thompson. Elenco: Jason Patric, Rachel Ward, Bruce Dern, George Dickerson, Ira Wheeler e Rockne Tarkington. Distribuição no Brasil: disponibilidade em plataformas e distribuidoras varia conforme o período de exibição. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Belas Artes À La Carte.


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quinta-feira, 4 de junho de 2026

.: Coleção Argumentos em três livros que debatem futebol, ética e fake news


Publicada pela Ação Editora, a Coleção Argumentos reúne três livros com linguagem simples e direta, pensados para leitores que têm afã por ideias audaciosas e transformadoras. Ou, como  escreveu o escritor uruguaio Eduardo Galeano, “este mundo infame está grávido de outro possível”. “O Outro Lado do Jogo”, de Adriano Freixo, “Ética e Cidadania”, de Herbert de Souza, o Betinho, e Carla Rodrigues, e “Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”, de Sylvia Moretzsonhn chegam às livrarias neste mês de maio pela Ação Editora, um braço cultural da Ação da Cidadania, e trazem um convite à transformação, pois ideias movem o mundo.

 Em uma sociedade contemporânea em que as conversas estão, muitas vezes, fragmentadas e superficiais, os volumes da coleção têm assuntos distintos, mas com um fio condutor em comum:  análises claras, acessíveis e consistentes sobre questões atuais, como temas sociais, culturais, políticos e tecnológicos, oferecendo ferramentas para interpretar o mundo com mais lucidez. 

A coleção parte da ideia de que compreender é o primeiro passo para agir. Ao apresentar ideias, contextos e diferentes perspectivas, a Coleção Argumentos incentiva a reflexão crítica, o questionamento de narrativas prontas e a construção de um ponto de vista próprio. São leituras de formato ágil, mas profundas no conteúdo, capazes de ampliar repertório e estimular posições conscientes diante dos desafios do presente. Compre os livros da Coleção Argumentos neste link.


O Outro Lado do Jogo", de Adriano Freixo
"O Outro Lado do Jogo", de Adriano Freixo, é uma obra que prova que o futebol nunca foi apenas um jogo. O livro propõe uma leitura crítica para além do espetáculo esportivo, analisando-o como fenômeno político, social e cultural. Num ano da Copa do Mundo Fifa, em que os olhos do mundo todo, em particular a paixão brasileira pelo futebol e por nossa seleção, estarão voltados para o futebol nos meses de junho e julho, este livro já chega com a bola toda. A obra articula história, relações internacionais e ciência política para revelar os vínculos entre futebol, poder, identidades nacionais e disputas simbólicas, adotando uma abordagem analítica pouco explorada no mercado editorial de livros sobre esporte.

No livro, se descobre como o futebol se tornou uma das maiores ferramentas de influência do mundo moderno. Regimes autoritários, a rivalidade Brasil x Argentina e o impacto simbólico do 7 a 1: a bola sempre esteve no centro de projetos de poder, nacionalismos e estratégias de geopolítica. “Apesar de, volta e meia, jornalistas, dirigentes esportivos, comentadores de redes sociais e mesmo atletas afirmarem que esporte e política não devem se misturar, [...] a capacidade dos esportes de massa de agregar os indivíduos em torno de uma ideia ou causa foi e continua a ser um elemento fundamental na arena política”, escreve Adriano de Freitas na apresentação do livro.

 Adriano de Freixo possui sólida trajetória acadêmica, com formação, mestrado e doutorado em História, atuação como professor e coordenador de programas de pós-graduação na UFF, além de produção consistente sobre política, história e relações internacionais. Essa credencial confere robustez intelectual e legitimidade à análise proposta. Compre o livro "O Outro Lado do Jogo" neste link.


"Ética e Cidadania", de Herbert de Souza e Carla Rodrigues
Em uma conversa franca, humana e profundamente atual, Herbert de Souza, o Betinho, convida o leitor a retomar as rédeas da história. Esta obra nasceu no coração do movimento que mudou a cara do Brasil nos anos 1990. Enquanto a Ação da Cidadania contra a Fome, a Miséria e pela Vida mobilizava o país de ponta a ponta, ele refletia, nestas páginas, sobre o fim da apatia social como o primeiro passo para uma democracia de verdade.

Esta reedição do livro chega num momento em que o Brasil e o mundo estão efervescentes de conflitos sobre ética e política entranhados na vida de todos. Este é o livro ideal para quem deseja transformar solidariedade em ação política. O sociólogo Betinho convida à ação e à retomada da responsabilidade coletiva, mostrando que o fim da apatia é essencial para uma democracia real.

Betinho descomplica conceitos que muitas vezes parecem distantes, mostrando que a ética não é apenas um ideal, mas o alicerce da política e da convivência social. Ele nos lembra que a política vai muito além das urnas, acontecendo na mesa de jantar, na escola e na forma como escolhemos não ignorar a fome do vizinho. “Ética e Cidadania” é um chamado para quem deseja transformar solidariedade em ação política e acredita que organização popular e compromisso ético podem enfrentar as injustiças históricas do nosso povo. Um livro para quem tem fome de mudança e pressa de viver. “Não existe democracia sem liberdade, igualdade, participação, solidariedade e diversidade, que é reconhecer e admitir as diferenças, saber que se pode ser igual ao outro, mas distinto” – Herbert de Souza, o Betinho. Compre o livro "Ética e Cidadania" neste link.


“Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”, de Sylvia Moretzsonhn 
“A mentira constante não serve apenas para enganar – seu verdadeiro propósito é destruir a própria noção de verdade. Quando um povo já não consegue distinguir entre o real e o falso, também perde a capacidade de discernir entre o bem e o mal. E um povo assim, desarmado do pensamento crítico, torna-se presa fácil para qualquer poder que deseje controlá-lo”, diz o texto de Hannah Arendt que integra o prefácio da nova obra de Sylvia Moretzsohn.

