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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

.: Crítica: "Verity" fisga pelo talento do elenco, mas se perde na pegada erótica

Imagem de  "Verity"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em outubro de 2026


Uma escritora desconhecida do grande público consegue a chance na carreira literária, mas como ghost writer (escritor-fantasma) de um nome de sucesso estrondoso. No suspense psicológico "Verity" com Anne Hattaway, Josh Harnett e Dakota Johnson, adaptado do livro de mesmo nome da escritora norte-americana Colleen Hoover ("É Assim Que Acaba"),um a profissional da escrita é contratada para seguir na produção de novos livros da queridinha Verity (Anne Hattaway, "Instinto Materno"). Assim, Lowen (Dakota Johnson, de "Madame Teia") ingressa mna trama ao aceitar organizar anotações da grande escritora, sem receber crédito público ou assinatura pela autoria da obra, mas embolsando uma grande bolada.

O longa começa de modo forte e num encontro ao acaso, porém tremendamente medonho entre Jeremy (Josh Harnett, de "Oppenheimer" e "Armadilha") e Lowen. O resultado é uma forte tensão entre os dois quando o destino consegue uni-los novamente, mas tendo como desculpa uma excelente oportunidade de trabalho. Embora considere por minutos recusar, Lowen aceita a proposta ao assinar um contrato de confidencialidade. Assim, vai passar alguns dias na casa da família Crawford.

Neste jogo de contar e recontar histórias, "Verity" garante bons sustos, mas põe a perder o bom do suspense em nome de pesar a mão em sequências de pegadas eróticas, o que acaba ligando a atriz Dakota Johnson novamente ao sexy "50 tons de cinza", longa que catapultou a filha de Melanie Griffith em Hollywood. Aos fãs de Josh Hartnett também cabe a leve desconfiança em torno das revelações de seu personagem -e parte dela pode ser confirmada.

Embora "Verity" traga a talentosa Hattaway na pele de um personagem inconstante, não espere algo estilo o excelente longa "Instinto Materno". Inicialmente, até se aproxima e faz lembrar, mas conforme a trama se desenrola, acaba parecendo uma releitura de "A Empregada", sem o desfecho desejado e plausível. Uma vez que Lowen mergulha de cabeça nas tragédias da família que vive na casa afastada com um lago adiante -cenário de uma morte dolorosa. 

A brincadeira com os nomes das personagens femininas, a dona da verdade (Verity) que tem em seu caminho alguém mais baixo, considerando as três primeiras letras do nome de Lowen, é uma riqueza que mais impacta na escrita. Assim, ordenando apontamentos de Verity, uma mulher acamada, Lowen passa a desejar ser a outra e suas confusões a levam a um final duvidoso. Infelizmente, a adaptação dirigida por Michael Showalter consegue ser bastante previsível.


Trailer de "Verity"

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

.: Crítica: "A Ilha Esquecida" até lembra "Red", mas foca na amizade e encanta

Imagem de  "A Ilha Esquecida"

Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


A animação que mescla aventura e comédia, "A Ilha Esquecida", entrega colorido de dar inveja nas novas criações Disney, além de estampar os traços artísticos sempre presentes nas produções do mesmo gênero de "Homem-Aranha no Aranhaverso". Da DreamWorks Animation, "A Ilha Esquecida" chega a remeter o também excelente "Red: Crescer é Uma Fera", mas vai além fugindo do realismo, com traços 2D expressivos, dinâmicos e exagerados, inspirados em animes japoneses, o que faz lembrar o sucesso "As Guerreiras do K-Pop", da Netflix.

"A Ilha Esquecida" traz um peso emocional de uma das protagonistas com a avó, como também acontece em "Cara de Um, Focinho de Outro", mas é muito ágil na trama garantino várias reviravoltas. A diferença está no fato de a produção ser focada na amizade e o acerto é em sequência, muito por trazer uma trilha sonora sem defeitos, incluindo "Don't Stop Believin'", "Never Tear Us Apart" e "Nothing's Gonna Stop Us Now", por exemplo. Tanto é que os créditos finais celebra a amizade exibindo fotos reais de amigos e familiares da equipe de produção, em uma homenagem aos temas de memória e amizade do filme.

Sem muita pretensão, a produção de divulgação encabulada, é puro deleite visual e narrativo. Na animação que soma 1 hora e 40 minutos de duração, as melhores amigas Jo e Raissa criam um forte elo desde a primeira topada enquanto aguardavam atendimento da diretora após agirem de modo equivocado em aula. Elas viram adolescentes e quando tudo parecia normal, planos mudam. 

No entanto, as duas se deparam com um portal misterioso que as transporta para a ilha fantástica chamada Nakali. Enquanto vivenciam o que juravam não existir, como por exemplo, criaturas mágicas, Jo e Raissa descobrem a importância da amizade verdadeira de longos anos, uma vez que o preço para voltar para casa são as memórias da relação construída por elas. Por outro lado, juntas elas buscam uma forma de sair do lugar dos sonhos sem que uma esqueça da outra para sempre. Imperdível!


Trailer de "A Ilha Esquecida"




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terça-feira, 29 de setembro de 2026

.: João Guimarães Rosa, o escritor que inventou um sertão universal


Da infância em Cordisburgo à medicina, da diplomacia na Europa às viagens pelo interior de Minas, a trajetória de Guimarães Rosa reúne experiências que alimentaram uma das obras mais singulares da literatura brasileira

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Antes de ser o autor de “Grande Sertão: Veredas”, João Guimarães Rosa foi muitas coisas. Nasceu em Cordisburgo, no interior de Minas Gerais, estudou medicina, trabalhou como médico em cidades pequenas, tornou-se diplomata, aprendeu diferentes idiomas, viveu na Europa e acompanhou de perto acontecimentos políticos que atravessaram o século XX. No meio desse percurso, continuou recolhendo histórias, palavras, costumes e modos de falar.

