Por Helder Bentes, escritor e professor.
O que se entende por Neorromantismo, no âmbito da literatura, é uma obra que fora produzida e publicada depois do período oficial do Romantismo literário, ou seja, posterior à segunda metade do século XIX. Eu, porém, defendo a tese de que seja Neorromântica toda arte que, posterior à oposição entre os estilos romântico e realista, traga à reflexão o aspecto lúdico entre a fuga romântica da realidade e o compulsivo confronto realista com ela. Ontem assisti a "Um Verdadeiro Cavalheiro", e lembrei-me desse querido pensamento meu.
O filme é turco, foi lançado em 2024 e está no catálogo da Netflix desde setembro de 2025. O título não parece interessante, mas o verdadeiro cavalheiro a que ele se refere é o jovem Saygin (lê-se Saigon), interpretado pelo ator Çağatay Ulusoy, um verdadeiro gato, antes de ser um verdadeiro cavalheiro. Saygin é órfão. Sua mãe morrera queimada num incêndio em sua casa, quando ele era criança.
Abandonou a escola porque ficou traumatizado. Se não estivesse na escola à hora do incêndio, sua mãe talvez estivesse viva. Cresceu com esse pensamento tóxico na cabeça. Todo o conhecimento adquirido ao longo da vida era empírico. Ele passou a se prostituir para sobreviver e levou junto seu irmão mais velho (Haki Biçici) que não era tão bonito quanto ele, mas ele ensinava ao irmão as artimanhas da sedução adquiridas ao longo de sua experiência como acompanhante de luxo. Ele tem um caso secreto com uma mulher casada que o banca (Şenay Gürler). Essa mulher tem uma filha tímida e que se acha feia. Saygin tenta unir a filha de sua amante a seu irmão e acaba se apaixonando de verdade pela amiga dela, Nehir (Ebru Şahin).
A partir daí começam os complicadores desse drama romântico, mas também realista, porque derruba por terra a máscara dos casamentos aparentemente bem sucedidos, a abertura das relações “monogâmicas” para os relacionamentos extraconjugais, a mercantilização do ser humano, dos padrões de beleza, do sexo, o imperialismo do desejo, a compulsão das circunstâncias, a imposição da realidade e sua rota de colisão com os ideais pequeno-burgueses, a dor humana e os traumas de infância que se acumulam e vão desenhando nosso destino.
Eu não vou aqui contar como o filme acaba, mas o desfecho dessa história revela a psicoadaptação necessária à realidade e como os recomeços têm o potencial de renovar as oportunidades. Não é o melhor filme do mundo. Mas para quem gosta de romances com pitadas de realidade, uma boa fotografia e de ver atores de beleza industrializada em cena, valem a pena as quase duas horas de exibição. Eu gostei.












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