Atualmente, estamos sob um verdadeiro "tiroteio" de desinformação. Em uma era dominada por algoritmos de redes sociais, avanços da Inteligência Artificial e a velocidade frenética do jornalismo em tempo real, distinguir o fato da manipulação tornou-se um desafio cotidiano. Neste livro, a jornalista e pesquisadora, voz fundamental na crítica de mídia brasileira, oferece as ferramentas necessárias para romper essa barreira. A obra aplica os fundamentos da análise do discurso para ensinar o leitor a ler nas entrelinhas das notícias, revelando os interesses e as intenções que muitas vezes permanecem ocultos por trás das matérias jornalísticas.

“Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação”  ajuda a navegar em um universo dominado por fake news, um espaço onde informação e manipulação se entrelaçam. É uma leitura essencial para qualquer pessoa que deseje compreender como identidade e poder se confrontam no campo da informação. "Vivemos no contexto que se convencionou chamar de “pós-verdade” – a rigor, uma radicalização do relativismo pós-moderno que ganhou força décadas atrás – em que as crenças prevalecem sobre as evidências", diz a autora.

 Sylvia Moretzsohn é referência nacional em ética no jornalismo, com trajetória consolidada como pesquisadora, professora universitária da Universidade Federal Fluminense e autora de obras fundamentais sobre crítica de mídia, como “Jornalismo em Tempo Real: O Fetiche da Velocidade”  e “Pensando contra os fatos: jornalismo e cotidiano - Do Senso Comum ao Senso Crítico”. Compre o livro "Eles Não Querem que Você Saiba - Armadilhas da Desinformação" neste link.

terça-feira, 26 de maio de 2026

.: Crítica: "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" é terror com mocinho desagradável



Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em maio de 2026


O terror psicológico "Hokum: O Pesadelo da Bruxa", dirigido e roteirizado por Damian McCarthy ("Oddity - Objetos Obscuros", "Madame Teia"), mergulha no folclore irlandês para entregar uma história de perdão entre mãe e filho. Contudo, um alerta precisa ser dado logo a princípio, uma vez que o protagonista, o romancista Ohm Bauman (Adam Scott, "Big Little Lies") de postura constantemente grosseira, age sempre de modo desagradável. Ainda que esteja sozinho e em outro país para espalhar as cinzas de seus pais, impede o público de torcer por sua sobrevivência numa pousada mal-assombrada por uma bruxa que arrasta correntes.

A qualidade da trama e a montagem repleta de sequências de pura tensão tornam a produção perfeita para os fãs do gênero. Muito por priorizar o desconforto psicológico por meio de silêncios e a desconstrução da realidade do protagonista em detrimento de soluções narrativas fáceis. No entanto, "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" segue uma fórmula para assustar o público, o que vira alerta a ponto de permitir que alguns sustos sejam evitados.

Em certos pontos o longa se conecta com outros. Remete ao clássico "O Chamado" pelas figuras usadas, como por exemplo, o círculo nos primeiros minutos da história paralela do longa, embora estabeleça uma maior conexão com o clássico de terror psicológico "O Iluminado", uma vez que o protagonista está isolado e confuso em um hotel assombrado. "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" consegue usar elementos do terror (já conhecidos) a favor. Por fim, consegue ser único.

É inegável que o terror atmosférico de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa" fisga a atenção do público ao colocá-lo para embarcar na desordem mental de Ohm e a dificuldade de lidar com um trauma de infância. Vale muito a pena assistir na telona de cinema e garantir uns bons sustos!


"Hokum: O Pesadelo da Bruxa" ("Hokum"). Gênero: Terror. Direção: Damian McCarthy. Roteiro: Damian McCarthy. Duração: 1h 47 minutos. Classificação Indicativa: 16 anos. Distribuição: Diamond Films. Elenco: Adam Scott, David Wilmot e Florence Ordesh. Sinopse: O terror psicológico e folclore acompanha um romancista de terror que visita uma pousada na Irlanda para espalhar as cinzas de seus pais, sem saber que o lugar tem fama de ser assombrado.

Trailer de "Hokum: O Pesadelo da Bruxa"

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domingo, 24 de maio de 2026

.: "12º Round: A História de Emile Griffith" em nova temporada no TUSP


Com dramaturgia de Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, espetáculo conta a história desse lutador que enfrentou o preconceito ao assumir sua bissexualidade e evidencia como o racismo e a homofobia sempre estiveram presentes no meio esportivo. Foto: Eduardo Filho


Racismo e a homofobia no esporte são pautas levantadas por "12º Round: A História de Emile Griffith", com texto de Sérgio Roveri e direção de Bruno Lourenço, que estreou em 2025 no Sesc Ipiranga. A peça agora ganha uma nova temporada no TUSP - Teatro da USP, de 21 de maio a 14 de junho, com sessões de quinta a sábado, às 20h00, e aos domingos, às 19h00. Em cena, estão Alexandre Ammano, Fernando Vitor e Letícia Calvosa.

Apesar de ter feito uma brilhante carreira no boxe, o caribenho Emile Griffith, passou a enfrentar uma luta contra o preconceito dentro e fora dos ringues ao assumir sua bissexualidade. Traçando um voo panorâmico sobre temas como a violência no mundo do esporte, o racismo, a homofobia e as fronteiras da masculinidade negra, a peça também se propõe a discutir como essas tensões ainda ecoam até hoje na sociedade, abordando as contradições, violências e resistências vividas por corpos dissidentes. 