Setenta anos depois da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, romance mais conhecido dele que volta em edição especial pela Companhia das Letras, olhar para essa trajetória ajuda a compreender por que o sertão de Guimarães Rosa não cabe somente em um mapa de Minas Gerais. A paisagem concreta está lá, com rios, veredas, animais, vaqueiros, jagunços e pequenas comunidades. Ao mesmo tempo, o escritor encontrou naquele universo matéria para falar sobre escolhas, medo, desejo, amizade, violência, fé, coragem e dúvidas que acompanham Riobaldo durante toda a narrativa.


Um menino entre histórias e palavras
Nascido em 27 de junho de 1908, em Cordisburgo, João Guimarães Rosa era o primeiro dos sete filhos de Florduardo Pinto Rosa e Francisca Guimarães Rosa. O pai mantinha uma venda próxima à estação ferroviária, ponto de passagem de tropeiros, viajantes, comerciantes e moradores da região. O menino cresceu cercado por histórias que chegavam com essas pessoas. O contato com vaqueiros, tropeiros, caçadores e viajantes alimentou uma atenção especial para a fala e para as narrativas populares, algo que décadas depois apareceria de maneira radicalmente elaborada na literatura dele.

A relação com os idiomas também começou cedo. Guimarães Rosa aprendeu francês de forma autodidata antes dos sete anos e posteriormente estudou holandês e alemão. Ainda jovem, mudou-se para Belo Horizonte para morar com o avô materno. A facilidade com línguas se tornaria uma das marcas da trajetória dele, que não tratava o idioma apenas como instrumento de comunicação. Na literatura escrita por ele, palavras regionais, arcaísmos, neologismos e diferentes registros da fala convivem em uma escrita que exige do leitor atenção para o som, o ritmo e o significado.


O médico que conheceu o interior
Entre 1925 e 1930, João Guimarães Rosa estudou medicina na Universidade de Minas Gerais. Entre seus contemporâneos estavam Pedro Nava e Juscelino Kubitschek. Formado, começou a trabalhar como médico em Itaguara, onde atendia moradores da região e fazia visitas pelo interior a cavalo. A experiência foi decisiva para o contato direto com um universo rural que mais tarde seria reelaborado em sua ficção. O médico precisava conhecer pessoas, ouvir relatos, observar doenças, costumes, crenças e maneiras de viver. O escritor, anos depois, faria algo parecido com a linguagem.

Em 1930, Rosa casou-se com Lygia Cabral Penna, com quem teve duas filhas, Vilma e Agnes. A medicina, porém, não permaneceu como profissão principal. Depois de experiências durante a Revolução Constitucionalista de 1932 e de um período como médico da Força Pública, Rosa decidiu prestar o concurso para a carreira diplomática. A mudança de rumo levaria o futuro autor de “Grande Sertão: Veredas” para longe de Minas Gerais.


Entre o sertão e o mundo
A diplomacia ampliou o território de João Guimarães Rosa. Em 1938, já separado de Lygia, Rosa seguiu para Hamburgo como cônsul-adjunto do Brasil. Foi na Alemanha que conheceu Aracy Moebius de Carvalho, conhecida como o Anjo de Hamburgo, funcionária do consulado que se tornaria sua segunda esposa. A relação dos dois atravessaria as décadas seguintes e acompanharia uma das fases mais importantes da trajetória literária do escritor.

Durante a permanência na Alemanha, os dois participaram da emissão de vistos para pessoas perseguidas pelo regime nazista, contrariando restrições impostas pelo governo brasileiro da época. A experiência europeia colocou o escritor em contato com outra realidade histórica, distante geograficamente do sertão mineiro, mas igualmente marcada por conflitos humanos e políticos.

A carreira diplomática ainda o levaria a outros países e ampliaria o contato dele com culturas, línguas e tradições literárias. Essa circulação ajuda a entender uma característica importante da obra roseana: embora profundamente ligada ao interior brasileiro, a literatura de Rosa nunca se limita a uma representação regional. Em entrevista ao portal Resenhando.com, o professor e pesquisador Pedro Süssekind chamou atenção para essa dimensão. Ao comentar “Grande Sertão: Veredas”, afirmou que considerar Rosa simplesmente um “homem do sertão” poderia reduzir a obra dele. Para ele, o próprio escritor reconhecia essa ligação, mas acrescentava que ela era essencial, e não apenas biográfica.


“O sertão é do tamanho do mundo”
A frase, dita por Riobaldo no romance “Grande Sertão: Veredas”, acabou se tornando uma das chaves possíveis para compreender a dimensão da obra. Em 1952, Rosa fez uma das viagens mais importantes para a construção do livro. Durante dez dias, acompanhou oito vaqueiros em uma travessia pelo sertão de Minas Gerais, conduzindo cerca de 180 cabeças de gado até Araçaí. A viagem foi registrada em cadernos que posteriormente serviriam de material para “Corpo de Baile” e “Grande Sertão: Veredas”. O escritor anotava palavras, expressões, nomes de lugares, comportamentos, histórias e detalhes do cotidiano. 

A experiência reforçou uma relação que já vinha desde a infância: observar o sertão diretamente para depois reinventá-lo pela literatura não era um simples registro documental. Guimarães Rosa recolhia elementos concretos e os transformava por meio da linguagem, misturando experiência, memória, invenção e reflexão. O sertão reconhecível permanece no texto, mas passa a carregar outras dimensões. É por isso que Riobaldo pode falar de jagunçagem, batalhas, rios, fazendas e veredas enquanto pensa sobre Deus, o amor, a morte, o destino e a possibilidade de fazer escolhas.


