Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.
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sexta-feira, 2 de outubro de 2026
.: Manual Crônico, de Thiago Sobral: Sorumbáticos da existência
Os meus dois ou três fiéis leitores já devem ter me ouvido dizer que eu, se pudesse, não trabalhava nunca. Ter de se lançar ao mundo e estar entre as gentes para — vejam bem — para produzir algo é, no mínimo, fazer das tripas coração (o ditado vem a calhar porque, por ora, não se apresenta outro melhor). Isso quando se tem coração para tal, ou quando ainda restam tripas. Como precisamos produzir a nossa existência, nos submetemos à tortura diária em troca de algum cobre que nos permita encher a barriga e, quem sabe, tirar algum prazer no que resta de vida.
quinta-feira, 24 de setembro de 2026
.: Quem lê, entende: no meu caso, o jornal era um caça-palavras
Encerro as duas primeiras aulas da manhã e encaro uma “janela” de quase duas horas sem atividades. Primeiro, um respiro de alívio — ou tomada de fôlego — pelos desafios que hão de vir. Com a garrafa térmica em mãos, a fumaça aguça os sentidos que precisam estar despertos. Sento-me calmamente e vou sorvendo cada gole junto com as ideias que ainda não estão aqui. Seria um ótimo momento para escrever, mas estou adiando, pois… você sabe… Forço-me, então, a buscar pelas notícias. Abro portais jornalísticos em busca de assuntos, que não dão conta de uma crônica. Do nacional ao estadual; do regional ao municipal — nada diz o que diria a crônica.
terça-feira, 18 de agosto de 2026
.: Crônica: um simples adeus para Laura Cardoso e Glória Menezes
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em agosto de 2026
E num dia 18 de agosto de 2026, amargo por se lamentar a partida da talentosa Laura Cardoso que entregou tanto aos longo de seus 98 anos, morre a atriz Glória Menezes aos 91. Algo que faz lembrar a morte de seu marido, Tarcísio Meira, que faleceu no dia seguinte da morte de Paulo José, também em agosto, mas no dia 12, em 2021.
Com menos de 24 horas de diferença, assim se foram dois grandes nomes do teatro e da televisão brasileira. Agora da ala feminina, tiradas de cena por conta da passagem implacável do tempo. Aos admiradores fica o prazer de sempre poder revisitar personagens inesquecíveis que marcaram e marcarão gerações.
Uma com um legado de vilãs que botava meda até no Diabo, como por exemplo, a mãe de Ruth e Raquel, a má Dona Isaura de "Mulheres de Areia", a austera Dona Guiomar, de "A Viagem", a beata moralista Doroteia de "Gabriela" ou a rígida matriarca de "Caminho das Índias", Laksmi Ananda. Enquanto que em meio a tantos personagens também icônicos, Glória Menezes se destaca com a vilania inesquecível de Laurinha Figueiroa de "Rainha da Sucata".
Enquanto que com Laura Cardoso eu tive a chance de saber que estive por perto, mas não a vi perfeitamente. Afinal, era a saída de uma peça de teatro, os atores num alvoroço carinhoso e muita gente em torno daquela velhinha. Só descobri com maridão que era ela bem quando perguntamos o que estava causando tamanho fervor que tinha se distanciado bastante. E, claro, Glória Menezes eu ainda tinha esperança de ao menos vê-la numa plateia de teatro. Ainda mais que já tinha visto Tarcísio Meira em "O Camareiro".
Aos admiradores de tamanho talento na atuação, de cada um dos quatro nomes citados, fica a sensação de vazio e perda, mas também a alegria de saber que tivemos o prazer de testemunhar a atuação destes monstros da interpretação (mesmo que pela telinha da televisão ou da telona do cinema).
* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Instagram: instagram.com/maryellen.fsm
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terça-feira, 23 de junho de 2026
.: Crônica: apresentação da modalidade filha à distância
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em junho de 2026
Em tempos de postar a vida na internet fica difícil entender atitudes alheias, principalmente quando se sabe que o outro tem uma pessoa idosa para cuidar. A verdade é que pouco antes da pandemia fui testemunhando uma modalidade um tanto que curiosa, por ser "à distância".
Não abordo aqui o ensino à distância, modalidade de educação mediada por tecnologias em que alunos e professores não precisam estar no mesmo espaço físico ou tempo. Afinal, na época da pandemia, tal forma de estudo foi a única saída para contornar a proibição de aglomeração.
A verdade é que em pleno 2026 testemunho a modalidade filha à distância no seu mais alto grau, tendo no foco uma idosa de 93 anos. De fato, fazer a leitura do "tô nem aí" chega a ser algo assombroso e inimaginável, mesmo acontecendo diante de seus olhos.
Com toda a distância agarrada como desculpa perfeita para a fuga do que se espera de alguém que se diz e se mostra como muito cristão, a devolutiva é de um choroso "eu te amo" para um idoso que segue sem nem mesmo uma visita desta, há mais de um ano.
De nada adianta enviar áudio com desculpas e choro como resposta para a outra filha que suporta o trato diário sem que a irmã contribua, mesmo com muitos meses de insistentes pedidos de divisão no trato daquela que também é mãe das duas.
Outro ponto assustador de toda a situação é descolamento da realidade em que a mamãe de 93 anos enfrenta. No imaginário e fotos antigas postadas, retratam a seus "amigos virtuais" uma mulher totalmente distinta, inclusive sem dificuldade de locomoção e, claro, independente.
Enquanto cantam louvores e posam para fotos nas redes sociais, ao telefone choram miséria, restando a quem está ao lado da idosa, total indignação diante de tamanho trabalho que resta apenas para uma filha, embora sejam duas.
Eis a modalidade filha à distância.
* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Instagram: instagram.com/maryellen.fsm
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sexta-feira, 22 de maio de 2026
.: Crônica: Uma rampa guardada a sete chaves
Por Maria Paula Teperino, escritora
Outro dia fui conhecer um restaurante recém-inaugurado em uma ruazinha de Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Amigos já haviam ido e comentado que a comida era ótima, assim como o ambiente. Entrei na página do restaurante no Instagram e enviei uma mensagem perguntando se o local tinha acesso para pessoas que, como eu, se deslocam com cadeira de rodas.
Aqui faço um parêntese antes de retomar o objetivo desta escrita. É extremamente constrangedor ter que enviar mensagens ou telefonar para um determinado lugar de uso público — ou seja, que recebeu um alvará do poder municipal — para perguntar se o seu corpo pode ou não frequentar aquele espaço. Estamos entrando no segundo quarto do século XXI e, pelo menos na minha cidade, o Rio de Janeiro, muitos espaços públicos continuam sem acessibilidade para pessoas com deficiência.
Feito esse parêntese, recebi rapidamente uma resposta pela rede social informando que havia acesso. Ao chegar lá — talvez por ainda ser cedo para o almoço — alguns funcionários estavam na porta. Quando estacionei o carro, e suponho que tenham visto o cartão de estacionamento para pessoas com deficiência, uma funcionária avisou que haviam ido buscar a rampa, pois, embora a porta tivesse apenas dois degraus, quem fez a reforma, em vez de optar por rampear a entrada, deve ter pensado que degraus são mais estilosos do que acessibilidade. Assim, não restou alternativa senão mandar confeccionar uma rampa de metal.
A rampa não demorou a chegar. Pasmem: ela não fica guardada dentro do restaurante, mas sim na rua ao lado. Foi preciso uma moça e um rapaz para trazê-la. Pela dificuldade com que a carregavam, dava para perceber o quanto era pesada — eles chegaram a colocá-la no chão duas vezes, tomar fôlego e continuar o trajeto, até que finalmente pudesse ser posicionada no lugar onde deveria estar fixa.