A estreia do espetáculo contou com importantes personalidades do boxe brasileiro, como Servilho de Oliveira, primeiro brasileiro a conquistar uma medalha olímpica no boxe; Danila Ramos, primeira brasileira negra campeã mundial de boxe; Genival Guerra Gomes, árbitro da Confederação Brasileira de Boxe; Marcela Souza, primeira árbitra brasileira brasileira em uma olimpíada; Márcia Souza, Diretora de Arbitragem da Federação Paulista de Boxe e Fernando Tucori, jornalista e autor da biografia de Adilson Maguila.

Cinco vezes campeão mundial em três categorias de peso diferentes, Griffith foi o primeiro atleta com este perfil a assumir publicamente sua bissexualidade. Sua vida foi profundamente transformada após vencer o combate com Kid Paret, que havia chamado Emile de "bicha" várias vezes em público e, no embate, foi nocauteado e faleceu, numa luta televisionada para todos os EUA em 1962. 

Negro e afro-caribenho, o lutador é uma figura de dimensões épicas, cuja trajetória nos permite discutir o quanto a sociedade contemporânea está — ou não — comprometida com a preservação dos direitos da população LGBTQIAPN+ e negra. O espetáculo busca dar corpo à memória de um herói complexo, que ousou desafiar as regras de seu tempo, um símbolo que rompeu paradigmas e enfrentou o peso do preconceito.

Idealizado pelo ator Fernando Vitor, que interpreta o protagonista, o espetáculo faz parte de uma longa pesquisa com o objetivo de dar luz a histórias queers e negras. “A trajetória de Griffith é uma das maiores histórias do mundo do esporte, e seu desconhecimento é resultado de um longo processo de apagamento de nossa história e nossas identidades. Estamos comprometidos em honrar sua trajetória, destacando o fato de Emile ter se tornado, além de tudo, um ativista da causa LGBTQIAPN+. O espetáculo está na encruzilhada de questões atuais. E num momento histórico onde a luta contra a homofobia e o racismo se fazem tão necessária, resgatar a história de Griffith nos inspira a seguir em frente”, revela.

A peça é encenada em “rounds”, assim como uma luta de boxe, num formato que aproxima o espectador de uma linguagem singular, marcada pela repetição, pelo esforço e pelo esgotamento, elementos que tensionam os corpos em cena e tornam esse “ringue” um constante território de disputa.

A montagem marca a estreia do Coletivo Nocaute, grupo de teatro negro formado por Bruno Lourenço (indicado ao Prêmio Shell de Melhor Ator por ‘Brás Cubas’), Fernando Vitor (‘James Baldwin: Pode Um Negro Ser Otimista?’), Letícia Calvosa (‘Escola Modelo’) e Alexandre Ammano (‘O Avesso da Pele’ e ‘A Máquina’).

“Decidi escrever esta peça principalmente por achar imperdoável que um lutador de sua importância, um ser humano generoso e ativista de tantas e tão belas causas sociais não tivesse gravado seu nome na história. Griffith foi um ser humano excepcional, dentro e fora dos ringues. Senti que a dramaturgia poderia obedecer às regras do Boxe, no intuito de reproduzir o tempo de uma disputa na íntegra. Criei 12 cenas de três minutos, separadas por cenas menores, de um minuto, que correspondem aos intervalos do gongo, com o objetivo de ser fiel ao esporte. A narrativa surge entrecortada, com algumas idas e vindas no tempo, até que o arremate final se dá na última cena, na qual Griffith vive, aparentemente, o que teria sido o melhor dia de sua vida”, adianta Sérgio Roveri.

Neste percurso, a montagem dá voz a personagens reais e ficcionais que orbitam o universo de Griffith — sua mãe; seu maior adversário, Kid Paret; seu namorado; jornalistas e figuras simbólicas — oferecendo uma cartografia afetiva, política e histórica de sua trajetória e seu legado. A peça propõe uma reflexão sobre a complexidade da vida do boxeador, seus dilemas íntimos e os desafios impostos por uma sociedade que marginalizava sua identidade. A encenação busca captar a tensão entre o corpo como máquina de luta e o corpo como espaço de desejo, dor e resistência. O espetáculo conta ainda com projeções de imagens de arquivos em fotos e vídeos, utilizados com a finalidade de conferir verossimilhança às memórias fragmentadas, apresentar os rostos das personalidades reais e estabelecer diálogos entre os diversos tempos históricos.

“Esse foi o maior desafio da minha estreia na direção artística: transformar a luta em linguagem, em dança e em narrativa. E, mais do que isso, dar corpo e voz a uma história que me atravessa. Emile Griffith não é apenas uma figura biográfica, é um ancestral. Um campeão mundial praticamente apagado do nosso imaginário por conta da homofobia. Como é possível que saibamos tanto sobre Muhammad Ali, Pelé, Michael Jordan e quase nada sobre Griffith? Achei que essa lacuna precisava ser preenchida. Através da tensão entre elegância e violência, o espetáculo se constrói como uma espécie de teatro-documentário com uma pegada pop. A trilha sonora, marcada por clássicos do cinema, contribui para esse clima híbrido entre o real e a memória, entre o ringue, o vestiário e o clube noturno”, ressalta Bruno Lourenço.

O texto de “12º Round” foi contemplado em 2015 pelo PROAC (Programa de Apoio à Cultura do Estado de São Paulo) dentro da modalidade Concurso Para Bolsa de Incentivo à Dramaturgia - Criação Literária do Estado de São Paulo, obtendo o segundo lugar na classificação geral entre concorrentes de todo Estado.