1956: o ano de “Grande Sertão: Veredas”
O ano de 1956 foi particularmente movimentado para Rosa. “Corpo de Baile” começou a ser vendido em fevereiro. Meses depois, o escritor entregou à Editora José Olympio os manuscritos de “Grande Sertão: Veredas”. O romance chegou às livrarias em julho e rapidamente provocou forte repercussão crítica. A obra permaneceu durante meses entre os livros mais vendidos, ao mesmo tempo em que despertava debates sobre a estrutura, a linguagem e a maneira como o livro reinventava a tradição do romance brasileiro.

Guimarães Rosa já havia publicado “Sagarana”, em 1946, livro que recebera elogios de nomes como Paulo Rónai, Sérgio Milliet, José Lins do Rego, Graciliano Ramos e Antonio Candido. Com “Grande Sertão: Veredas”, porém, alcançaria uma dimensão ainda maior. A trajetória posterior também ganhou um capítulo importante quando foi eleito, por unanimidade, para a Academia Brasileira de Letras em 1963. Ele adiou a posse durante anos e só assumiu a cadeira em 16 de novembro de 1967. Três dias depois, morreu, aos 59 anos, vítima de um ataque cardíaco.


Um escritor que deixou o livro aberto
A morte de João Guimarães Rosa ocorreu pouco depois da entrada dele na Academia, mas “Grande Sertão: Veredas” continuou a produzir novas leituras, adaptações e interpretações. Setenta anos depois da publicação, a obra permanece cercada por pesquisadores, escritores, artistas e leitores que encontram nela questões diferentes.

Pedro Süssekind, autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, defende que um clássico precisa continuar sendo lido como literatura viva, e não tratado como peça de museu. Para ele, cada nova leitura pode recolocar o romance em circulação e permitir que leitores de diferentes épocas encontrem outras possibilidades na narrativa.

Essa perspectiva ajuda a compreender por que a biografia de Guimarães Rosa interessa tanto quando se fala de “Grande Sertão: Veredas”. O livro reúne o menino que escutava histórias em Cordisburgo, o médico que percorreu o interior, o diplomata que viveu na Europa, o estudioso de idiomas e o escritor que voltou ao sertão para registrar em cadernos aquilo que depois seria transformado pela ficção.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

.: Crítica: "Coração Selvagem" é um "Sempre Ao Seu Lado" de aventuras

Imagem de "Coração Selvagem"


Por: Mary Ellen Farias dos Santos, editora do Resenhando.com

Em setembro de 2026


O longa de aventura "Coração Selvagem" (Heart of the Beast), estrelado por Brad Pitt ("Trem-Bala", "F1 - O Filme") com participação de J.K. Simmons ("Homem-Aranha", 2002) e de Anna Lambe (The Grizzlies) entrega a potência que um cachorro pastor-alemão Odin (Uber) é capaz de imprimir numa história de amor e parceria. A produção dirigida por David Ayer de fotografia impecável trabalha o desenvolvimento da sensibilidade e sintonia entre um homem e um animal. 

O intenso drama de sobrevivência começa quando uma moça na estrada tem seu caminho "pausado" por um cachorro. Dali, em diante o público vivencia a aventura de sobrevivência do ex-agente das forças especiais James Belmont (Brad Pitt) ao lado de seu cão de combate aposentado, o pastor-alemão Odin (interpretado pelo cão Uber). Após esbarrar no andarilho Witkins (J. K. Simmons) e ser avisado sobre a tempestade que estava vindo, James e Odin acabam perdidos no Alasca após um acidente aéreo.

No entanto, Odin sofre de estresse pós-traumático tendo pesadelos de guerra, assim como seu parceiro James. Logo, o sofrimento dos dois vira um. Humanizando o cachorro e colocando-o no posto de um autêntico veterano de combate. Em enquadramentos amplos de uma natureza digna de ser apreciada com alegria, a telona do cinema enche os olhos do público com encontros animais. Seja a tensão pura diante de um urso ou quando lobos atacam de modo coordenado a dupla.

"Coração Selvagem" consegue ser uma nova leitura do clássico "Sempre Ao Seu Lado" (2009), com adrenalina, mas passa longe da cidade e seus deveres agitados, pois é repleto de pesadelos do passado e aventuras em busca de sobrevivência na natureza indomada. É notório que Brad Pitt entrega interpretação intensa e teatral, ainda que por vezes tenha seu brilho roubado pelo carisma e olhar expressivo do cachorro. Vale a pena conferir!


Trailer de "Coração Selvagem"


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Edição especial da Companhia das Letras revisita o romance de João Guimarães Rosa com material inédito e reafirma a vitalidade de um livro que atravessou gerações, leitores, linguagens e diferentes formas de interpretação

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para o portal Resenhando.com. 

Setenta anos depois de chegar às livrarias, “Grande Sertão: Veredas” continua encontrando novos caminhos para chegar aos leitores. O romance de João Guimarães Rosa, publicado originalmente em 1956, ganhou em 2026 uma edição especial pela Companhia das Letras, que recupera parte da história editorial do livro e acrescenta novos olhares a uma obra que permanece aberta a interpretações, releituras e descobertas. A comemoração vem acompanhada de um novo projeto gráfico, capa criada a partir de uma obra da artista mineira Sonia Gomes e um ensaio inédito do pesquisador Érico Melo sobre o percurso dos rascunhos até a forma final do romance. 