Confesso que esse foi mais um constrangimento. Os funcionários que foram buscar a rampa — um garçom e a gerente — não foram contratados para isso. Eu, como cliente, deveria ter o direito de entrar no restaurante como qualquer outra pessoa, mas não foi o que aconteceu.
Por outro lado, quando um local se torna acessível, ele não se transforma em um espaço exclusivo para pessoas com deficiência física ou mobilidade reduzida. Pelo contrário: um lugar onde uma pessoa em cadeira de rodas entra com autonomia é justamente um espaço ao qual qualquer pessoa pode acessar. E foi exatamente isso que aconteceu: a referida rampa passou a ser utilizada por todos que chegaram ao restaurante durante as aproximadamente três horas em que permaneci ali.
Agora, gostaria que você refletisse comigo: por que um equipamento de acessibilidade, como essa rampa, é sempre visto como algo de uso exclusivo de pessoas com deficiência? E, mais importante, por que, quando existe, esse equipamento costuma ficar guardado — muitas vezes trancado? Acredito que o medo do contato com um corpo fora da normatividade contribua, senão como principal razão, ao menos como um fator importante para a ideia de que não existimos, de que não frequentamos lugares para além de clínicas de reabilitação, hospitais e afins.
Depois de me deparar inúmeras vezes com situações como essa — por dever de ofício, já que sou psicanalista — pude perceber que não se trata apenas de desconhecimento ou ignorância. Existe algo para além disso. A invisibilização imposta às pessoas com deficiência e às suas demandas não acontece somente por questões sociais ou pela forma como são tratados os grupos historicamente minorizados. Isso tem nome: capacitismo.
Resolvi, então, dedicar-me a tentar responder a essa questão a partir do ponto de vista da psicanálise. Fiz um mestrado e minha dissertação abordou esse tema. Ela está sendo publicada e, em breve, convido você a ler meu livro, "Não Desvie o Olhar - A Invisibilização das Pessoas com Deficiência sob o Ponto de Vista da Psicanálise", publicado pela Editora Appris, no qual discuto essa e outras questões relacionadas ao tema.
Sobre a autora
Maria Paula Teperino construiu uma trajetória marcada pela pluralidade e pela profundidade intelectual. Graduada em Psicologia e em Direito, aprofundou sua formação no campo da psicanálise: é pós-graduada em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e em Teoria Psicanalítica pela Universidade Veiga de Almeida (UVA/RJ), instituição onde também concluiu o Mestrado em Psicanálise, Saúde e Sociedade. Atualmente, integra o Fórum do Campo Lacaniano do Rio de Janeiro. Mulher com deficiência física, Maria Paula traz à sua prática e às suas reflexões uma perspectiva singular sobre corpo, sujeito e sociedade.
sexta-feira, 15 de maio de 2026
.: Manual Crônico: Nome de garçom... Bastião, meu chapa, traz mais uma!
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
O universo já esteve em minhas mãos. Como já não sou garçom, ele não está mais. Pois, ser garçom imprime no sujeito uma universalidade rara de alcançar. Em mim, durou cerca de seis meses, e nada mais.
quinta-feira, 7 de maio de 2026
.: Manual Crônico: “Sabor média”, a nova e triste receita
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
Como não apareço por aqui há algum tempo, penso que a dona de casa esteja com saudade - ou deveria, pelo menos. E, por isso, o paciente leitor há de ouvir, de forma condescendente, as minhas lamúrias advindas do mau trabalho feito pelos padeiros de hoje em dia.
Pois bem. A média pode ser muita coisa. Podemos andar por aí a fazer média com nossos pares. A Matemática nos deu a média aritmética, que tanto custou a entrar em meus miolos. O Direito nos informa sobre o homem médio, que não sei bem pra que serve. E as padarias, universo afora, servem aos clientes a boa e velha média que, para Noel Rosa, não pode ser requentada.