Ficha técnica
Espetáculo "12º Round: A História de Emile Griffith"
Idealização de projeto: Fernando Vitor
Direção artística: Bruno Lourenço
Dramaturgia: Sérgio Roveri
Elenco: Alexandre Ammano, Fernando Vitor e Letícia Calvosa
Cenografia, figurino e direção de arte: Maíra Sciuto e Natália Burger
Assistência de cenografia: Matheus Muniz
Iluminação e técnica de luz: Ariel Rodrigues
Preparação de corpo: Tainara Cerqueira
Preparação de voz: Malú Lomando
Consultoria e treinamento de boxe: Wellinton Souza
Vídeo e projeções: Renan Almeida
Direção musical: Bruno Lourenço
Técnico de som: Fernando da Mata
Piano (gravação): Lisi Andrade
Vibrafone (gravação): Lua Oliveira
Sound design: Lua Oliveira
Gestão de projeto: Jéssica Rodrigues
Direção de produção: Natália Burger
Diretor de palco: Gabriel Diniz
Fotos: Rony Hernandes
Identidade Visual: João Vitor Lage
Cenotécnica: Alício Silva, Casa Malagueta
Stand-in: Thamiris Mandú
Apoio: Diamond Sports Brasil


Serviço
Espetáculo "12º Round: A História de Emile Griffith"
Temporada: até dia 14 de junho de 2026
De quinta a sábado, às 20h00; e aos domingos, às 19h00
TUSP - Teatro da USP - Rua Maria Antônia, 294 - Vila Buarque, São Paulo
Ingressos: gratuitos, liberados uma hora antes de cada sessão na bilheteria (sujeito à lotação do espaço), limitados a uma entrada por pessoa
Classificação indicativa: 16 anos
Duração: 70 minutos
Instagram: @12roundteatro
Capacidade: 100 lugares
Acessibilidade: elevadores

.: Espetáculo infantojuvenil "Antes de Dormir" está em cartaz no Sesc Ipiranga


Texto de Liana Ferraz aborda questões delicadas do último ato da infância, como o embate entre medo e a vontade de crescer. Em cena, estão Carol Vidotti, Dom Capelari e Fábia Mirassos. Foto: Luisa Moretti


Pipa descobre que crescer não é uma tarefa fácil no espetáculo infantojuvenil "Antes de Dormir", com texto de Liana Ferraz e direção de Joana Dória, que tem sua temporada de estreia até dia 19 de julho, no Sesc Ipiranga, com apresentações sempre aos domingos, às 11h00. Estrelado por Carol Vidotti, Dom Capelari e Fábia Mirassos, o espetáculo inédito foca questões delicadas do último ato da infância, como o embate entre o medo e a vontade de crescer, a complexidade das escolhas, as mudanças no pensar e no sentir, as chegadas e despedidas. 

Na trama, enquanto os adultos acreditam que as crianças já dormiram, Pipa, Maju e Nada transformam seu quarto em um território fértil para a imaginação, os sonhos, os pesadelos, os medos e as lembranças. Eles imaginam juntos os desafios e delícias de crescer. O tema toca pessoas de várias gerações, com a proposta de reconhecer a riqueza das reflexões das crianças sobre suas emoções e vivências. Contrariando o senso comum, elas não se cansam de nos surpreender com elaborações poéticas e até mesmo psicanalíticas e filosóficas. 

No intuito de não ceder aos hábitos de fruição cada vez mais hegemônicos (minúsculas durações, abordagens superficiais e dispositivos hipnóticos), o espetáculo articula música, composição visual e trabalho corporal como recursos para ampliar a conexão com a história e com a palavra corporificada nesse evento presencial, com frequência analógico e sempre coletivo chamado teatro.


Ficha técnica
Espetáculo "Antes de Dormir"

Idealização e direção: Joana Dória
Dramaturgia: Liana Ferraz
Atuação: Carol Vidotti, Dom Capelari e Fábia Mirassos
Musicista: Clara Dum
Assistência de direção: Manu Nahas
Direção de movimento: Karina Almeida
Iluminação: Henrique Andrade
Direção de arte: Nicolle de Bari
Visagismo: Fábia Mirassos
Direção de criação musical: Dom Capelari
Letras e melodias: Dom Capelari e Liana Ferraz
Arranjos: Dom Capelari e Clara Dum
Técnico e operador de som: Pedro Semeghini
Operador de luz: Henrique Andrade e Manu Nahas
Cenotécnico: Dahora cenografia - José Alves da Hora
Aderecista: Criando Planos
Design gráfico: Manuela Afonso
Assessoria de imprensa: Pombo Correio
Vídeo: Madu Araraki
Fotos: Tomás Franco
Direção de produção: Paula Malfatti
Administração: Marisa Riccitelli Sant’Ana - Superfície de Eventos
Gestão: Malfatti Paciência em Ato


Serviço
Espetáculo "Antes de Dormir"
Apresentações: até dia 19 de julho, sempre aos domingos, às 11h00
Sessão com Libras dia 27 de junho
Sesc Ipiranga - Rua Bom Pastor, 822, Ipiranga
Ingressos: R$ 40,00 (inteira), R$ 20,00 (meia-entrada) e R$ 12,00 (credencial plena) Gratuito para crianças até 12 anos
Vendas on-line em sescsp.org.br ou presencialmente nas bilheterias de qualquer unidade do Sesc São Paulo
Classificação: livre.
Duração: 60 minutos
Acessibilidade: espaço acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

quinta-feira, 21 de maio de 2026

.: Vencedor em Berlim, drama revela como progresso redesenha as relações


Por
Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com

Vencedor do Urso de Prata de Melhor Direção no Festival de Berlim, o filme “Living the Land” chega ao Brasil em estreia exclusiva na plataforma de streaming Reserva Imovision, nesta sexta-feira, dia 22 de maio, interessado em preservar gestos e modos de vida prestes a desaparecer. Dirigido e roteirizado pelo chinês Huo Meng, o longa-metragem mergulha na China rural de 1991 para observar, com rigor quase etnográfico, o impacto das transformações socioeconômicas sobre uma comunidade agrícola.