O volume também reúne depoimentos de escritores, artistas, críticos e leitores contemporâneos influenciados pela literatura de Rosa, entre eles Mia Couto, Alison Entrekin, Caetano W. Galindo, Eduardo Giannetti, Milton Hatoum, Bia Lessa, Ana Martins Marques, Geovani Martins, Amara Moira, Silviano Santiago, Heloisa Murgel Starling e Itamar Vieira Junior. A escolha dos nomes já indica uma das características mais interessantes da permanência de “Grande Sertão: Veredas”: o livro não pertence a uma única geração, escola literária ou maneira de ler, já que continua provocando escritores com experiências muito diferentes, pesquisadores, artistas e leitores que chegam ao romance décadas depois da primeira edição.

Pedro Süssekind, professor titular da Universidade Federal Fluminense e autor de “O Mar, o Rio e a Tempestade: sobre Homero, Rosa e Shakespeare”, resume uma das razões dessa permanência ao lembrar uma formulação de Italo Calvino: um clássico é um livro que nunca terminou de dizer o que tinha para dizer. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Süssekind também rejeitou a ideia de que “Grande Sertão: Veredas” deva ser tratado como peça de museu ou como um livro reservado aos especialistas. Para ele, cada nova leitura tira o romance do pedestal e o coloca novamente em movimento. “Um livro fechado não tem vida, um livro já entendido não precisa ser relido”, afirmou. É uma chave interessante para entrar nos 70 anos do romance. Afinal, “Grande Sertão: Veredas” atravessou sete décadas porque nunca se deixou encerrar por uma única explicação.


Um mundo que cabe no sertão
João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 1908. Médico, diplomata e escritor, teve uma trajetória que passou por diferentes territórios antes de desembocar na literatura que o consagraria. Publicou “Sagarana” em 1946, depois de uma primeira experiência literária com “Magma”, e nos anos seguintes construiu uma obra marcada pela invenção linguística, pela oralidade, pela observação do sertão e por uma relação muito particular entre realidade e imaginação.

Em 1952, quatro anos antes da publicação de “Grande Sertão: Veredas”, Rosa percorreu durante dez dias o sertão mineiro acompanhando uma comitiva de vaqueiros. A viagem começou em Cordisburgo e atravessou parte da região do rio São Francisco. Ele registrou a experiência em cadernetas, anotando palavras, paisagens, histórias, nomes, costumes e situações que mais tarde alimentariam a produção literária dele.

O sertão que aparece no romance, portanto, não é apenas uma imaginação distante diante de um mapa. Há nesse lugar uma atmostera que carrega uma experiência concreta de deslocamento, escuta e observação. Ao mesmo tempo, a literatura de Guimarães faz esse território ultrapassar os próprios limites geográficos, o sertão dele é o mundo inteiro. Em entrevista ao portal Resenhando.com, Pedro Süssekind lembra uma das frases mais conhecidas de Riobaldo: “o sertão é do tamanho do mundo”. Para o pesquisador, o sertão roseano não deve ser compreendido apenas como uma região determinada, mas como uma dimensão existencial.

Essa perspectiva ajuda a explicar porque o romance continua encontrando leitores muito além de Minas Gerais. O sertão do autor tem jagunços, rios, veredas, fazendas, guerras e travessias, mas também carrega questões que não ficam presas à geografia: amor, amizade, violência, medo, desejo, morte, fé, culpa, escolhas e a tentativa de compreender o próprio lugar no mundo. Riobaldo narra a trajetória dele como quem tenta reorganizar a própria memória enquanto conta. Diadorim ocupa o centro de uma relação que desafia as certezas do narrador. Os jagunços formam uma espécie de sociedade em movimento, marcada por alianças, conflitos, códigos de honra e disputas. E o sertão, longe de funcionar apenas como cenário, participa da construção dessa experiência.


Uma língua que inventa caminhos
Parte da força de “Grande Sertão: Veredas” está na linguagem. Rosa recolhe expressões populares, regionalismos, palavras arcaicas, construções inesperadas e invenções próprias para produzir uma narrativa que parece nascer da fala de Riobaldo e, ao mesmo tempo, ultrapassá-la. É nesse ponto que o romance pode intimidar quem ainda não o leu. O livro ganhou uma reputação de obra difícil, erudita e até mesmo inacessível. Pedro Süssekind contesta essa distância entre o clássico e o leitor comum. Para ele, a crítica e a pesquisa podem oferecer caminhos de aproximação, desde que não substituam a experiência da leitura.

A questão também aparece no projeto comemorativo de 70 anos. Ao lado da nova edição da Companhia das Letras, a celebração inclui o audiolivro narrado por Caio Blat, com trilha sonora e participações de viola de Ivan Vilela. Em agosto, a editora programou um ciclo de debates em parceria com o Museu da Língua Portuguesa, além de outras ações relacionadas ao aniversário da publicação. A literatura, nesse caso, ganha novas vozes e formatos sem deixar de ser o que é.


O livro que virou muitas obras
Ao longo das décadas, “Grande Sertão: Veredas” saiu das páginas do romance e encontrou outras linguagens. Teatro, televisão, cinema, ensaios, estudos acadêmicos, livros de memória e releituras literárias ajudaram a construir uma espécie de cartografia paralela da obra. Antes mesmo da atual comemoração dos 70 anos, o romance já havia voltado diversas vezes ao centro da programação cultural brasileira.

Em 1985, a TV Globo exibiu a minissérie “Grande Sertão: Veredas”, com Tony Ramos como Riobaldo e Bruna Lombardi como Diadorim. Décadas depois, Bruna Lombardi recuperaria a experiência em “Diário do Grande Sertão”, livro originalmente publicado a partir dos registros feitos durante as gravações e relançado em 2026 pela Autêntica como parte das comemorações dos 70 anos.