Por aqui, a coisa é diferente. A média de sempre não é média, é pingado, ainda que ali a proporção de leite e café vá além de um simples pingo. Não obstante as diferenças terminológicas, a coisa vai de mal a pior. Veja bem: aqui em nossa província santista (como diz um amigo cronista da região), a média não apresenta estado líquido. Ela é sólida, muito sólida e, hoje em dia, quase um tijolo. E os padeiros… ah, os padeiros! Meu amigo! Eu não sei bem o que está acontecendo com as padarias por aí. Não sei se são todas, mas sei que são muitas.
Talvez o curioso leitor esteja se perguntando o porquê de eu estar metendo o padeiro num assunto sobre média, pois, na prática, não é ele quem prepara e serve a média comum, saboreada por quase todos. Digo quase todos, porque aqui na Baixada não bebemos a média, mas a comemos - ou comíamos, não sei mais… E acabo de me dar conta de que ainda não informei o que é, para nós, a média.
Voilà:
A média aqui é pão. Sim, pão. Aquele pão gostoso, crocante, salgado, composto por apenas quatro ingredientes básicos: farinha de trigo, água, sal e fermento biológico. A boa e velha média, que hoje se tem que buscar à padaria, mas que antes chegava à porta de casa, cedinho, pelas mãos do padeiro, que dizia “não é ninguém, não. É o padeiro”, e nos despreocupávamos da pressa — a não ser que tivéssemos pressa para comê-la quentinha.
Esse mesmo pão, que por aqui se nomeia média, é, em outros lugares, pão de sal, pão francês, cacetinho, pãozinho, pão de trigo, carioquinha, pão careca, pão Jacó, filão, pão de massa grossa, ou o que se queira dizer para nomeá-lo, agora é um ex-manjar dos deuses.
Triste, muito triste…
E a culpa só pode ser dos padeiros. Se não deles, então, dos donos das padocas, que, certamente, seguindo a onda de simplificação na composição dos alimentos, tentam economizar nos ingredientes. Não encontro mais por aqui a boa e velha média, a crocante e saborosa média. Aquela que cabe na boca a cada bocada e faz crec crec durante a manducação. Antes, recebo da moça no balcão uma massa disforme, grande e boluda, que mais se assemelha a um sapo boi.
Indignadamente, protesto contra os padeiros! Abaixo os donos muquiranas das padocas contemporâneas! Sejam honestos e informem nas vitrinas de cada padaria: NESTE ESTABELECIMENTO VENDEMOS PÃO “SABOR MÉDIA”. “Sabor média”, entendeu? Porque média, mesmo, a verdadeira média da Baixada Santista, não existe mais.
Uma pena.
Compre o livro "O Pai, a Faca e o Beijo", de Thiago Sobral, neste link.
segunda-feira, 4 de maio de 2026
.: Crônica: os lamentos da perda do que não faz parte do gosto da massa santista
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em maio de 2026
* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Instagram: instagram.com/maryellen.fsm
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quinta-feira, 30 de abril de 2026
.: Crônica: o ciclo da vida que esbarra num até logo, por Mary Ellen Farias
Por: Mary Ellen Farias dos Santos
Em abril de 2026
A vida é cíclica e grande parte dos quarentões iguais a mim, aprenderam isso com a animação "O Rei Leão", lá em 1994. Eis que em pleno 2026, um até logo doloroso se concretiza hoje.
Desde quando ouvi um grupo comentando sobre o encerramento, a não aceitação do que a princípio, parecia que aconteceria dia 29 de abril, foi inevitável. Contudo, a colher de chá de mais um dia para conseguir lidar com o amargor da pausa veio como um alento.
Em meio a um atropelo de emoções, o 2º Festival de Cinema Europeu IMOVISION com a exibição de filmes tocantes como "As Cores do Tempo" e "Amiga Silenciosa", que tratam as mudanças ao longo dos séculos, trouxeram um afago. Além de ajudar a viver ao máximo, naquele espaço tão agradável, as histórias sonhadas e transformadas em filmes.