A trama acompanha Chuang (interpretado por Shang Wang), um menino de dez anos que permanece na aldeia enquanto parte da família migra para os centros urbanos. Ao redor dele, o vilarejo de Bawangtai se reorganiza diante da modernização que chega em ondas: tecnologia, industrialização e novas formas de trabalho começam a redesenhar a paisagem humana e simbólica. No elenco, destacam-se ainda Chuwen Zhang e Zhang Yanrong, que ajudam a compor um mosaico geracional em que tradição e ruptura coexistem em tensão permanente.

Huo Meng, que já havia chamado atenção com seu longa de estreia “Crossing the Border - Zhaoguan”, aprofunda aqui um cinema de observação, marcado pelo uso de não-atores e por uma encenação que dilui as fronteiras entre ficção e documentário. A câmera de Guo Daming percorre os espaços com discrição e horizontalidade, como se recusasse qualquer hierarquia dramática: tudo importa, o plantio, o luto, o casamento, o trabalho coletivo. 

A produção teve estreia mundial na competição oficial do Festival Internacional de Cinema de Berlim de 2025, onde rendeu a Huo Meng o Urso de Prata de Melhor Direção, reconhecimento que consolidou o filme no circuito internacional. Desde então, “Living the Land” vem acumulando recepção crítica amplamente positiva, com 100% de aprovação no Rotten Tomatoes e elogios de veículos como The Hollywood Reporter, que destacou a precisão visual da obra, e Screen Daily, que a classificou como “imersiva e ambiciosa”.

Há também um componente autobiográfico que fica evidente o projeto. O diretor afirmou que buscava retratar o choque entre políticas coletivistas e tradições milenares, além de evidenciar as pressões - sobretudo em relação às mulheres - em um contexto de transição abrupta. Esse olhar se materializa em personagens como Xiuying, cuja trajetória evidencia o peso das estruturas familiares e sociais. Sem concessões ao ritmo acelerado do cinema comercial, “Living the Land” aposta na duração - são mais de duas horas - como estratégia de imersão. 


Ficha técnica
“Living the Land” | “Sheng Xi Zhi Di” (título original) | “Vivendo a Terra” (título em Portugal)
Gênero: Drama. Duração: 2h15. Classificação indicativa: 12 anos. Ano de produção: 2025. Idioma: mandarim. Direção: Huo Meng. Roteiro: Huo Meng. Elenco: Shang Wang, Chuwen Zhang, Zhang Yanrong. Distribuição no Brasil: Autoral Filmes. Cenas pós-créditos: não. Assista na plataforma de streaming Reserva Imovision.

Assine a Reserva Imovision, o streaming que respeita a sua inteligência
A equipe do Resenhando.com acompanha os filmes por meio da plataforma de streaming Reserva Imovision, dedicada ao cinema independente e autoral. Para acessar o catálogo completo, conferir novidades e realizar sua assinatura, o aplicativo da plataforma ou o visite o site oficial neste link. A Reserva Imovision reúne filmes e séries cuidadosamente selecionados, ampliando o acesso a obras que valorizam a diversidade cultural, a reflexão e experiências cinematográficas diferenciadas. Assine a plataforma de streaming Reserva Imovision neste link.

terça-feira, 12 de maio de 2026

.: Estopô Balaio estreia “Reset América Latina” no Sesc Belenzinho


Inédito, o trabalho transforma um cruzeiro de luxo em alegoria da formação latino-americana. A montagem investiga colonialidade, identidade e pertencimento a partir da metáfora da travessia. Foto: Cassandra Mello

O Coletivo Estopô Balaio estreia no dia 14 de maio, no Sesc Belenzinho, o espetáculo "Reset América Latina, terceiro e último trabalho da Trilogia da Amnésia, iniciada com Reset Nordeste (2020) e seguida por Reset Brasil (2023). A temporada segue até 28 de junho, com sessões de sexta à domingo. Premiado ao Shell na categoria Inovação por “A Cidade dos Rios Invisíveis” em 2020, conhecido por suas criações em ruas, praças e trens da CPTM, o grupo da zona leste de São Paulo realiza, agora, um movimento inédito: ocupar um espaço fechado. Entre os nove espetáculos de sua trajetória, apenas um havia sido concebido para palco. A decisão marca uma inflexão estética e estratégica na história do coletivo.

“Estamos trocando de pele em todos os sentidos”, afirma a diretora e atriz Ana Carolina Marinho. “A trilogia é um mergulho para dentro. Investigamos o que esquecemos de lembrar quando inventamos identidades que nos homogeneizam. O nordestino, o brasileiro e agora o latino-americano são construções que encobrem camadas étnicas, raciais e territoriais muito mais complexas”.

A mudança de linguagem dialoga também com o contexto das políticas culturais atuais. Diante de dificuldades crescentes de circulação e financiamento para trabalhos itinerantes, o grupo opta por experimentar um formato que dialogue com os mecanismos institucionais vigentes, sem abrir mão de sua perspectiva crítica. Ao mesmo tempo, o coletivo prepara a inauguração de sua nova sede no Jardim Romano, também na zona leste, instalada em um antigo salão religioso que está sendo transformado em teatro. A abertura está prevista para julho, logo após o encerramento da temporada no Sesc.


Um cruzeiro chamado “Sangue Latino”
Em cena, Reset América Latina se inicia dentro de um cruzeiro de luxo - metáfora do próprio teatro. Um “não-lugar” em águas internacionais, onde passageiros embarcam para viver uma experiência de consumo cultural e identitário.