A relação entre literatura e audiovisual ganhou outra versão com “Grande Sertão”, dirigido por Guel Arraes e roteirizado por Arraes e Jorge Furtado. A adaptação deslocou a narrativa para uma periferia urbana dominada por organizações criminosas, mantendo no centro personagens, conflitos e relações inspirados no romance de Rosa. Também houve o teatro de Bia Lessa, estudos críticos, oficinas, programas especiais de televisão e expedições pelo sertão mineiro. Em 2023, o “Globo Repórter” refez parte dos caminhos percorridos por Rosa e visitou lugares relacionados ao universo que alimentou a criação do livro. Cada uma dessas experiências acrescenta uma camada à história de “Grande Sertão: Veredas”.


Setenta anos de um livro ainda em movimento
A nova edição da Companhia das Letras chega em um momento em que o romance continua sendo lido, estudado, adaptado e discutido. O aniversário redondo oferece a oportunidade de voltar ao livro, mas também de observar tudo aquilo que se construiu ao redor dele. Há uma cronologia de vida e obra, há os cadernos da viagem pelo sertão, há os manuscritos, as diferentes edições, os estudos críticos, as adaptações, os leitores que se tornaram escritores e os escritores que continuam encontrando Rosa pelo caminho.

Em “Grande Sertão: Veredas”, Riobaldo passa boa parte da narrativa tentando compreender aquilo que viveu. Setenta anos depois, o próprio romance continua produzindo esse efeito em quem se aproxima dele: cada leitura reorganiza o que parecia conhecido e abre uma nova passagem. Talvez seja essa uma das melhores maneiras de celebrar o aniversário de uma obra como essa. Não transformá-la em monumento, mas voltar a atravessá-la nos 70 anos de um livro que continua encontrando leitores, personagens, paisagens, intérpretes e novas formas de existir.

.: "Cansei de Ser Belo" cutuca a vaidade e leva galã de novela ao teatro


Comédia inédita de Emílio Boechat estreia em outubro no Teatro YouTube e acompanha um astro da televisão disposto a abrir mão da própria beleza para conquistar o respeito da crítica. Foto: divulgação

A beleza pode abrir muitas portas. Para Rodrigo Contreiras, personagem de Fernando Pavão em "Cansei de Ser Belo", ela também virou uma espécie de prisão. Galã absoluto das novelas, rosto requisitado por marcas e dono de milhões de seguidores, ele chega a uma conclusão bastante peculiar: se quiser ser levado a sério como ator, terá de acabar com a própria imagem de homem perfeito. Essa é a premissa da nova comédia de Emílio Boechat, que estreia no dia 3 de outubro, no Teatro YouTube, dentro da Galeria Magalu, em São Paulo. Com direção de Kleber Montanheiro, o espetáculo reúne no elenco Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes. A produção é assinada por Boechat e Marília Toledo.

Rodrigo está cansado de ser visto apenas como um "corpo sarado com milhões de seguidores". Na tentativa de conquistar reconhecimento artístico, ele resolve destruir a própria imagem de perfeição e escolhe o teatro como atalho. Afinal, segundo sua lógica bastante conveniente, montar uma peça é mais rápido do que produzir um filme ou uma série. A ideia para a comédia surgiu depois que Emílio Boechat assistiu à leitura de uma peça protagonizada por um conhecido galã de novelas. “Pensei: por que esse homem tão bonito e bem sucedido ainda se dá ao trabalho de fazer teatro? Foi então que eu lembrei que, segundo o filósofo Henri Bergson, a vaidade é o ‘vício cômico’ mais engraçado. A partir disso decidi escrever sobre a vaidade de uma perspectiva diferente”, revela.

A obsessão de Rodrigo pelo reconhecimento chega ao ponto de fazê-lo encarar aquilo que considera o submundo da profissão: o teatro alternativo e experimental. A provocação, porém, não mira esse segmento teatral. Boechat esclarece que a peça volta suas atenções para quem busca prestígio a qualquer preço e enxerga o teatro experimental como um lugar menor. “Nossa crítica é voltada às pessoas que buscam o reconhecimento a qualquer preço, que têm uma visão distorcida de quem são e tratam esse teatro experimental como algo menor, que dá trabalho pra quem ‘não é bonito o suficiente pra fazer televisão’”, comenta.

Erica Montanheiro vê no absurdo uma das principais fontes de humor do espetáculo. “O texto cria situações limítrofes nas quais, dificilmente, alguém iria se colocar. Essas situações criam constrangimento e, ao mesmo tempo, um olhar debochado sobre o ‘ser artista’. E é, através desse deboche, que as fragilidades do fazer artístico são expostas. Em um país como o Brasil - que não valoriza os trabalhadores da cultura - cada vez mais os próprios artistas são responsáveis por criar situações para vender sua imagem”, diz.

Na pele de Rodrigo, Fernando Pavão também enxerga uma conexão direta entre o personagem e a busca contemporânea por visibilidade. “Acho que o texto acerta a mão em cheio ao espelhar esse Rodrigo, um ator que precisa desesperadamente de visibilidade e reconhecimento com o tempo em que vivemos hoje, em que muita gente busca isso via o mundo fantástico das redes sociais. Uma comédia deliciosa onde o universo dos atores e seus exageros é primorosamente retratado”. A direção de Kleber Montanheiro parte do jogo cênico típico da comédia de Boechat e acrescenta uma camada surrealista à encenação. A proposta trabalha o exagero como ferramenta para criar um espelho da sociedade.

Na cenografia e nos figurinos, a ideia é apostar na simplicidade com bastante movimento. “Queremos que a cenografia seja muito simples, mas muito mutante, que tenha elementos que se transformam. Então, eles se transformam numa sala, num escritório, num camarim, quase como um grande contêiner que vai abrindo e dando origem a diferentes espaços físicos. E isso remete um pouco a essa velocidade das redes sociais, quase como uma tela de celular”, comenta o diretor.