Ao assistir pela terceira vez a cinebiografia tão comentada, "Michael", a linda homenagem musical sobre a vida e carreira do Rei do Pop, Michael Jackson, dirigida por Antoine Fuqua e estrelada por seu sobrinho, Jaafar Jackson, recebi a oportunidade como um brinde que resultou na efervescência emocional ao refletir que logo mais aquele lugar deixaria de existir. Inevitavelmente, lágrimas escorreram ao som de um dos maiores ícones culturais do século XX.
Assim, para a Cineflix Cinemas fica a mensagem final do longa "Michael", "e sua história continua...". Afinal, a produção de Michael: Parte 2 foi oficialmente confirmada.
Portanto, fica um valeu para a cidade de Santos, pois está aí a promessa de novos e melhores ares em Praia Grande. Que venha a evolução do lugar da diversão!
* Mary Ellen é editora do site cultural www.resenhando.com, jornalista, professora e roteirista, além de criadora do photonovelas.blogspot.com. Instagram: instagram.com/maryellen.fsm
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domingo, 19 de abril de 2026
.: O caso do ônibus 911, e por que errar, às vezes, pode valer a pena
Era uma viagem curta e a intenção era utilizar apenas uma linha de ônibus. Mas devido a distrações, embarcaram no ônibus errado, o que provocou um nervosismo hostil na neta, que bradava a todos uma insatisfação modorrenta:
quinta-feira, 9 de abril de 2026
.: Manual Crônico: a carteira de mamãe, não qualquer carteira
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", publicado pela Editora Patuá.
Mamãe não carrega mais a carteira, mas carregava. Não qualquer carteira, mas uma toda sua, cheia de graça e charme. Comprida, com um fecho frontal dourado e espaçosa o suficiente para que pudesse sustentar o mundo. Papai também tinha a sua, que nunca deixou de carregar consigo. Ia sempre no bolso traseiro da bermuda ou da calça. Nunca saía sem ela. Às vezes, dormia com a nádega direita protuberante. O apego aumentou depois que começou a emprestar dinheiro a juros aos amigos da rua. Coisa pouca, porque papai nunca quis ser agiota. Em seus últimos dias, a carteira estava rechonchuda.
quinta-feira, 2 de abril de 2026
.: Manual Crônico: Café para os vivos, o sabor da despedida
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.
Sem assunto na cabeça, pus-me a pensar no impensável: velórios. E por pensar muito sobre isso - uns cinco minutos, se muito - constatei que nunca fui a um velório que não ocorresse em minha cidade natal. Calma lá! Já velei alguns defuntos em outros lugares, mas velório, velório, mesmo, desses em lugar próprio para o ato, só em Cubatão. Os outros aconteceram em ambiente improvisado, ou em igreja.
Cabeça vazia, oficina do diabo. Por não ter o que pensar, o velório veio até mim, pela primeira vez. Porque, na verdade, sempre vamos aos velórios, ainda que contrariados. Quando se vela um amigo, um parente, um familiar, mal sobra tempo para as coisas interessantes que um velório pode oferecer. Mas quando vamos apenas por conhecer o defunto “de vista e de chapéu”, nossos olhos ficam secos e desimpedidos, aptos às peculiaridades que só um velório pode proporcionar.
Quando padres conhecidos meus morreram, o velório foi em igreja. Lembro-me do finado frei Lindolfo, que saiu a passear de monomotor, mas o teco-teco caiu. Adeus ao frade, que foi velado com rito e pompa na matriz de Ituporanga, em Santa Catarina. Nessa época, eu estava no meu primeiro ano de convento, com os franciscanos. O Carlinhos, seminarista como eu, sentiu-se culpado pela morte do religioso. Pouco antes da decolagem, ele havia se confessado com frei Lindolfo e julgava que o peso de seus pecados fizera o avião cair.