O primeiro ato assume a forma de um musical: canções populares do imaginário brasileiro conduzem um espetáculo que revisita simbolicamente as grandes navegações e o projeto colonial. Aos poucos, surgem fissuras. Conflitos de classe, raça e pertencimento atravessam dois núcleos de personagens: um casal em ascensão social e um grupo de amigos que ganha uma viagem premiada.

“O cruzeiro atravessa o Atlântico como uma espiral do tempo”, explica o dramaturgo e ator Juão Nyn. “Caravelas, navios negreiros - tudo ecoa nesse percurso. A ideia é questionar essas identidades criadas pelos invasores da terra e perguntar: o que somos antes de sermos latino-americanos?”

No segundo ato, o espetáculo desloca o olhar para os bastidores da embarcação - cozinha, limpeza e maquinário. Trabalhadores exaustos, ainda que financeiramente recompensados, confrontam a sensação de esvaziamento e saque simbólico. Uma disputa em torno de um prato - a “língua” servida aos passageiros - torna-se alegoria da violência histórica sobre território, cultura e linguagem.

Já o terceiro momento rompe com a narrativa realista e avança para uma dimensão imagética e pós-dramática. A figura da cobra - demonizada na tradição cristã e reverenciada em diversas cosmologias indígenas - torna-se eixo simbólico da transformação. Trocar de pele, aqui, é abandonar camadas coloniais para acessar outras temporalidades e cosmovisões.


Ancestralidade crítica
A Trilogia da Amnésia parte da provocação: o que apagamos quando adotamos identidades nacionais ou regionais como essência? Se o conceito de Nordeste tem menos de um século e o de América Latina nasce de projetos coloniais, que histórias anteriores ficam soterradas?

O grupo propõe o que chama de “ancestralidade crítica”: reconhecer que toda identidade é atravessada por disputas e que honrar o passado pode implicar também trair legados violentos. A discussão inclui a branquitude latino-americana e suas estratégias de pertencimento simbólico, tensionando a ideia de uma experiência homogênea no continente.


Elenco e criação coletiva
Pela primeira vez, o Estopô inicia um processo tendo todo o elenco fixo do grupo em cena — Ana Carolina Marinho, Juão Nyn, Dandara Azevedo, Kelly Andrade e Dunstin Farias — acompanhados por quatro intérpretes convidados. Integrantes que não atuam assumem funções de produção, figurino e secretariado.

A dramaturgia é assinada por Lara Duarte, com colaboração do coletivo, assistência de direção de Bárbara Freitas e Direção de Eliana Monteiro. A preparação vocal, corporal e direção de movimentos é de Dudu Galvão e produção de Wemerson Nunes. A identidade visual do espetáculo incorpora desenhos produzidos por crianças do Jardim Romano em oficina artística, reforçando o diálogo territorial que marca a trajetória do coletivo. Montado com recursos do ProAC, Reset América Latina tem previsão de 30 apresentações públicas.

Sinopse
O cruzeiro Sangue Latino, um empreendimento de luxo que promete conduzir seus passageiros por uma travessia festiva e musical pelo imaginário Latino Americano, enfrenta uma pane silenciosa por causa de uma maraca na tubulação. A partir desse curto-circuito, diferentes núcleos entram em choque, reunindo cozinha, maquinário, limpeza, saguão e passageiros, e revelando as fissuras que sustentam esse projeto colonial. A narrativa passa a assumir contornos cada vez mais absurdos e melodramáticos, tensionando privilégios, expectativas e os limites da empatia. À medida que identidades se confundem e papéis sociais se deslocam, o espetáculo expõe como os projetos coloniais seguem operando no presente, ao mesmo tempo em que sugere a existência de um plano em curso, uma estratégia em movimento, uma possibilidade de levante indígena.

Marcando a segunda experiência do coletivo na caixa cênica, Reset América Latina desloca para o espaço fechado do teatro uma pesquisa antes realizada em diálogo direto com a cidade, e se pergunta como trazer o território para dentro do cruzeiro, convidando o público a embarcar em uma viagem satírica sobre o que constitui a identidade Latino Americana.


Ficha técnica
Espetáculo "Reset América Latina"
Direção geral: Eliana Monteiro
Diretora assistente: Bárbara Freitas
Idealização e criação: Coletivo Estopô Balaio
Dramaturgia: Lara Duarte com colaboração do Coletivo Estopô Balaio
Textos: Ana Carolina Marinho, Bárbara Freitas, Eliana Monteiro, Dandara Azevedo, Dunstin Farias, Juão Nyn, Keli Andrade, Lara Duarte, Wescritor
Direção de movimentos e preparador corporal: Dudu Galvão
Direção e produção musical: Dani Nega
Criação musical: Coletivo Estopô Balaio e Dani Nega
Produção musical - Show de abertura: Dani Nega e Pipo Pegoraro
Canções originais: elenco
Arranjos de voz: Dudu Galvão
Elenco Estopô Balaio: Ana Carolina Marinho, Dandara Azevedo, Dunstin Farias, Keli Andrade, Juão Nyn
Elenco convidado: Adyel Kariú Kariri, Hayla Cavalcanti, Potira Marinho, Wescritor
Desenho de luz: Guilherme Bonfanti
Operação de luz: Yasmin Ebere
Operação e design de som: André Papi
Videografia: Bianca Turner
Operação de vídeo mapping: Julia Ro, Laura Do Lago E Bianca Turner
Concepção de cenografia: Eliana Monteiro
Assistente de cenografia E Desenho Técnico: José Fernando Bicudo
Cenotécnico: Zé Valdir
Criação e concepção de figurinos: Mara Carvalho
Confecção, Modelagem e costura: Silvana Carvalho
Adereços: Rafa Giz e Zé Valdir
Identidade visual: Daniel Torres
Contrarregras: Lisa Ferreira, Muri Palma, Mauro José e Rafael Alcantara
Montadores: Mauro José, Rafael Alcantara
Assessoria de imprensa: Márcia Marques - Canal Aberto
Secretaria: Lisa Ferreira
Mídias sociais: Jorge Ferreira
Fotografia e câmera: Cassandra Mello
Direção de produção: Wemerson Nunes
Assistente de produção: Muri Palma
Produção : Wn Produções e Bela Filmes Produções
Realização: Coletivo Estopô Balaio e Sesc São Paulo
Acessibilidade: Libras e Audiodescrição (Consulte Datas)
Agradecimentos: Teatro de Contêiner Mungunzá (Cia Mungunzá), Cia Antropofágica (Teatro Pyndorama), Cia Livre (Casa Livre), Cooperativa Paulista de Teatro, Casa Faroffa, Galpão do Folias, Complexo Funarte, Teatro Flávio Império, SP Escola de Teatro, Teatro da Vertigem e aos moradores do Jardim Romano.