Sobre Emílio Boechat
Emilio Boechat tem 35 anos de carreira escrevendo para rádio, teatro, cinema, TV e plataformas de streaming. Junto com Marilia Toledo ganhou o Prêmio Bibi Ferreira de Melhor Dramaturgia Original em Musicais (2023) por "Ney Matogrosso - Homem com H". Já foi indicado aos prêmios Destaque Imprensa Digital (2023 e 2022), Rio Web Fest (2021), Troféu Mambembe (1998) e APETESP (1991). Ao lado dela, escreveu também os musicais "Uma Noite na Broadway", "Silvio Santos Vem Aí" e "Os Dez Mandamentos".

É autor das comédias "Camila Backer Lives in Concert", "Eu era tudo pra ela e ela me deixou"; do longa-metragem "Barraco de Família" e da série "A Secretária do Presidente" (Multishow/Mixer). É co-produtor e head-writer da série "Camila Baker", premiada pela Lei Paulo Gustavo em 2023. Com Miguel Falabella e Rosana Hermann escreveu a minissérie "O Som e a Sílaba" e a 2ª temporada de "O Coro - sucesso aqui vou eu" (Disney+), ainda inédita.

Foi head-writer da segunda temporada da série "Na Fama, Na Lama" (Multishow). Escreveu com Ingrid Guimarães, por três anos, os roteiros do programa "Mulheres Possíveis" (GNT). De 2005 a 2020, foi roteirista da Record TV, onde escreveu novelas e minisséries como "Bela, a Feia", "Rebelde" e "Os Dez Mandamentos".


Sobre Kleber Montanheiro
Multiartista com 30 anos de carreira, Kleber Montanheiro é diretor cênico, cenógrafo, figurinista e artista visual em expografia. Indicado a mais de 25 prêmios (FEMSA, APCA, Shell, Prêmio Bibi Ferreira e Prêmio DID - Destaque Imprensa Digital) em diversas categorias, foi contemplado pela maioria delas.

Entre seus trabalhos de direção estão espetáculos como "Ópera do Malandro", de Chico Buarque de Holanda; "Carmen, a Grande Pequena Notável", de Heloísa Seixas e Júlia Romeu; "Nossos Ossos", baseado no livro homônimo de Marcelino Freire; e "Tatuagem", musical adaptado do filme de Hilton Lacerda, trabalho que recebeu diversas indicações ao Prêmio Bibi Ferreira e lhe rendeu o prêmio APCA de melhor diretor.

Por "Carmen, a Grande Pequena Notável", recebeu o Prêmio São Paulo de melhor figurino. Dirigiu, concebeu e criou cenografia e figurinos do musical da Broadway "Cabaret", de John Kander e Fred Ebb, que cumpriu temporada no 033 Rooftop, do Teatro Santander - SP, recebendo os prêmios Bibi Ferreira de melhor direção e melhor figurino. Em 2025, dirigiu e concebeu o musical brasileiro original "João", indicado a melhor direção nos prêmios Bibi Ferreira, DID e APCA. Em "Gal - o musical", assina a direção e o figurino.


Sobre o Teatro YouTube
O Teatro YouTube ocupa o Conjunto Nacional, em São Paulo, dentro da Galeria Magalu, sob gestão da Aventura Teatros. O espaço aproxima a experiência presencial do universo digital e recebe espetáculos, projetos de criadores de conteúdo elegíveis, iniciativas de marcas e diferentes formatos de interação com o público. A estrutura também comporta transmissões ao vivo, gravações de podcasts e eventos. O local recebe ainda projetos institucionais, como o YouTube Music Nights, série de shows intimistas lançados exclusivamente nos canais dos artistas convidados.


Sobre a Aventura
Fundada em 2008 e liderada por Aniela Jordan, diretora artística e de produção geral, Luiz Calainho, diretor de marketing e negócios, e Giulia Jordan, diretora geral de venues, a Aventura atua na produção de espetáculos e no desenvolvimento do teatro musical no Brasil. A empresa soma mais de 40 produções, entre espetáculos inéditos e versões da Broadway, como "Elis, a musical", "A Noviça Rebelde", "Mamma Mia", "Hair", "Sete", "O Mágico de Oz", "SamBRA", "Chacrinha, o musical", "Romeu & Julieta, ao som de Marisa Monte", "Merlin e Arthur, um sonho de liberdade" e o infantil "Zaquim".

Em 2022, a produtora lançou "Vozes Negras – A Força do Canto Feminino", primeiro musical em formato de série do país, e "Seu Neyla", apresentado em dois palcos com uso da internet para criar uma experiência diferenciada para o público. No mesmo período, estreou a parceria com a Disney-Pixar em "Pixar in Concert". Com a proposta de ampliar o acesso à cultura, a Aventura criou a Cia Stone de Teatro, projeto de teatro itinerante no interior do Brasil, e também responde pela produção da Cia de Ballet Dallal Achcar. Ao todo, são mais de 3,8 mil apresentações, cerca de 4,5 milhões de espectadores e mais de 16 mil empregos diretos e indiretos gerados.