Difícil foi conter o riso em meio ao rito fúnebre dentro da igreja. Como pouco conhecíamos o padre-defunto, as anedotas correram soltas, à boca pequena. Os jovens seminaristas - eu à parte, claro - botavam reparo em tudo quanto era beata que se aproximava aos prantos do caixão exposto na nave central. Muito antes do padre do balão, conhecemos o frade do avião que caiu pelos pecados do Carlinhos.
Outro velório fora de um velório que fui foi o de minha vozinha. Esse, por ter acontecido há muito tempo, recebe as cores da minha memória infantil de nove anos. Tivemos que sair de Cubatão bem cedo, pois ela morava em São Bernardo do Campo. O velório aconteceu num salão de festas, ao que me lembro. Viramos a noite velando. Claro que não resisti e achei um canto que me serviu de cama improvisada. Houve tempo para o choro, fruto da saudade que eu já começava a sentir dela. Mas o que mais ficou na minha memória foi o pão com manteiga mais gostoso que comi em toda a minha vida. Até hoje me causa água na boca.
Agora em Cubatão… Lá, temos o velório Municipal, que frequentei bastante nos meus primeiros anos de adolescência. Ia porque acompanhava minha mãe às visitas ao túmulo de meu avô. Ao final, sempre dávamos uma passadinha no velório. São quatro salas, mais uma capela, que sempre acolhe um corpo extra, quando o número de defuntos aumenta.
Nessas visitas, sempre encontrávamos algum conhecido que conhecia o morto. Em meio a conversas e memórias, surgiam pontos de conexão com o defunto, o que virava ponte para o cafezinho. Ah, como eram bons aqueles velórios. Café de qualidade, cheiroso, bolachas macias, tortas, bolo de coco, de fubá, e tantas coisas…
Já nos velórios de hoje, seja em Cubatão, seja em outro lugar - nunca mais fui em velórios fora de Cubacity -, não se serve mais nada! O que aconteceu com a hospitalidade mortuária? Cadê a consideração com os amigos do defunto? Um cafezinho quente reconforta a perda, aconchega a viúva, atiça a fofoca aos mexeriqueiros, aproxima os amigos e incita o choro das carpideiras. Não larguemos essa tradição, pelo amor de quem morre!
Se eu estiver enganado, e se ainda houver velórios acolhedores, me informem, me atualizem, me convidem. E quando chegar o meu — nunca se sabe quando — que sirvam café, que haja bolo, que ofereçam chá (e uma pinguinha também, ou uma cervejinha, ou os dois, porque ninguém é de ferro; podem servir um tira-gosto, para agradar aos amigos), pois não quero convidado falando mal depois, dizendo que sentiu fome, nem cronista escrevendo sobre velórios com saudosismo barato. Depois, deixem que os mortos sepultem seus mortos, e partam para o samba. Antes, digam apenas consummatum est*, e sigam felizes sob minha memória.
* Tudo está consumado.
quinta-feira, 26 de março de 2026
.: Manual Crônico: Doutor Cacareco, quando o mundo ficou maior
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.
sexta-feira, 20 de março de 2026
.: Manual Crônico: Palavras, sem o Brasil o português não seria tão belo
Thiago Sobral é escritor. Também publica semanalmente no site Minha Arca Literária e no Instagram @thiago.sobral_. É autor do livro "O Pai, a Faca e o Beijo", a ser publicado pela Editora Patuá.
Que a Língua nos prega peças sabemos desde muito cedo. Eu, por exemplo, tropeço até hoje na palavra “exigência”. É um trava-língua dos diabos! Sempre me atravanca o caminho. No dia da criação das palavras, foi de uma leviandade pachorrenta colocar um “x” – com som de “z”, há de se frisar – ao lado de um “g”. Maldades da fonética. A minha hábil língua, nessa hora, bamboleia dentro da boca ao tentar modular o famigerado vocábulo; por fim, sibila em notas parecidas, samba, sapateia e enuncia qualquer coisa que seja próxima à pronúncia que se espera.

