Serviço
Espetáculo "Reset América Latina"
Data: 14 de maio a 28 de junho, às sextas e aos sábados, às 20h30, e, aos domingos, às 17h30
Estreia 14 de maio, quinta-feira às 20h30.
Sessões especiais nos dias 16 e 17 de maio, durante a Semana S: retirada de ingressos dia 15/5 a partir das 14h online. Gratuito
Sessões especiais nos dias 23 e 24 de maio, durante a Virada Cultural retirada de ingressos um dia antes a partir das 15h online. Gratuito
Acessibilidade
Interpretação em Libras nos dias: 24/05, 29/05, 06/06, 14/06, 20/06 e 28/06.
Audiodescrição nos dias: 07/06, 12/06 e 21/06.
Local: Sesc Belenzinho - R. Padre Adelino, 1000 - Belenzinho, São Paulo, SP
Ingressos: R$60,00 (inteira); R$30,00 (meia-entrada); R$18,00 (Credencial Plena).
Vendas no portal sescsp.org.br e nas bilheterias das unidades Sesc.
Local: Sala de Espetáculos I (130 lugares). Duração: 120 min. Classificação: A partir de 12 anos.


Sesc Belenzinho
Rua Padre Adelino, 1000. Belenzinho – São Paulo (SP)
Telefone: (11) 2076-9700 | sescsp.org.br/Belenzinho
Estacionamento: De terça a sábado, das 9h às 21h. Domingos e feriados, das 9h às 18h. 
Valores: Credenciados plenos do Sesc: R$8,00 a primeira hora e R$3,00 por hora adicional. Não credenciados no Sesc: R$17,00 a primeira hora e R$4,00 por hora adicional.
Transporte Público: Metrô Belém (550m) | Estação Tatuapé (1400m)

sábado, 9 de maio de 2026

.: "Onde Moram os Livros? Bibliotecas do Brasil" de Daniela Chindler é lançado


Há 15 anos, quando Daniela Chindler começou a pesquisar a histórias das bibliotecas, ela não podia imaginar a repercussão que alcançaria seu trabalho. Em 2012, a autora lançou o título “Bibliotecas do Mundo”, que recebeu o prêmio Malba Tahan de Melhor livro informativo para crianças e jovens pela FNLIJ e logo foi adaptado para o teatro. A peça foi apresentada em escolas, teatros e teve o privilégio de ser encenada na entrada da Biblioteca Nacional! Em 2017 a autora voltou seu olhar para as nossas fronteiras e escreveu “Onde Moram os Livros? Bibliotecas do Brasil”. 

Rapidamente a edição se esgotou e o texto foi também adaptado para a cena e a peça foi apresentada em três estados: Rio de Janeiro, Maranhão e Pará. Agora “Onde moram os livros? "Bibliotecas do Brasil” ganha uma nova edição pela Editora Sapoti. O livro já chega apostando na democratização do acesso à cultura: kits com 20 exemplares serão distribuídos para 49 escolas públicas - e mais a biblioteca da Rede da Maré, e o projeto conta com o apoio dos Institutos Parceiros da Educação Rio e Frevo. O objetivo é estimular que os estudantes leiam o livro nas salas de leitura. 

 “Onde Moram Os Livros? Bibliotecas Do Brasil” é um convite para os leitores viajarem pelo Brasil explorando a arquitetura, os mistérios, as curiosidades e as coleções de seis bibliotecas. A viagem começa pelo Rio de Janeiro, pelo suntuoso palácio construído para abrigar a Biblioteca Nacional e o edifício do Real Gabinete Português de Leitura, considerada uma das bibliotecas mais lindas do mundo. Depois é a vez de conhecer, em São Paulo, a Biblioteca Mário de Andrade, um enorme prédio que reflete a cidade que não para de crescer. Representando o Nordeste está a Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia e, subindo mais no mapa, no Norte, a Biblioteca Pública do Amazonas, que promove uma visita à efervescência de Manaus, a capital do Amazonas, durante o ciclo da borracha. De lá, a viagem continua pelo Sul do Brasil, na Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul, conhecida por ser uma caixinha de joias. 