Ficha técnica
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Texto: Emilio Boechat
Direção, cenário e figurino: Kleber Montanheiro
Elenco: Fernando Pavão, Erica Montanheiro, Wilson de Santos e Marcelo Goes
Direção de Produção: Marilia Toledo e Emilio Boechat


Serviço
Espetáculo "Cansei de Ser Belo" 
Temporada: 3 de outubro a 22 de novembro de 2026
Sextas e sábados, às 20h00, e domingos, às 18h00
Teatro YouTube (Galeria Magalu - Conjunto Nacional) - Av. Paulista, 2073 - Bela Vista / São Paulo
Ingressos: R$ 120,00 (inteira) e R$ 60,00 (meia-entrada)
Vendas online: Eventim
Classificação: livre
Duração: 70 minutos
Acessibilidade: teatro acessível a cadeirantes e pessoas com mobilidade reduzida

sábado, 26 de setembro de 2026

.: Novo cinema cruza fronteiras e leva o Brasil de 214 milhões ao mundo


De Berlim a Cannes, de Veneza a Locarno e ao Oscar, filmes brasileiros ampliam sua circulação internacional e mostram como diferentes territórios, personagens e formas de contar o país passaram a integrar a imagem do Brasil no cinema contemporâneo

Por Helder Moraes Miranda, jornalista e crítico de cultura, especial para Resenhando.com

Segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a população do Brasil chegou a 214.211.951 habitantes em 2026. Em um recorte muito específico, Quixadá, no interior do Ceará, pode parecer distante de Berlim, Cannes ou Los Angeles quando se pensa na geografia tradicional do cinema internacional. No entanto, foi justamente de lá que “Feito Pipa” partiu para uma trajetória que resume boa parte do movimento que faz hoje o cinema brasileiro: um filme que evoca memórias do interior cearense, produzido fora do eixo Rio-São Paulo, premiado em um dos grandes festivais do mundo e agora escolhido para representar o Brasil na disputa por uma vaga no Oscar 2027.

Dirigido por Allan Deberton, o filme conquistou dois dos principais reconhecimentos da mostra Generation Kplus, no Festival de Berlim: o Grande Prêmio do Júri Internacional de Melhor Filme e o Urso de Cristal concedido pelo Júri Jovem. A produção também circulou por outros festivais internacionais e chegou a Guadalajara, no México, onde recebeu o Prêmio Maguey de Melhor Filme e outro reconhecimento para sua atuação. Em 16 de setembro de 2026, a Academia Brasileira de Cinema confirmou “Feito Pipa” como representante brasileiro na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar 2027.

A trajetória ajuda a desmontar uma ideia antiga sobre o que precisa acontecer para um filme brasileiro ser visto fora do país. A circulação internacional não começa necessariamente em São Paulo ou no Rio de Janeiro, nem depende de uma história ambientada em grandes capitais. Gugu, personagem de Yuri Gomes, nasce cinematograficamente no sertão cearense e chega a públicos de diferentes países carregando consigo uma experiência muito particular de infância, família, identidade e pertencimento.


O mundo também está olhando para nós
A presença brasileira em festivais internacionais não se resume a um único título. Em 2025, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, levou o cinema brasileiro novamente ao centro do Festival de Cannes. O filme recebeu os prêmios de Melhor Direção, para Mendonça Filho, e Melhor Ator, para Wagner Moura, na competição oficial, além de reconhecimentos paralelos da crítica e de exibidores franceses. A obra foi produzida em coprodução entre Brasil, França, Holanda e Alemanha.

O resultado também chama atenção pela origem do diretor. Kleber Mendonça Filho construiu uma obra profundamente ligada a Recife, ao cotidiano pernambucano e às contradições sociais e políticas brasileiras. Em Cannes, essa produção deixou de ser uma história exclusivamente local para entrar em uma conversa internacional, sem precisar apagar a cidade onde foi concebida.

Em 2026, outro exemplo veio de Pernambuco. “A Margem do Rio”, dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, estreou mundialmente no Festival de Locarno, na Suíça, e foi o único filme brasileiro na disputa pelo Leopardo de Ouro. Poucos dias depois, a produção recebeu o Prêmio Especial do Júri. Ambientado em Recife e centrado no romance entre Izaquiel, auxiliar de serviços gerais, e Jeremias, pescador, o filme levou ao circuito internacional personagens e espaços que também fazem parte de um Brasil distante dos cartões-postais. É uma característica que atravessa boa parte da produção recente: o território deixa de ser simples cenário e passa a participar da identidade do filme. Recife, Quixadá, Marajó, Belo Horizonte, Salvador ou outras cidades e regiões podem estar no centro da narrativa sem que isso seja tratado como uma curiosidade exótica para o público estrangeiro.


“Ainda Estou Aqui” abriu uma porta que continua aberta
Se “Feito Pipa” chega ao Oscar depois de uma passagem internacional construída desde Berlim, o caso de “Ainda Estou Aqui” ajuda a compreender como essa circulação pode se ampliar. O filme de Walter Salles estreou mundialmente no Festival de Veneza de 2024, onde recebeu o prêmio de Melhor Roteiro. Depois, passou por outros festivais, foi escolhido pela Academia Brasileira de Cinema para representar o país no Oscar 2025 e entrou na shortlist da categoria de Melhor Filme Internacional.

A trajetória terminou com um acontecimento histórico: “Ainda Estou Aqui” venceu o Oscar de Melhor Filme Internacional na cerimônia realizada em 2025. A própria Academia registra o Brasil como vencedor da categoria, com o filme dirigido por Walter Salles. Antes da premiação, porém, houve um percurso que começou muito antes da cerimônia. Veneza, Vancouver, Toronto e outros festivais ajudaram a colocar a produção em circulação, enquanto a distribuição internacional ampliou o acesso ao filme em diferentes territórios.

Esse caminho mostra uma diferença importante entre simplesmente produzir um filme e fazer com que ele encontre espectadores fora do país. A seleção para um festival pode abrir portas, mas depois vêm negociações de distribuição, agentes internacionais, imprensa, mercados, mostras, legendagem, contratos e estratégias para que a obra continue circulando. O festival, portanto, pode ser o começo de uma segunda vida para um filme.

Cannes, Berlim, Veneza: vitrines diferentes para filmes
Os grandes festivais internacionais cumprem funções distintas dentro desse circuito. Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto e Sundance possuem programações, públicos e estruturas de mercado próprias. Entrar em uma dessas seleções significa colocar uma produção brasileira diante de curadores, críticos, distribuidores, programadores e compradores de diferentes países.