Para essa aventura literária, a escritora Daniela Chindler contou com a colaboração de seis personagens que são os mestres de cerimônia. Cada lugar tem um personagem que recebe o leitor na porta e segue como um guia, descortinando a sua história. No Real Gabinete Português de Leitura, ali na página 38 Luís de Camões, o próprio poeta, vai contar suas aventuras e desventuras enquanto passeia pelas estantes desta casa portuguesa com certeza. Já na página 76 é a vez do escritor modernista Mário de Andrade - de gravata amarela e chapéu de aba meio larga enterrado na cabeça - conduzir os leitores pela torre de 22 andares, que foi um dos primeiros “arranha-céus” da cidade, nos anos 1930, quando São Paulo estava começando a crescer “para cima”.

Este é um livro feito a muitas mãos. Além dos personagens, a autora convidou um time de ilustradores premiados. Da Bahia vem Amma; do Sul Bruna Assis Brasil; de São Paulo, Catarina Bessell e Giovanna Cima; e do Rio de Janeiro, Camilo Martins. Aliás no finalzinho do livro tem uma página dupla com uma mini bio dos artistas.

Falamos de seis bibliotecas, mas são sete capítulos! A escritora reservou o último capítulo do livro para apresentar uma biblioteca que ainda não existe com tijolos e concreto, mas já é um sonho para muita gente: A Biblioteca dos Saberes que será erguida em 2027 na Pequena África, colada na Passarela do Samba e de frente ao monumento do Zumbi dos Palmares, no Rio de Janeiro. O espaço tem projeto assinado por Diébédo Francis Kéré, o primeiro arquiteto do continente africano a receber o prestigiado Prêmio Pritzker de Arquitetura (2022), considerado o "Nobel" da área. Neste capítulo estão Kéré, Zumbi dos Palmares, Heitor dos Prazeres e o povo originário Tupinambá. Compre os livros de Daniela Chindler neste link.


Sobre a autora
Daniela Chindler é autora das visitas teatralizadas da Academia Brasileira de Letras elaboradas para o centenário ABL, projeto que, por conta do sucesso, ficou 15 anos em cartaz e que rendeu outros projetos como a visita teatralizada no Theatro Municipal, em 2025. A autora foi curadora da programação infantojuvenil de várias edições da Bienal do Livro no Rio de Janeiro, da Bienal do Amazonas e da Bahia. É idealizadora do projeto de incentivo à leitura, “História além muros” na penitenciária Talavera Bruce que ganhou o Prêmio “Faz Diferença” do Jornal O Globo e é finalista do prêmio “VivaLeitura”. Dentre seus livros publicados, está “Um porto para o mar”, que conta a história da cidade do Rio de Janeiro a partir da Baía de Guanabara. A autora também escreveu sobre cientistas, pintores, viagens a lugares distantes, como a Índia, histórias de imigrantes e outros assuntos.


Biblioteca dos Saberes
A Biblioteca dos Saberes fala da ancestralidade das pessoas negras e homenageia os povos indígenas. No Centro da Biblioteca dos Saberes, está prevista uma torre, que é como uma árvore da vida e seu formato é uma homenagem a um objeto sagrado que ficou por 300 anos longe de casa: um manto Tupinambá. Quando o Museu Nacional da Quinta da Boa Vista pegou fogo, a Dinamarca decidiu devolver um dos mantos e a chegada da peça histórica ao Rio de Janeiro foi emocionante, contou com a vigília de 170 indígenas do povo Tupinambá, incluindo crianças e anciãos, em frente ao prédio do Museu Nacional. Os Tupinambá pediram que o manto fosse exibido em pé.

Biblioteca do Mosteiro de São Bento da Bahia
A biblioteca tombada pelo IPHAN reúne o segundo maior acervo de documentos e livros raros do Brasil. A formação deste acervo começa com a chegada dos primeiros frades beneditinos que aportaram na Bahia na Páscoa de 1582. É uma história que tem personagens como a índia Catarina Paraguaçu. Muitas das informações foram dadas pelos monges em conversas pelo WhatsApp.

 
Biblioteca Nacional
Pedro II doou as fotos que colecionou durante toda a vida para a Biblioteca Nacional. Sua única exigência foi que a coleção recebesse o nome de sua esposa, a imperatriz D. Thereza Christina Maria. As fotos que não estavam em álbuns foram guardadas em caixas e, lá, protegidas nas sombras, ficaram todo esse tempo. Por estarem soltas, elas ficaram meio abauladas e por isso são chamadas carinhosamente de “enroladinhas”. D. Pedro II é o anfitrião da Biblioteca Nacional e brinca que está um pouco amassado porque saiu de uma dessas fotos enroladinhas.
 
Biblioteca Pública do Amazonas
Como a Biblioteca de Alexandria e o Museu Nacional essa biblioteca pegou fogo (em 1945) e do acervo original sobraram apenas 60 livros, que estavam emprestados para uma exposição. É uma biblioteca construída em um exuberante edifício que é um retrato do Ciclo da Borracha.


Real Gabinete Português de Leitura
Esse é o primeiro livro infantil que trata dessa biblioteca eleita uma das mais bonitas do mundo.


Biblioteca Pública do Estado do Rio Grande do Sul
Biblioteca inaugurada em 1922, a sala egípcia lembra a decoração do Salão Assyrio, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro,

 
O inferno
Muitas bibliotecas têm um setor chamado: inferno.  Este setor foi criado pelos bibliotecários para preservar os livros proibidos. Até a biblioteca do Vaticano tem seu setor do inferno. Na Biblioteca Nacional um livro de Santo Agostinho foi condenado ao inferno. É uma edição de “A cidade de Deus”, impressa em 1661. A igreja condenou quem fez os comentários, as notas de rodapé, que foram riscados com uma tinta que tinha ferro em sua composição, enferrujou e começou a perfurar as páginas com o passar dos séculos. Hoje é preciso ter todo o cuidado para folhear esse livro, porque ele pode esfarelar.
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