A própria Ancine mantém iniciativas voltadas à aproximação entre o cinema brasileiro e os grandes festivais. O programa “Encontros com o Cinema Brasileiro”, desenvolvido em parceria com o Ministério das Relações Exteriores e com o apoio do Cinema do Brasil, foi criado justamente para aproximar curadores internacionais da produção nacional e ampliar sua presença no circuito. Entre os festivais envolvidos ao longo das edições estão Cannes, Berlim, Toronto, Sundance, Veneza, Locarno, San Sebastián e Roterdã.

Esse trabalho de aproximação é menos visível para o público que compra ingresso, mas pode ser decisivo para um filme independente. Antes de uma produção chegar a uma sala francesa, alemã, mexicana ou canadense, existe uma rede profissional responsável por apresentá-la, negociá-la e encontrar o espaço adequado para sua circulação. É nesse ponto que o cinema brasileiro também deixa de ser somente uma questão artística e passa a envolver uma cadeia internacional de negócios.


Coproduzir para atravessar fronteiras
As coproduções internacionais entram nessa equação. Elas podem reunir produtoras, recursos, profissionais e estruturas de diferentes países e facilitar a circulação de uma obra desde sua própria concepção. Em 2026, por exemplo, a Ancine e o Ministério da Cultura lançaram uma chamada de coprodução Brasil-Portugal com aproximadamente R$ 2 milhões do Fundo Setorial do Audiovisual para longas-metragens de ficção, documentário e animação. A iniciativa brasileira foi acompanhada por uma chamada portuguesa, criando uma estrutura bilateral de financiamento.

Outro edital lançado no mesmo ano destinou aproximadamente R$ 1,5 milhão do FSA à coprodução Brasil-Argentina. A chamada prevê a participação de produtoras brasileiras independentes como coprodutoras minoritárias, enquanto o Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales, da Argentina, mantém mecanismo correspondente para os projetos em que a participação argentina seja minoritária.

São mecanismos que ajudam a entender uma das questões levantadas na matéria anterior deste dossiê: dinheiro, produção e circulação estão ligados. Um filme pode nascer em uma determinada região brasileira, contar com recursos nacionais, estabelecer uma coprodução internacional e depois encontrar seu público em festivais e salas de outros países.


Um cinema que viaja sem deixar o território para trás
Existe uma questão curiosa na internacionalização do cinema brasileiro. Para ser reconhecido fora do país, um filme nacional não precisa necessariamente parecer menos brasileiro.“Ainda Estou Aqui” levou para Veneza e depois para o Oscar uma história marcada pela ditadura militar e pela experiência de uma família carioca. “O Agente Secreto” levou Recife e a memória política do país a Cannes. “Feito Pipa” saiu do sertão cearense para Berlim e, agora, para o caminho do Oscar. “A Margem do Rio” colocou Recife novamente em uma vitrine internacional a partir de uma história de amor entre dois homens. São filmes muito diferentes entre si, mas existe um ponto de contato: nenhum deles precisou abandonar o lugar de onde veio para encontrar espectadores em outros países.

Essa circulação também altera a própria imagem do Brasil projetada internacionalmente. Em vez de um país representado somente por paisagens reconhecíveis ou por histórias já conhecidas no exterior, aparecem crianças do interior, trabalhadores, famílias, pessoas LGBTQIA+, mulheres, personagens negros, idosos, moradores de grandes cidades e comunidades afastadas dos centros econômicos. O país que viaja nas telas fica maior quando o cinema encontra mais de um Brasil dentro do Brasil.


O Oscar é uma porta, não a chegada
A escolha de “Feito Pipa” para representar o país no Oscar 2027 abre outra discussão. O reconhecimento da Academia Brasileira de Cinema coloca o filme em uma nova etapa de circulação internacional. A candidatura, por si só, não significa que a produção esteja automaticamente entre os indicados finais. A lista de indicados será anunciada posteriormente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas.

Esse cuidado é necessário porque o Oscar costuma concentrar uma atenção enorme, mas o circuito internacional é muito maior do que a premiação de Hollywood. Um filme pode construir uma carreira relevante em Berlim, Cannes, Veneza, Locarno, Toronto, Sundance ou em festivais especializados sem necessariamente chegar à disputa por uma estatueta. O percurso de “Feito Pipa” já demonstra isso. Antes da escolha para representar o Brasil, o filme passou por Berlim e recebeu dois prêmios importantes na Generation Kplus. Depois, encontrou outros festivais e públicos. A indicação ao Oscar, caso venha a acontecer, será mais uma etapa de uma trajetória que começou muito antes.


O Brasil que chega ao mundo
Ao longo de sete matérias, este dossiê passou por personagens, territórios, diretores, políticas públicas, dinheiro e agora circulação internacional. O fio que liga esses assuntos talvez esteja justamente na possibilidade de enxergar o cinema brasileiro como uma produção formada por muitos centros, muitas vozes e diferentes caminhos.

O chamado “novo cinema brasileiro” não cabe em uma geração específica. Também não se limita a uma estética ou a uma cidade. Ele aparece quando um menino de Quixadá ocupa uma tela em Berlim, quando Recife chega a Cannes e Locarno, quando uma família brasileira atravessa Veneza e alcança o Oscar, quando políticas públicas permitem que uma produtora regional coloque um projeto de pé e quando uma história criada em um território específico encontra espectadores do outro lado do oceano. Internacionalizar o cinema brasileiro não significa fazer o país caber na expectativa de quem olha de fora, mas permitir que diferentes Brasis tenham a oportunidade de ser vistos.


Dossiê Resenhando - Novo Cinema Brasileiro

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